An edition of Ciência, Filosofia e… algo mais (2019)

Ciência, Filosofia e… algo mais

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Ciência, Filosofia e… algo mais

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Publish Date
Publisher
Brazil Publishing
Language
Portuguese
Edition Availability
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Ciência, Filosofia e… algo mais
2019, Brazil Publishing
in Portuguese

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Book Details


Table of Contents

CIÊNCIA, FILOSOFIA E...ALGO MAIS
um novo saber para um novo agir
Editora Brazil Publishing
Conselho Editorial
Presidente:
Rodrigo Horochovski (UFPR - Brasil)
Membros do Conselho:
Anita Leocadia Prestes (Instituto Luiz Carlos Prestes - Brasil)
Claudia Maria Elisa Romero Vivas (Universidad Del Norte - Colômbia)
José Antonio González Lavaut (Universidad de La Habana - Cuba)
Ingo Wolfgang Sarlet (PUCRS - Brasil)
Milton Luiz Horn Vieira (UFSC - Brasil)
Marilia Murata (UFPR - Brasil)
Hsin-Ying Li (National Taiwan University - China)
Ruben Sílvio Varela Santos Martins (Universidade de Évora - Portugal)
Fabiana Queiroz (UFLA - Brasil)
© Editora Brazil Publishing
Presidente Executiva: Sandra Heck
Rua Padre Germano Mayer, 407 Sala - 1
Cristo Rei ‒ Curitiba PR ‒ 80050-270
+55 (41) 3022-6005
www.aeditora.com.br
CIÊNCIA, FILOSOFIA E...
ALGO MAIS
um novo saber para um novo agir
Giorgio Borghi
CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO - EDITORA BRAZIL PUBLISHING
B732c Borghi, Giorgio
Ciência, fi losofi a e... algo mais: Um novo saber para um novo agir / Giorgio Borghi;
Curitiba, PR: Brazil Publishing, 2019.
136p.; 14x21 cm.
ISBN 978-85-68419-85-4 Papel
978-85-68419-86-1 E-book
1. Ciência. 2. Filosofi a. 3. Lógica. 4. Física. I. Título. II. Borghi, Giorgio.
CDD 110
CDU 16
Comitê Científi co da área Ciências Humanas
Presidente: Professor Doutor Fabrício R. L. Tomio (UFPR – Sociologia)
Professor Doutor Nilo Ribeiro Júnior (FAJE – Filosofi a)
Professor Doutor Renee Volpato Viaro (PUC/PR – Psicologia)
Professor Doutor Daniel Delgado Queissada (UniAGES – Serviço Social)
Professor Doutor Jorge Luiz Bezerra Nóvoa (UFBA – Sociologia)
Professora Doutora Marlene Tamanini (UFPR – Sociologia)
Professora Doutora Luciana Ferreira (UFPR – Geografi a)
Professora Doutora Marlucy Alves Paraíso (UFMG – Educação)
Professor Doutor Cezar Honorato (UFF – História)
Professor Doutor Clóvis Ecco (PUC/GO – Ciências da Religião)
Professor Doutor Fauston Negreiros (UFPI – Psicologia)
Professor Doutor Luiz Antônio Bogo Chies (UCPel – Sociologia)
Professor Doutor Mario Jorge da Motta Bastos (UFF – História)
Professor Doutor Israel Kujawa (PPGP do IMED – Psicologia)
Professor Doutor Luiz Fernando Saraiva (UFF – História)
Professora Doutora Maristela Walker (UTFPR – Educação)
Professora Doutora Maria Paula Prates Machado (UFCSPA – Antropologia Social)
Editor Chefe: Sandra Heck
Diagramação e Projeto Gráfi co: Brenner Silva
Revisão de Texto: O autor
Revisão Editorial: A Editora Brazil Publishing
DOI: 10.31012/cienciafi losofi aealgomais
Curitiba / Brasil
2019
O que deveríamos fazer, creio eu, era renunciar à ideia de fontes últimas do conhecimento e admitir que todo o conhecimento é humano; que o nosso conhecimento está misturado
com os nossos erros, os nossos preconceitos, os nossos sonhos
e as nossas esperanças; que tudo o que podemos fazer é tatear em busca da verdade, mesmo que ela esteja fora do nosso
alcance. [...] Se desta forma admitirmos que, por muito longe
que tenhamos ido na nossa descoberta do desconhecido, não
existe qualquer autoridade dentro de toda a esfera do nosso
conhecimento que se encontre fora do alcance da crítica, poderemos então, sem risco, reter a ideia de que a verdade está
para além da autoridade humana. E devemos retê-la, pois sem
esta ideia não pode haver nenhum critério objetivo de investigação, nenhuma crítica das nossas conjecturas, nenhuma exploração do desconhecido, nenhuma busca do conhecimento
(POPPER, 2006, p. 52).
ABSTRACT
The problem of knowledge marked the beginning of the
modern age and determined the emergence and development of
the “scientific” knowledge that revolutionized human existence
and manifested itself in the conviction that knowing means to objectively describe things as they are. It is this objectivity and this
realism that contemporary reflection deeply questions, seeking a
new vision of human knowledge that also includes a new vision
of human existence in the world. We must accept that we are immersed in the mystery and our knowledge can never disregard this
dimension of our existence.
The pages of this book invite us to rethink knowledge as
a process of interpretation of a “mystery” that is constitutive of
human existence in the world. Every process of human knowledge is the incessant attempt to interpret this mystery, which
can never be fully unveiled by science or philosophy, but whose
unceasing search can always bring us closer to the truth that is
humanly possible.
PALAVRAS-CHAVE
I CAP.: Ciência, Filosofia, Física pré-socrática, Mito, Razão.
II CAP.: Paradoxo, Conhecimento, Racionalidade, Verdade, Fé.
III CAP.: Filosofia, Hermenêutica, Conhecimento, Pensamento,
Ética.
IV CAP.: Lógica, Racionalidade, Complexidade, Diálogo, Encarnação.
V CAP.: Ignorância, Dogmatismo, Relativismo, Misticismo, Educação.
VI CAP.: Espiritualidade, Certeza, Mistério, Espanto, Educação.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO – EM BUSCA DE UM NOVO SABER... 13
CAPITULO I – A CIÊNCIA NASCE COMO FILOSOFIA
E A FILOSOFIA NASCE COMO CIÊNCIA..................23
A origem ..................................................................................26
Do mito à razão? ......................................................................29
Observação ou teoria?...............................................................32
O que filosofia e ciência fizeram de Deus?................................36
A física em fragmentos.............................................................39
CAPITULO II – O PARADOXO DA RACIONALIDADE
CIENTÍFICA..................................................................43
O paradoxo teológico da arqué..................................................46
A verdade se inventa ou se encontra?........................................49
O paradoxo teológico/metafísico na modernidade....................53
Para além do Paradoxo .............................................................55
CAPITULO III – A FILOSOFIA ENTRE CONHECER
E PENSAR ......................................................................59
A dimensão hermenêutica da racionalidade .............................60
A faculdade científica e a faculdade calculativa em Aristóteles....62
Conhecimento e pensamento em Kant ....................................65
A missão e a paixão da filosofia ................................................70
CAPITULO IV – CRITICA DA RAZÃO LÓGICA.........73
Caminhos da racionalidade lógica ............................................75
Racionalidade e complexidade..................................................79
Rumo uma racionalidade dialógica...........................................83
CAPITULO V – SÓCRATES, A EDUCAÇÃO E A
SABEDORIA DO NÃO-SABER.....................................89
A ameaça do não saber socrático ..............................................94
A espiritualidade filosófica monoteísta .....................................99
Misticismo filosófico e educação ............................................102
Entre o dogmatismo e o relativismo.......................................110
CAPITULO VI – DEUS É QUEM SABE: DESAFIOS E
LIMITES DO CONHECIMENTO................................ 111
Descartes versus Moisés..........................................................113
Queremos saber o nome .........................................................117
Queremos ver o rosto .............................................................119
Queremos possuir a terra........................................................121
CONCLUSÃO – HEIDEGGER E PAPA FRANCISCO....125
REFERÊNCIAS ............................................................131
SOBRE O AUTOR........................................................135
INTRODUÇÃO
EM BUSCA DE UM NOVO SABER
A questão do conhecimento se constitui como o fator determinante da reflexão do homem ocidental nos últimos cinco séculos, dando forma àquele mundo moderno, com as suas potencialidades e as suas contradições, que todos conhecemos. O problema
do conhecimento marcou o início da época moderna e determinou
o surgimento e o desenvolvimento daquele conhecimento “científico” que revolucionou a existência humana. Através da nova física, baseada na convicção que o mundo está escrito em caracteres
matemáticos (Galileu), e através das novas teorias do empirismo e
do racionalismo, os seres humanos se acharam finalmente na condição de se tornar “como que senhores e possuidores da natureza”
(DESCARTES, 1996, p. 116), violentando-a para arrancar-lhe os
seus secretos. Este conhecimento “científico” substituiu gradualmente qualquer outro tipo de conhecimento, particularmente o
teológico e o metafísico, até se apresentar, com o Positivismo do
século XIX, como a nova Religião da Humanidade. Uma religião
cujo dogma principal era de tipo gnosiológico e se manifestava na
convicção que conhecer significa descrever objetivamente as coisas
assim como elas são.
É esta objetividade e este realismo que a reflexão contemporânea questiona profundamente e quando se fala em pós-modernidade se faz referência também a uma nova visão de conhecimento humano que, naturalmente, comporta uma nova visão de
existência humana no mundo. Assim, no início do terceiro milênio,
como no início da época moderna, a questão do conhecimento se
apresenta de novo como determinante. Somos desafiados a repen-
14 GIORGIO BORGHI
sar as dimensões da nossa racionalidade e os paradigmas gnosiológicos adotados até agora hegemonicamente, e isso em nome de
uma coexistência mais humana.
A crise estrutural da racionalidade moderna e dos paradigmas do conhecimento científico, como todas as crises, carrega
em si potencialidades e riscos. Por isso, o momento presente é particularmente delicado e requer muita sabedoria, para não deixar de
cumprir a missão mais alta do ser humano, que é a busca incansável da verdade.
É preocupante constatar que, como alternativa a certa
ingenuidade gnosiológica moderna, muitos não encontram nada
melhor do que um ceticismo conformado, que leva a um relativismo quase que absoluto. Se não existe objetividade científica do
conhecimento, então a realidade é “criada” pelo sujeito cognoscente e a verdade é simplesmente o resultado de uma convenção
intersubjetiva, baseada na autarquia e anarquia das linguagens humanas. Nesta perspectiva, não podemos supor a existência de uma
realidade ontológica independente do sujeito do conhecimento
e o conhecimento humano é só uma representação da realidade
que nós construímos; construção cuja função é puramente adaptativa, isto é, permite adaptar a realidade às nossas exigências e as
nossas exigências à realidade. Assim, o relativismo e o utilitarismo dos que têm maior potencial “representativo” se tornariam a
marca registrada do período que segue a modernidade. Aliás, isso
seria a radicalização do que já aconteceu como resultado de certa absolutização do saber científico, que determinou a hegemonia
cultural planetária de quem detinha o potencial “representativo”
científico-tecnológico. “Fazendo-se uma ressalva ao novo olhar da
ciência de ponta, que busca integrar maior nível de incerteza e
de improbabilidade à realidade, ciências e doutrinas são frutos do
desejo de poder e não do desejo desinteressado de ler a realidade”
(BONDER, 2001, p. 133).
CIÊNCIA, FILOSOFIA E... ALGO MAIS 15
Como alternativa a este relativismo gnosiológico utilitarista e funcional aos interesses de quem “pode”, temos a possibilidade de repensar todo o conhecimento humano como processo histórico/escatológico de interpretação de um “mistério” que é
constitutivo da nossa existência humana no mundo. Nós estamos
mergulhados no mistério e o nosso conhecimento, enquanto conhecimento humano, jamais poderá prescindir desta dimensão do
nosso ser. Existe uma realidade ontológica que nos precede e que
nos envolve misteriosamente, e todo o processo do conhecimento
humano é a tentativa incessante de interpretar este mistério, que
nunca poderá ser totalmente desvendado no horizonte da história,
mas cuja busca interpretativa pode nos aproximar sempre mais de
uma verdade que não se “inventa”, mas se “encontra”.
“Ser racional – se pergunta Edgar Morin (2001b, p. 57)
– não seria compreender os limites da racionalidade e da parte de
mistério do mundo?”. E ele mesmo responde nestes termos: “A verdadeira racionalidade conhece os limites da lógica, do determinismo
e do mecanicismo; sabe que a mente humana não poderia ser onisciente, que a realidade comporta mistério” (MORIN, 2002, p. 23).
Este autor fala insistentemente da necessidade de uma “reforma do
pensamento”; uma reforma que não se limite simplesmente a ajustes
estratégicos, que possam nos permitir de dar conta da complexidade do conhecimento no contexto atual, mas sim de uma reforma
de pensamento que leve a um novo tipo de saber. Ora, para que
esta reforma radical se torne possível, é preciso uma conversão da
lógica agressiva do conhecimento científico moderno a uma “dia-
-lógica” respeitosa do mistério da alteridade: alteridade da natureza,
dos outros, do Outro. Trata-se de uma nova atitude de espírito, que
acredite firmemente na verdade, respeitando-a. A palavra respeito,
do latim “respicere” (observar, contemplar sem querer tomar posse),
indica uma atitude gnosiológica contemplativa, a única que pode
nos permitir aproximar-nos do mistério da verdade.
16 GIORGIO BORGHI
Ivo Storniolo, na introdução ao Tão Te King, declara:
Há muito tempo o mundo ocidental está seguindo o caminho do Yang, o caminho da mente masculina, ativa, agressiva,
racional e científica, levando o mundo à beira da destruição. É
tempo de recuperar o caminho do Yin, da mente feminina, passiva, paciente, intuitiva, poética, geradora e nutridora da vida (LAO
TSE, 2001, p. 11).
Para esta conversão (Metánoia) é preciso um processo
de esvaziamento (Kenosis). Escreve Lao-Tse: “O que existe é uma
vantagem, mas sua utilidade vem da sua vacuidade”. (Idem, p. 56)
Traduzindo em linguagem filosófica ocidental, poderíamos dizer
que tudo o que existe encontra a própria consistência/utilidade no
que o conhecimento científico considera “nada” (Cfr. Heidegger).
O Ser “entificado’ corresponde ao princípio masculino/agressivo,
“racional” do conhecimento. O não-ente representa o potencial
mistérico da realidade, que pode ser descoberto só pela atitude
contemplativa/feminina do conhecimento. Sem a união entre estes dois modos, qualquer conhecimento fica unilateral, parcial e,
portanto, humanamente prejudicial.
Retomando uma imagem utilizada por João Batista
Libânio, podemos comparar o ser humano a um edifício de dois
andares. No andar de baixo (o térreo) temos as cinco janelas dos
sentidos, que nos permitem cheirar, saborear, ver, escutar, tocar o
mundo ao nosso redor e comunicar com ele. Esse primeiro andar
é comum a todo o mundo animal. Mas nós, seres humanos, temos
um andar superior onde se abrem as janelas da beleza, da verdade,
do bem e da transcendência.
- A janela da beleza nos permite colher, admirar, curtir
a harmonia do Universo e da vida humana. “Que lindo!”: só o ser humano sabe dizer isso e traduzir com
isso uma experiência interior muito bonita e importante, também para o processo do conhecimento.
CIÊNCIA, FILOSOFIA E... ALGO MAIS 17
- A janela da verdade nos abre um horizonte parecido
ao que podemos ver observando o mar: para quem
mora em Salvador-Bahia, parece que o mar termina
aí, ao lado da ilha de Itaparica, mas, chegando lá, se
descobre que tem muito mais.
- A janela do bem nos transmite uma luz especial.
Platão dizia que o Bem é como o sol: para enxergar as
coisas ao nosso redor não basta ter olhos bons, precisa
também da luz; esta luz é o bem. Só quem abre a janela do Bem consegue enxergar direito tudo o resto.
- A janela da transcendência nos revela o nosso limite
humano, mas, ao mesmo tempo nos liberta da angustia
deste limite, ajudando-nos a sentir que podemos nos
entregar ao mistério como uma criança no colo da mãe.
Das janelas da beleza, da verdade, do bem e da transcendência descortinamos horizontes que o “andar de baixo” nunca vai
nos permitir alcançar.
Quanto mais abertas estiverem e quanto mais olharmos através delas, mais felizes seremos. A casa tem suas escadas que
ligam os andares. As janelas de cima enriquecem o que se vê
embaixo. E o que se vê embaixo corporifica muito do que se
vislumbra em cima. (LIBANIO, 2001, p. 94).
Na teologia cristã encontramos um dado pneumatológico muito interessante para a elaboração de um novo saber.
No Evangelho de João se fala do Espírito Santo nestes termos:
“Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena” ( Jo.16:13).1
E este Espírito da Verdade é chamado, no
1 Os textos bíblicos serão citados sempre segundo a tradução portuguesa da Bíblia de
Jerusalém, São Paulo: Paulus, 2002.
18 GIORGIO BORGHI
mesmo contexto, de Paráclito ( Jo. 16:7). Ora, Paráclito, do grego
parakaleo, significa “chamado perto”, e este chegar perto pressupõe
a criação de um vazio que se torna o espaço que permite a aproximação do Espírito (pneuma/vento). Assim, a vida no Espírito,
que conduz à verdade que liberta, é possível só criando um vazio
daquele que Lao Tse chama de “pequeno eu” e que, filosoficamente
falando, tem a ver com o sujeito moderno de origem cartesiana.
Paulo nos lembra que “o fruto do Espírito é amor, alegria,
paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão,
autodomínio” (Gal.5:22-23). A nova atitude gnosiológica, que podemos chamar de espiritualidade do conhecimento, pode nos levar a um “novo saber” com estas mesmas características. Um saber
que conjuga fidelidade com amor, alegria, paciência, benevolência,
mansidão e autodomínio. Isto é, um saber que realmente acredita
na verdade e leva a sério toda a sua relevância e o seu mistério (fidelidade), mas sem nenhum dogmatismo ou fanatismo.
O rabino Bonder destaca a importância de se buscar a verdade em vez da certeza, como caminho para evitar dogmatismos e
fanatismos. “As verdades admitem que existam em oposição a elas
outras verdades. A certeza, no entanto, é ditatorial. A primeira diz
respeito à busca humana, a segunda ao desejo, profundamente arraigado em nós, de controle” (BONDER, 2001, p. 125). Observa
que o extremo oposto da espiritualidade não é o materialismo ou
a ciência, mas justamente o fanatismo. “O fanatismo privilegia a
resposta, até porque se esqueceu da pergunta ou porque deliberadamente quer se ver livre da pergunta”. (Idem, p. 134)
Qualquer tipo de resposta que nós possamos encontrar
nunca poderá esgotar a transcendência da verdade escondida na
luminosidade solar do mistério da vida e do mundo. Admitir a
existência dessa verdade transcendente não significa perder a possibilidade de desenvolver livremente o processo do nosso conhe-
CIÊNCIA, FILOSOFIA E... ALGO MAIS 19
cimento, mas, pelo contrário, significa descobrir as condições da
profunda liberdade interior de quem, não se considerando dono,
mas só amigo da verdade, com alegria, paciência e benevolência,
busca dialogicamente os rastros dela em todas as manifestações do
mundo e da vida.
O presente livro nasce da ideia de reunir numa única
publicação vários textos escritos nestes últimos anos, que revelam
uma substancial convergência temática. Por isso, cada capítulo tem
uma sua autonomia, embora tenha sido escolhida um organização
editorial que respeita certa sequência lógica.
O primeiro capítulo analisa a física pré-socrática como
origem comum de filosofia e ciência, destacando que o esquecimento desta origem comum pode prejudicar tanto a filosofia como
a ciência. A física pré-socrática envolve, em uma única busca, o que
nos acostumamos a considerar como próprio da reflexão filosófica, e que tem uma dimensão essencialmente metafísica, e aquela
investigação empírica que caracteriza o conhecimento científico.
Mas a peculiaridade da física originária consiste na junção inextricável destas duas dimensões: antes da reflexão filosófica ser filosofia e da investigação empírica ser ciência, as duas foram, de
forma nascente, “investigação sobre a physis”. O aparecimento da
racionalidade filosófico-científica na Grécia antiga é normalmente
considerado como uma passagem (a) do mythos ao logos, (b) de
elaborações mais ou menos fantasiosas à observação da realidade
e (c) de uma visão religiosa a uma visão profana e laica do mundo
e da vida. O capitulo analisa criticamente estas três questões para
poder detectar traços constitutivos do código genético comum à
filosofia e ciência.
O capítulo segundo reflete sobre o aparecimento da racionalidade filosófico-científica, com a sua pretensão de abarcar sozinha a explicação total da realidade, e a sua incapacidade de fazer
20 GIORGIO BORGHI
isso sem lançar a mão, direta ou indiretamente, de recursos que não
pertencem ao campo puramente científico e que comportam uma
dimensão metafísico-teológica. Esse paradoxo se encontra já no
pensamento originário dos pré-socráticos e é elaborado positivamente pela corrente filosófica que tem sua origem em Sócrates. O
mesmo paradoxo acompanha todo o debate gnosiológico da modernidade, que, na hora em que declara como totalmente superado
o discurso teológico e metafísico, apresenta o positivismo como
uma nova “religião”. O artigo conclui apresentando a possibilidade
de superação do paradoxo através da aceitação inteligente do mistério como dimensão constitutiva do conhecimento humano.
No terceiro capítulo, a partir das provocações de uma das
Cartas a Lucílio de Sêneca, se destaca a filosofia como uma forma
superior da razão humana, distinta de outras formas de razão e
de engenho humano. Trata-se de uma distinção que aparece já na
primeira elaboração sistemática da filosofia grega e que continua
presente nos debates atuais sobre o sentido da filosofia e do seu
ensino e a articulação da filosofia com as outras ciências. O capítulo procura aprofundar a compreensão desta distinção analisando a distinção aristotélica entre a faculdade racional que podemos
chamar científica e a faculdade racional que Aristóteles chama de
calculativa. Esta última delibera sobre ações relacionadas com os
bens humanos, em relação às quais há divergências, porque implicam numa atividade racional de interpretação e envolvimento
existencial e não somente de constatação neutra e objetiva. Por fim,
se articula esta discussão à distinção kantiana entre conhecimento
fenomênico e pensamento metafísico, destacando a dimensão do
pensar como o espaço que se abre para a moralidade.
O capítulo quarto entende refletir sobre a possibilidade
de repensar criticamente a hegemonia da racionalidade lógica, característica da civilização filosófica ocidental, hipotizando a passa-
CIÊNCIA, FILOSOFIA E... ALGO MAIS 21
gem a uma racionalidade dialógica que possa resgatar a variedade
e complexidade das formas de conhecimento humano. Depois de
recuperar sinteticamente as características básicas da racionalidade lógica, nas suas origens gregas, se evidencia como o contexto
do pensamento filosófico contemporâneo, sucessivo a Nietzsche
e a Heidegger, questiona a pretensa hegemonia deste paradigma
gnosiológico, abrindo horizontes culturais menos “lógicos’ e mais
“dialógicos’. Isso possibilita uma nova visão dos saberes regionais
periféricos e uma nova cultura ética de respeito e valorização das
diferenças, numa convivência humana não violenta. O mistério
cristão da encarnação pode nos oferecer a sugestão de um caminho
alternativo àquele proposto pela pura racionalidade lógica. A razão
lógica, para funcionar, precisa sempre, de um modo ou de outro,
se desencarnar e desconsiderar os limites e a complexidade nem
sempre racionalizável da “carne’. Na “lógica’ da Encarnação, em
vez, a racionalidade (o lógos) se torna carne. Trata-se da dimensão
“erótica’ do conhecimento, que destaca como componente decisivo um envolvimento “carnal’, e não simplesmente lógico, naquela
busca de sentido que caracteriza todo pensar.
O quinto capítulo propõe uma analise do tipo de saber
que está em jogo na educação, refletindo sobre o sentido do não
saber socrático que se contrapõe ao saber tradicional da pólis e ao
novo saber dos sofistas. Considerando a relação entre saber e pensar, a atenção se concentra sobre o diálogo platônico Apologia de
Sócrates, onde encontramos a primeira tematização do conflito
entre a visão tradicional e a visão filosófica da educação. Para uma
correta compreensão desse conflito é necessário entender a nova
relação que a filosofia inaugura com a dimensão transcendente da
verdade, que se torna decisiva para uma paidéia de tipo socrático,
a ponto de ser considerada motivo suficiente para a condenação à
morte do filósofo. O que torna ameaçadora a atitude de Sócrates
22 GIORGIO BORGHI
em relação à educação é o seu misticismo filosófico monoteísta,
que relativiza tanto o antropomorfismo das verdades consideradas
intocáveis pelos religiosos, como o antropocentrismo absoluto da
visão dos sofistas.
Considerando a dimensão hermenêutica da racionalidade
humana, o capítulo sexto tenta repensar o tema da transcendência
da verdade como busca de uma nova atitude gnosiológica e ética
nos processos educacionais. Essas considerações fundamentam o
esboço de uma ”espiritualidade do conhecimento”, para um saber
que não elimine o Mistério. Para este fim, recorre-se à história e
figura bíblica de Moisés, como paradigma de uma nova atitude de
relação com a verdade, alternativa à busca das certezas que caracteriza a modernidade. Na procura dessas certezas, queremos definir,
conferir, possuir; mas isso prejudica a possibilidade do encontro
com uma verdade que não se deixa encerrar nas nossas certezas e
que permanece sempre inesgotável.
Apresento estas reflexões com o convencimento socrático
de que o que não sei é muito mais do pouco que sei, esperando
poder provocar pensamentos e diálogos que contribuam para uma
convivência humana mais feliz.
CAPITULO I
A CIÊNCIA NASCE COMO
FILOSOFIA E A FILOSOFIA
NASCE COMO CIÊNCIA
Os diferentes povos da Antiguidade – assírios e babilônios,
chineses e indianos, egípcios, persas e hebreus -, todos tiveram visões próprias da natureza e maneiras diversas de explicar os fenômenos e processos naturais. Só os gregos, entretanto, fizeram ciência, e é na cultura grega que podemos
identificar o princípio deste tipo de pensamento que podemos denominar, nesta sua fase inicial, de filosófico-científico.
(MARCONDES, 2002, p. 19).

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Published in
Curitiba, Brazil
Copyright Date
2019

Edition Identifiers

Open Library
OL27056082M
ISBN 13
9788568419854

Work Identifiers

Work ID
OL19868569W

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