Check nearby libraries
Buy this book
Last edited by brazilpublishing
June 28, 2019 | History
A sucessiva ofensiva contra autoridades ajudou a rebaixar o nível da função pública e de seus atuantes em todas as partes do mundo produzindo choques de realidade que permitiram o sucesso eleitoral de gente tipo Donald J. Trump, Emmanuel Macron e Jair Messias Bolsonaro. Essa porteira do dissenso segue aberta e sem previsão de contenção. A investigação de Daniel Afonso da Silva neste livro vai ao encontro de aspectos da construção do mundo contemporâneo que forjaram essa realidade e nos trouxe até aqui.
Check nearby libraries
Buy this book
| Edition | Availability |
|---|---|
|
1
Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas
2019, Brazil Publishing
in Portuguese
6550160219 9786550160210
|
aaaa
|
Book Details
Table of Contents
MUITO ALÉM DOS OLHOS AZUIS
E OUTROS ESCRITOS SOBRE
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
CONTEMPORÂNEAS
Editora Brazil Publishing
Conselho Editorial Internacional
Presidente:
Rodrigo Horochovski (UFPR - Brasil)
Membros do Conselho:
Anita Leocadia Prestes (Instituto Luiz Carlos Prestes - Brasil)
Claudia Maria Elisa Romero Vivas (Universidad Del Norte - Colômbia)
José Antonio González Lavaut (Universidad de La Habana - Cuba)
Ingo Wolfgang Sarlet (PUCRS - Brasil)
Milton Luiz Horn Vieira (UFSC - Brasil)
Marilia Murata (UFPR - Brasil)
Hsin-Ying Li (National Taiwan University - China)
Ruben Sílvio Varela Santos Martins (Universidade de Évora - Portugal)
Fabiana Queiroz (UFLA - Brasil)
© Editora Brazil Publishing
Presidente Executiva: Sandra Heck
Rua Padre Germano Mayer, 407
Cristo Rei ‒ Curitiba PR ‒ 80050-270
+55 (41) 3022-6005
www.aeditora.com.br
MUITO ALÉM DOS OLHOS AZUIS
E OUTROS ESCRITOS SOBRE
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
CONTEMPORÂNEAS
Daniel Afonso da Silva
CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO - EDITORA BRAZIL PUBLISHING
Silva, Daniel Afonso da
S586m Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas /
Daniel Afonso da Silva - 1.ed. – Curitiba: Brazil Publishing, 2019.
293p.: il.; 23cm
ISBN 978-65-5016-021-0
1. Relações internacionais. I. Título.
CDD 327 (22.ed)
CDU 327
Comitê Científi co da área Ciências Humanas
Presidente: Professor Doutor Fabrício R. L. Tomio (UFPR – Sociologia)
Professor Doutor Nilo Ribeiro Júnior (FAJE – Filosofi a)
Professor Doutor Renee Volpato Viaro (PUC – Psicologia)
Professor Doutor Daniel Delgado Queissada (UniAGES – Serviço Social)
Professor Doutor Jorge Luiz Bezerra Nóvoa (UFBA – Sociologia)
Professora Doutora Marlene Tamanini (UFPR – Sociologia)
Professora Doutora Luciana Ferreira (UFPR – Geografi a)
Professora Doutora Marlucy Alves Paraíso (UFMG – Educação)
Professor Doutor Cezar Honorato (UFF – História)
Professor Doutor Clóvis Ecco (PUC-GO – Ciências da Religião)
Professor Doutor Fauston Negreiros (UFPI – Psicologia)
Professor Doutor Luiz Antônio Bogo Chies (UCPel – Sociologia)
Professor Doutor Mario Jorge da Motta Bastos (UFF – História)
Professor Doutor Israel Kujawa (PPGP da IMED – Psicologia)
Professora Doutora Maria Paula Prates Machado (UFCSPA- Antropologia Social)
Editor Chefe: Sandra Heck
Diagramação e Projeto Gráfi co: Brenner Silva
Capa: João Neto
Revisão de Texto: O Autor
Revisão Editorial: Editora Brazil Publishing
DOI: 10.31012/978-65-5016-022-7
Curitiba / Brasil
2019
Para Sebastiana Maria Abraão,
minha avó, viva em mim.
No sabemos lo que
nos pasa, y esto es
precisamente lo que nos
pasa, no saber lo que nos pasa.
José Ortega y Gasset
APRESENTAÇÃO
COMO EXPLICAR A DESORDEM
DO MUNDO?
Daniel Afonso da Silva principia seu belo livro com a mais certeira epígrafe que se poderia imaginar nos dias que correm. Vai buscá-la
em Ortega y Gasset, que em aparente paradoxo, afirmava: “No sabemos lo
que nos pasa, y esto precisamente es lo que nos pasa, no saber lo que nos pasa”.
Não vejo como se poderia dizer melhor. O que caracteriza a condição contemporânea do homem no mundo consiste na perplexidade, na
incapacidade de perceber o que nos está acontecendo. Ortega escreveu a
frase décadas atrás. É possível que no seu tempo a sensação de desamparo
diante das mudanças se parecesse à de agora, justificando plenamente a
confissão de atordoamento. Hoje, contudo, temos a impressão de que a
frase passou a ser mais verdadeira do que jamais havia sido antes. Permitenos com tal precisão dar vazão à incapacidade de compreender o que se
abateu sobre o mundo nos últimos anos que deveria ter sido guardada
para que a pudéssemos utilizar pela primeira vez.
O título que tomei emprestado para esta Apresentação não me
pertence. A frase foi escrita por Gustavo Corção, romancista católico injustamente esquecido. Quando fiz o exame de ingresso ao Instituto Rio
Branco, em 1958, nosso examinador de Cultura Geral, nada menos que
João Guimarães Rosa, nos propôs como um dos dois temas sobre os quais
deveríamos discorrer a indagação: “Como explicar a desordem do mundo?”.
Contei essa história num ensaio que escrevi em 2006 para celebrar os 60
anos de Sagarana e os 50 de Grande Sertão, Veredas.
A expressão de perplexidade diante do mundo e da vida unifica
as palavras de Ortega com as de Corção. Ambos tentavam entender o
que lhes estava a suceder, adivinhando-se na própria formulação que não
lograriam resposta satisfatória. Se esses tempos de Ortega e Corção se
afiguram para nós incomparavelmente mais simples e compreensíveis que
os atuais, isso se deve talvez à pretensão nascida de uma ilusão de ótica à
distância de 100 ou 60 anos.
Sem o benefício ou a distorção proporcionada pela perspectiva
do distanciamento, os acontecimentos contemporâneos nos atordoam e
desorientam. Entender o que nos passa, o que nos acontece, o que faz
girar a roda do mundo em torno de nossas cabeças estonteadas é justamente o objeto das reflexões de Daniel. Logo no início, nas suas Notas de
cabotagem, ele afirma que o fio condutor de suas pesquisas reside na força
da autoridade na formação das relações internacionais contemporâneas.
As pessoas que encarnam a autoridade – artistas, diplomatas, altos
funcionários, homens de Estado – se confrontam o tempo todo com a gente do comum, outsiders, “a massa de eternos contestadores dessa emanação
marcada a ferro e fogo pelas autoridades estabelecidas”. Esses homens e
mulheres do povo e do comum são os que recomeçaram a História após os
atentados do 11 de setembro de 2001. Elas e eles é que encheram as ruas
árabes na primavera de 2011 ou as noites brasileiras de junho de 2013.
E, prossegue, essa “ofensiva contra autoridades ajudou a rebaixar
o nível da função pública [...] produzindo choques de realidade que permitiram o sucesso eleitoral de gente tipo Donald J. Trump, Emmanuel
Macron e Jair Messias Bolsonaro”. A conclusão da introdução deixa escancarada a caixa de Pandora: “Essa porteira do dissenso segue aberta e
sem previsão de contenção”.
Se houvesse alguma dúvida sobre o acerto da previsão, basta
atentar na confirmação mais contundente da tese, ocorrida depois de terminado o livro. A espontânea sublevação dos “gilets jaunes”, os “coletes
amarelos” franceses, no seu obstinado desafio a Macron, ora símbolo do
status quo, indica que forças profundas estão desestabilizando as certezas
das classes dirigentes no mundo todo.
O conjunto dos três primeiros capítulos, Após Gerônimo, De
Benghazi, uma flor e Adeus, Gerônimo constitui uma unidade coerente e
bem entrosada. Representa de forma compacta uma síntese poderosa desse estranho período da política externa norte-americana que vai do começo da década de 1990, com o colapso do comunismo, da União Soviética e
da Guerra Fria, até o final da era Obama. Iniciado sob o signo do instante
unipolar, da aparente conquista do estatuto de única Superpotência, esgota-se na ilusão do discurso de posse do segundo mandato de Obama
(21 de janeiro de 2013), no qual se fazia a afirmação de que “uma década
de guerra está chegando ao fim”.
Esses três capítulos fornecem o pano de fundo das relações internacionais contemporâneas. Pelo seu objeto – o exame das idas e vindas,
avanços e recuos da Superpotência por excelência, os Estados Unidos da
América – proporcionam uma perspectiva global e envolvente do sistema
mundial. A lente da análise amplia o foco para examinar de perto os temas
nervosos da agenda internacional: terrorismo, Afeganistão, Iraque, Líbia,
Síria, Irã, Primavera Árabe, Primeira Guerra do Golfo, relações com a
China, com a Rússia, o veto francês à invasão do Iraque.
O método, a linguagem, o estilo, somam-se para imprimir à
narrativa rara capacidade de capturar o real em todas suas complexas e
contraditórias manifestações. Pondo de lado qualquer veleidade de organizar a realidade de maneira ilusoriamente linear, sequencial, uma coisa
depois da outra, o autor se vale de instrumentos quase cinematográficos
para transportar o leitor em câmera lenta ou acelerada a vários estágios
nos tempos da História. Nada é estático ou fechado em si mesmo. Por
meio de sucessivos flashes backs, aprende-se que o passado, como ensinava
Faulkner, nem é passado pois não acabou de passar.
Ao longo do texto, as citações de impacto ajudam a compreender
por intuição o que às vezes seria árduo de captar por meio de conceitos e
argumentos de lógica convencional. É o que se deduz de outra maravilhosa epígrafe de Ortega y Gasset na abertura dos três capítulos iniciais. Dizia
o filósofo em registro irônico e paradoxal: “Una politica es clara cuando su
definición no lo es. Hay que decidirse por una de estas dos tareas incompatibles:
o se viene al mundo para hacer política, o se viene para hacer definiciones”.
Tudo o que vem a seguir confirma a impossibilidade de fazer
política com definições claras e coerentes. O próprio tema que costura
os capítulos – a suposta conclusão de uma década de guerra – serve para
demonstrar como é frustrante tentar fazer a História se ajustar bem-comportada dentro do estreito e conveniente figurino desenhado pelos políticos em função de seus interesses e objetivos. O presidente Barack Obama
decretava a exaustão de uma década de guerra em 2013 mais por wishful
thinking que por convicção fundada nos fatos. Passados seis anos da pro-
clamação, os Estados Unidos se debatem ainda na sempre adiada retirada
de seus soldados do arco de crises do Oriente islâmico que se estende por
inúmeros países, do Afeganistão ao Corno da África.
Como escrevia em From colony to superpower o historiador da
política exterior norte-americana George Herring: “Os americanos se imaginam um povo amante da paz, mas poucas nações têm tido tanta experiência da guerra como os Estados Unidos. De fato, principiando com a Revolução
Americana, cada geração teve a sua guerra”. A diferença é que antes, a cada
geração correspondia uma guerra; agora, várias guerras se sucedem numa
só geração...
Na verdade, a principal protagonista desta obra tão original e rica
de sentidos diversos é a própria História. Ela é que confere unidade irredutível a temas tão diferentes como a evolução de dez anos da Missão das
Nações Unidas para a estabilização do Haiti e a reação brasileira à crise
financeira de 2007 a 2009, a movimentada história das interações entre
França, de um lado, Brasil e América Latina, do outro, as análises críticas
de livros, o estudo das manifestações populares no Brasil, entre outros.
A natureza da obra consiste na reflexão penetrante, rica em iluminações
surpreendentes, a respeito da mais árdua das modalidades de História, a
do presente, a de nossos contemporâneos, a da tentativa de compreender
lo que nos pasa.
O reconhecimento de que, sob o contraste de roupagens e diversidade de temas, a essência do livro reside na História ressalta das próprias palavras de seu autor. Daniel admite, com efeito, que as preocupações contidas na obra se justificam por uma “curiosidade imoderada”
pelos “problemas ligados à história dos homens”. Não se trata apenas de
curiosidade imoderada ou não, o que poderia, na melhor das hipóteses,
produzir jornalismo de qualidade. O que na realidade se recolhe destas
páginas é algo muito mais elaborado e denso: o resultado de “muitos anos
de meditação e aprimoramento de saberes circunscritos às Humanidades
e Ciências Humanas com o intuito de forjar uma carpintaria com algum
quociente de clareza, cientificidade e inteligibilidade”.
Posso pessoalmente atestar o bem fundado desses “muitos anos”
porque testemunhei o ponto de partida da biografia intelectual de Daniel
Afonso da Silva. Surpreenderá possivelmente a alguns que esse ponto de
largada tenha coincidido com sua investigação da mudança da Capital de
Salvador para o Rio de Janeiro no âmbito da História do Brasil Colônia.
Já naquela tese de doutoramento se encontrava a originalidade de pensamento, a fulguração de expressão, a força e coerência da análise que
perpassam por todos os capítulos a seguir.
Se a História fornece o fio condutor e a trama densa da obra, ela
está longe de impor limites à multiplicidade de instrumentos e registros de
que se vale o escritor a fim de tentar apreender a fugidia e complexa realidade que examina. Filosofia, ciências do homem, artes, poesia, constituem
algumas das ferramentas que imprimem aos ensaios sua inconfundível singularidade. Tome-se, por exemplo, a utilização do exame das estratégias de
comunicação, da dissecação da índole do discurso, da relação do agente da
política com a palavra. O método permite ao autor realizar uma das mais
originais análises que conheço dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e
de sua lógica e coerência internas. O que volta a fazer em relação aos governos de Dilma Rousseff, dessa vez, como seria de se esperar, em registro de
anticlímax derivado da amarga frustração dessa experiência.
Livro que se assemelha a mina de muitos veios, limitei-me a
apontar para alguns poucos, deixando sem menção ou exploração a maior
parte deles. Uma Apresentação não se destina a emular as resenhas críticas.
Deve esforçar-se em ser aquilo que a palavra indica: apresentar o autor e
a obra, abrir ao leitor o apetite para por si mesmo experimentar o prazer
intransferível da descoberta de um pensamento inovador, de se medir a
uma forma inconfundível de encarar o mundo e seus personagens.
Espero que para isso tenha servido essa amostragem da riqueza e
diversidade de um livro, que, sendo o primeiro, basta para demonstrar de
forma cabal que Daniel Afonso da Silva é já um escritor, um historiador,
um analista das relações internacionais contemporâneas amadurecido e
criativo, do qual poderemos esperar ajuda e conforto no esforço de entender lo que nos pasa.
Rubens Ricupero
São Paulo, 31 de janeiro de 2019.
PREFÁCIO
2019. Comemoram-se, neste ano, os centenários do Tratado de
Paz de Versalhes e da criação da Liga das Nações. Proposta pelo idealista
Woodrow Wilson, a Liga das Nações propunha uma ação coletiva, com
todas nações agindo em conjunto para evitar ou reprimir conflitos, guerras1
. A ênfase estava no multilateral e na implementação de organizações
que regulassem as relações mundiais.
2019. Toma posse no Brasil um novo governo, com mandato de
quatro anos. A ascensão ao poder deu-se em um ambiente polarizado e de
extrema agressividade. E, pela primeira vez, a virada de ano e de governo
foi acompanhada por uma drástica mudança negativa na percepção, na
imagem e no prestígio do posicionamento internacional do Brasil.
1919. O ambiente Pós-Primeira Guerra apresentou a tendência de alargamento das relações internacionais, até então excessivamente
concentradas no plano europeu. Expressão dessa inovação foi o papel que
Estados Unidos representou na Conferência e, em especial, na institucionalização da Liga das Nações; a presença do Japão entre as Grandes
Potências e o Brasil, enquanto um parceiro menor, mas representante da
América do Sul.
A atuação diplomática presidencial de Epitácio Pessoa, no
Tratado de Paz e na Liga das Nações, foi fundamental para a melhoria
significativa na percepção dos países europeus sobre o Brasil. Ampliou-se
seu prestigio como um Estado cooperativo e responsável no relacionamento internacional, com capacidade de intermediação entre os interesses
das potências mundiais e os dos países menores.
Consciente de que o Brasil era um ator secundário no cenário
internacional, sem capacidade decisória, Epitácio empenhou-se para o
Brasil obter um espaço mais operacional para a defesa de seus interesses,
como se observou na inclusão do Brasil no Conselho Executivo da Liga
das Nações, ainda que de forma não permanente2
.
1 No entendimento de que “paz é precondição para a prosperidade e uma criativa diplomacia para
gerenciar rivais econômicos e relações comerciais no mercado global é, por sua vez, precondição
para uma paz duradoura”. KEGLEY, Charles (1998). “Prospects for prosperitywithpeace in the
Pacific Rim”. Carta Internacional, NUPRI/USP, 64: 7, junho.
2 LACERDA, Matheus de Medeiros. Diplomacia Presidencial de Epitácio Pessoa. Da Conferência
Se 1919 é emblema da tendência e esforços para definição e
implementação de organizações internacionais, em especial intergovernamentais, em 2019, ainda que mantendo poder, a hegemonia estadunidense sofre assédio de um novo e forte competidor na disputa pelo
poder internacional e apresenta como resposta a tese da America First,
renegando sua ênfase anterior no multilateralismo e nos processos negociadores internacionais enquanto busca decisões unilaterais. Retorna-se
assim à questão do por quê e para quem as Organizações Internacionais
foram inventadas?3
A intenção e as ações de Epitácio Pessoa (em consonância com
o pensamento de Rio Branco e Rui Barbosa) para transformar o País em
um ator importante na política internacional, introduzidas no início do
século XX, consolidaram-se na forma de um acervo diplomático permanente: pacifismo, não intervencionismo, defesa da igualdade soberana das
nações, respeito ao Direito Internacional4
.
Na prática, o País buscava prestígio. Prestígio, ainda que aparentemente abstrato e subjetivo, é um conceito extremamente importante nas
Relações Internacionais, pois ao se reconhecer capacidade em um País,
este não precisa usar poder para satisfazer seus interesses5
.
A questão de prestígio é uma das que Daniel Afonso da Silva
aborda neste livro sobre a construção do mundo contemporâneo. Daniel
Afonso concentra-se no período de 1964 aos nossos dias e enfatiza papéis de personalidades brasileiras, francesas e estadunidenses, dotadas de
autoridade para implementação de políticas externas e de estratégias para
participação na política internacional. Em outros termos, Daniel Afonso
objetiva “evidenciar a importância da rhetorical presidency para o estudo
das relações internacionais”.
Com base em reflexões de Ricupero, na comparação entre a diplomacia do presidente Lula com traços da diplomacia do general De
de Paz à volta ao Brasil: Análise da política externa do presidente eleito. Curitiba: Appris, 2013.
3 SLUGA, Glenda. Remembering 1919: international organizations and the future of
international order. International Affairs, v. 95, n. 1, p. 25-43, 2019.
4 SILVA, Alexandra de Mello. Ideias e política externa: a atuação brasileira na Liga das Nações e
na ONU. Revista Brasileira de Política Internacional, v. 41, n. 2, p. 139-158, 1998.
5 KHONG, Yuen Foong. Power as prestige in world politics. International Affairs, v. 95, n. 1, p.
119-142, 2019.
Gaulle, Daniel Afonso deduz que ambos convergiram no que tange à
rhetorical presidency: “Ambos administraram pelo império da palavra e da
personalidade. Seus países e suas conjunturas demandavam. A França do
general e o Brasil do século 21 careciam de uma grande narração nacional
e imaginação internacional. Construir essa narração e essa imaginação
talvez tenha sido o maior legado dos dois”.
Da mesma forma, Rio Branco, Rui Barbosa e Epitácio Pessoa foram personalidades que igualmente instrumentalizaram a política externa
na defesa da tese da Igualdade Soberana das Nações. Rui Barbosa, com a
preocupação de transformar em ações concretas suas teses, empenhou-se
na implantação de um modelo republicano que “valoriza e prioriza a ideologia do progresso, do desenvolvimento econômico e da participação ativa
no cenário internacional”6
.
O acervo diplomático permanente brasileiro manteve, ao longo
de diferentes governos e mesmo regimes políticos, ênfase especial no objetivo de “participação ativa no cenário internacional”, entendida como o
esforço em coparticipar dos processos decisórios internacionais. Isto é, se
não participar, sobram as migalhas; se participar, ao menos tem a oportunidade de defender e negociar seus interesses.
Essa práxis brasileira está extremamente bem retratada nas reflexões de Daniel Afonso sobre as atuações de Juscelino Kubitschek a Jânio
Quadros/João Goulart e de Castelo Branco a Lula/Dilma. Para evitar
mal-entendidos, entende-se que este “acervo diplomático permanente”
representa princípios da política externa que vigem desde o início do século XX, com altos e baixos, independentemente de questionamentos e
tentativas de mudanças.
Tem, sem dúvidas, um sentido ideológico decorrente da percepção de como um País sem recursos pode se inserir internacionalmente, mas não decorrente de perspectivas ideológicas voltadas a formas de
organização da sociedade. O chanceler Azeredo da Silveira expressava
bem esta afirmação ao ponderar que em política externa “não pode haver alinhamentos automáticos, porque o objeto da ação diplomática não
6 CARDIM, Carlos Henrique. A raiz das coisas. Rui Barbosa: O Brasil no mundo. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2007.
são países, mas situações”7
. E Soares de Lima deduz que “as alianças são
instrumentos legítimos para aumentar o poder de um País, mas são contingentes, em função das questões em jogo e de como podem afetar os
interesses brasileiros. Em outras palavras, as alianças são formadas em
função de interesses concretos e não de princípios idealistas abstratos
tais como, a defesa dos valores do Ocidente ou a solidariedade das nações do
Terceiro Mundo”8
.
Essa percepção das relações internacionais não se subordinarem a credos ideológicos está bem clara no texto de Daniel Afonso.
Kubitschek iniciou os contatos com De Gaulle ao cumprimentá-lo quando de sua posse como Primeiro-Ministro, João Goulart o convidou para
vir ao Brasil e a visita se realizou no governo de Castelo Branco. Apesar da
instabilidade política no Brasil e na América Latina na metade da década
de 1960, De Gaulle, em todos os países por onde passou, reiterava que, “si
la France cesse d’être mondiale, elle cesse d’être la France”.
A ênfase conferida por Daniel Afonso na atuação internacional
da França e dos Estados Unidos é deveras pertinente pelo fato destes dois
atores reivindicarem um lócus excepcional no mundo na consideração de
que seus valores são universais. Enquanto a pretensão francesa foi inibida,
limitada pelas disputas de poder na Europa, Estados Unidos buscou desenvolver políticas externas que refletissem este excepcionalismo9
.
De qualquer forma, a presença de Estados Unidos em qualquer reflexão sobre temas internacionais impõe-se naturalmente pelo seu
papel hegemônico a partir do século XX, tanto no espaço do Sistema
Interamericano quanto no Internacional.
Cabe ressaltar que quando o mundo político internacional começou a se alargar em 1919, a filosofia política ocidental estava restrita
aos espaços europeus e americanos. Ásia e África, na sua maioria ainda
sob o jugo colonial, professavam outras filosofias políticas.
7 MELLO, Flavia Campos. Regionalismo e Inserção Internacional: Continuidade e
transformação da política externa brasileira nos anos 90. Tese (Doutorado) – Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2000.
8 LIMA, Maria Regina Soares. Interesses e solidariedade: o Brasil e a crise centro-americana. In:
Encontro Anual da ANPOCS, XI, 1987. Trabalho apresentado… Águas de São Pedro, outubro 1987.
9 NYE, Joseph. The rise and fall of American hegemony: from Wilson to Trump. International
Affairs, v. 95, n. 1, p. 69-80, 2019.
Em 1919, o projeto das grandes potências foi a manutenção da
ordem do século XIX. Ainda que a Liga das Nações tenha sido uma novidade, a política internacional continuou sendo conduzida de acordo com
os padrões do século XIX10.
Ainda que com posição ascendente em 1919, foi somente em
1945 no Pós-Segunda Guerra, que Estados Unidos assumiu poder internacional e redefiniu a Ordem Internacional de acordo com sua visão de
mundo e seus valores, estabelecendo o que seria rotulado como a Ordem
Liberal Internacional11.
Com a derroca da soviética e o início do Pós-Guerra Fria (1991),
Estados Unidos estabeleceu como objetivo estratégico a continuidade da
Ordem Liberal, com vistas a evitar o surgimento de competidores, em especial na Eurásia, que questionassem sua hegemonia12. Desconsiderandose os conflitos na década de 1990 entre a economia ocidental e a asiática,
recentemente a ascensão chinesa, com valores diferenciados, gerou forte
contestação à primazia estadunidense.
O que se observou claramente nestes últimos 100 anos foi um
cenário contínuo de disputas por poder internacional, simultaneamente
a esforços para manutenção de paz, seja por idealísticos consensos, por
acordos multilaterais, ou mesmo intervenções militares.
O ocaso do Sistema Internacional do Concerto Europeu só
ocorreu após duas sanguinolentas guerras, sendo sucedido pelo Sistema
Bipolar, caracterizado pelo ambiente de confronto contínuo entre os dois
principais polos. O fim do Sistema Bipolar, ao contrário dos exemplos
anteriores, ocorreu de forma pacífica e deu início a um processo de redefinição tanto da Ordem quanto do Sistema Internacionais.
Daniel Afonso chama a atenção para a fragilidade ou relatividade de certos argumentos, como por exemplo, ao apontar que “há tempos
deixou de fazer sentido comprimir a guerra fria e o mundo bipolar, in10 SATO, Eiiti. Prefácio à Nova Edição Brasileira. In: CARR, Edward H. Vinte Anos de Crise:
1919-1939. Uma Introdução ao Estudo das Relações Internacionais. Brasília: EDUNB, IPRI,
IOESP, 2001. p.: xiii-xxxv.
11 IKENBERRY, John (2001). After Victory: institutions, strategic restraint, and the rebuilding
of order after major wars. Princeton: Princeton University Press.
12 HUNTINGTON, Samuel. A Mudança nos Interesses Estratégicos Americanos. Política
Externa, v. I, n. 1, p. 16-30, 1992.
dependendo do que sejam, entre 1945-1947 e 1989-1991. Antes da ascensão de Truman ao poder, certo, o mundo era déjà bipolar. Antes do
desaparecimento da URSS, certo, o mundo era déjà policêntrico”.
Neste sentido, “a noção de bipolaridade, por assim dizer e mesmo
que muito rápida e abruptamente, não passa de formalismo. Formalismo
que torna a compreensão do mundo mais simples e agradável. Mas que
não nos protege das ciladas de sua inabarcável complexidade progressiva”.
Ao apontar, com razão, a fragilidade de conceitos amplamente
utilizados, Daniel Afonso, ao mesmo tempo, reconhece seu caráter didático, formal, para uma melhor compreensão da realidade, a qual, por natureza, é complexa por ser objeto de interesses de diferentes atores e constituída por dimensões divergentes ou convergentes. O Sistema Bipolar pode
assim, na dimensão econômica, ser interpretado em seus primórdios como
Unipolar quando Estados Unidos era o único País a sair intacto da guerra
ou Multipolar quando, a partir da década de 1970, Alemanha e Japão já
eram países desenvolvidos.
Com maestria, Daniel Afonso aborda as questões da redefinição
da Ordem Internacional ou da necessidade de reformulação das atuais
instituições internacionais ponderando, de acordo com Bertrand Badie,
que “o problema, em si, pode estar no prolongamento incessante do concerto europeu de 1814-1815. Ou seja, na lógica de sistema internacional
onde grupo pequeno e fechado de estados e instituições decidem do destino do mundo, dos outros e do ‘resto’”. Essa percepção de Daniel Afonso
corrobora a contínua ênfase brasileira de coparticipar nos processos decisórios, visto as decisões serem usualmente definidas en petit comité.
Por isso, na sua visão, “o mundo pós-americano e pós-imperial
indicado por Zakaria pode ser justamente a demonstração da impossibilidade de manutenção do incessante prolongamento”. Por essa razão deduz
que o debate “talvez não seja, portanto, reformar as instituições que saíram
do mundo de após-1945 – como propunha o presidente Sarkozy com seu
“nouveau monde, nouvelles idées”, pois “são prolongamento do século 17
afirmado no século 19 e revivido até o presente”.
Aborda igualmente movimentos em torno da distribuição internacional do poder, isto é, da definição do Sistema Internacional. Seja
no objetivo de De Gaulle de “afirmar o País como espécie de troisième
force para além do conflito Leste-Oeste”, seja Mitterrand na “defesa inapelável dos países em desenvolvimento através da afirmação de um espaço internacional mais quantitativa e qualitativamente multilateral”, ou
de Chirac buscando “fazer face à hiperpotência norte-americana do após
1989-1991”. Da mesma forma, introduz uma temática presente na política externa brasileira desde o governo Itamar Franco, ampliada e operacionalizada nos governos seguintes, “a modernização da ONU de modo a
fazer o Brasil, os BRICs e o ‘resto’ participar de modo positivo e galvanizar
seu lugar ao sol”.
Apesar da ênfase no papel de personalidades dotadas de autoridade, Daniel Afonso não omite a presença e a força crescente e recente
de “atores comuns”, porém contestadores dos papéis exercidos pelas autoridades estabelecidas. “Foram eles que esgarçaram as limitações do novo
tempo do mundo quando instituições too big tofail começaram a claudicar
após a crise financeira mundial recente. Foram eles que encheram as ruas
árabes em 2011 para evidenciar o choque da descolonização. Foram eles
que majoritariamente fizeram as noites de junho brasileiras de 2013 e anunciaram o tsunami em lugar da “marolinha” em todos os países emergentes”.
É patente que o principal interesse de Daniel Afonso, no presente livro, é refletir, repensar, avaliar, rever, projetar a política externa brasileira. Depreende-se que Relações Internacionais é um campo de estudo específico, com instrumental analítico próprio, mas com um sentido
político, instrumental ou prático. O objetivo maior ao estudar Relações
Internacionais, Política internacional ou, mais especificamente, Política
Externa, é buscar um entendimento mais profundo de como o mundo
se relaciona e como o Brasil se insere, pode ou deve se inserir no plano
internacional para satisfazer, promover os interesses do Estado Brasileiro
ou de determinadas setores ou segmentos.
Política Externa aparentemente é uma atividade simples por se
tratar de um conjunto de ações ou estratégias de um determinado País
para promoção de seus interesses no plano externo. Entretanto, em sua
base estão inicialmente duas grandes questões problemáticas que a deixam complexa. Quais são os interesses do País e como são definidos?
Quais são os instrumentos ou as capacidades brasileiras para promover
seus interesses?
Na percepção de Daniel Afonso, neste momento internacional,
de indefinições na reformulação da Ordem Internacional, de acentuada perda relativa do poder estadunidense e a correspondente ascensão
chinesa, de incompatibilidade entre valores ocidentais e confucianos, de
crescimento de perspectivas nacionalistas e negação de soluções globais,
impõe-se reconhecer a complexidade do mundo e a “necessidade e capacidade de narração”. Narrativas “enquanto construção de mecanismos de
imaginação nacional, regional e internacional” e de criatividade diplomática, “more than empty rhetoric”.
Suas reflexões contribuem significativamente, não só para entender e refletir sobre o passado, mas igualmente sobre o presente. Em especial pelo fato de que, no atual processo de redefinições internacionais, uma
“sucessiva ofensiva contra autoridades ajudou a rebaixar o nível da função
pública e de seus atuantes em todas as partes do mundo produzindo choques de realidade que permitiram o sucesso eleitoral de gente tipo Donald
J. Trump, Emmanuel Macron e Jair Messias Bolsonaro. Essa porteira do
dissenso segue aberta e sem previsão de contenção”.
Personalidades não como exemplos, modelos a serem copiados,
mas como atores que compreenderam as circunstâncias e complexidades
dos momentos (nacional, regional e internacional) em que atuaram, política e diplomaticamente, e tiveram criatividade e capacidade de definir estratégias para promover os interesses do País. Em outros termos,
conseguiram compatibilizar as demandas e necessidades internas com as
possibilidades externas.
Daniel Afonso abordou com profundidade uma diversidade de
temas e de atores com uma impar profundidade analítica. Tem como marco 1964 aos nossos dias, mas joga com as datas, retrocede e avança, possibilitando uma melhor compreensão das temáticas apresentadas. Mescla
inteligentemente erudição com um estilo literário próprio, possibilitando
uma leitura agradável.
Pela relevância e pertinência de suas reflexões e pelo atual momento histórico de indefinições, de processos de reformulação institu-
cional e de competições internacionais por espaços, mercados e poder, o
presente livro fornece informações, análises e posicionamentos intelectuais que subsidiam o leitor a uma maior compreensão dos movimentos
históricos que levaram ao atual contexto internacional e a formular a sua
própria percepção sobre as relações internacionais e sobre a política externa brasileira.
Henrique Altemani de Oliveira
São Paulo, 27 de janeiro de 2019.
SUMÁRIO
NOTAS DE CABOTAGEM ........................................................................... 27
CAPÍTULO 1 – APÓS GERONIMO ............................................................. 31
Aguarrás do tempo.........................................................................................................33
Hard war......................................................................................................................36
Futuro passado ..............................................................................................................43
A dobra dos sinos............................................................................................................48
CAPÍTULO 2 – DE BENGHAZI, UMA FLOR.............................................. 53
Day Before....................................................................................................................54
O Dia D........................................................................................................................55
Time for Action .............................................................................................................58
Carnage ........................................................................................................................59
Insano ...........................................................................................................................60
Desalento ......................................................................................................................61
Fathi Tirbil ...................................................................................................................62
Timeline........................................................................................................................63
Entre Amigos ................................................................................................................65
Demônios ......................................................................................................................66
CAPÍTULO 3 – ADEUS, GERONIMO.......................................................... 71
“Tiempo nublado”..........................................................................................................72
Adeus, Geronimo ...........................................................................................................74
Dividendos do adeus......................................................................................................78
Após Geronimo ..............................................................................................................81
Dançando na chuva.......................................................................................................84
CAPÍTULO 4 – A PRESENÇA DO GENERAL............................................. 89
De volta ao 18 juin ........................................................................................................93
Caminhos de Argel.........................................................................................................98
Destinos recompostos......................................................................................................99
Je vous ai compris.........................................................................................................101
Fazer a América ..........................................................................................................104
Partir ao Brasil............................................................................................................105
Razões para partir.......................................................................................................108
O momento brasileiro...................................................................................................111
A presença do general ...................................................................................................113
CAPÍTULO 5 – O MOMENTO TANCREDO-MITTERRAND..................115
Intenção ......................................................................................................................116
Preparação ..................................................................................................................117
Confirmação................................................................................................................120
Organização................................................................................................................120
Tensão.........................................................................................................................121
Determinação..............................................................................................................124
Homens de Estado........................................................................................................125
Ação ............................................................................................................................125
O momento..................................................................................................................130
CAPÍTULO 6 – A PRIMAVERA DOS TEMPOS..........................................135
Sorvendo lutos .............................................................................................................136
Razões do Brasil ..........................................................................................................140
Segredos internos .........................................................................................................143
Entre amigos...............................................................................................................149
O fazer dos pactos ........................................................................................................153
Paris ...........................................................................................................................157
CAPÍTULO 7 – À SOMBRA DO GENERAL................................................161
Coisas do Brasil............................................................................................................164
O fazer dos pactos ........................................................................................................166
A diplomacia dos pactos................................................................................................170
A consolidação dos pactos..............................................................................................173
CAPÍTULO 8 – O BRASIL DE RICUPERO.................................................175
CAPÍTULO 9 – OS DIAS QUE MARCARAM A TRANSIÇÃO BRASILEIRA.....181
CAPÍTULO 10 – DEIXAR A PÁTRIA LIVRE OU MORRER PELO HAITI.. 191
Preliminares: peacekeeping operations..........................................................................194
Ainda jacobinos negros.................................................................................................198
O peso do número.........................................................................................................201
Morrer pelo Haiti........................................................................................................202
Além do secretário ........................................................................................................212
CAPÍTULO 11 – MUITO ALÉM DOS OLHOS AZUIS ...............................217
Palavras......................................................................................................................221
Neverland ...................................................................................................................226
O segredo dos olhos.......................................................................................................230
CAPÍTULO 12 – NOITES DE JUNHO.........................................................237
Ensaio de método .........................................................................................................238
Noites de junho ............................................................................................................243
Presidente Dilma, la femme d’État ...............................................................................246
Palavras ao vento? ......................................................................................................250
Da razão do Estado .....................................................................................................251
De Camões a Mariel ....................................................................................................254
CAPÍTULO 13 – RÉQUIEM.........................................................................261
REFERÊNCIAS ...........................................................................................273
ÍNDICE REMISSIVO...................................................................................297
SOBRE O AUTOR........................................................................................305
NOTAS DE CABOTAGEM
Mis arreos son las armas,
mi descanso el pelear.
Miguel de Cervantes
O ponto de partida deste livro está no capítulo 4, A presença do
general, que reconstitui a expedição do general de Gaulle ao Brasil em
outubro de 1964. Na sequência, vai redesenhado, no capítulo 5, O momento Tancredo-Mitterrand, o encontro desses gigantes artistas da razão
de Estado que foram o presidente Tancredo de Almeida Neves e o presidente François Mitterrand. A interação política e diplomática entre
França e Brasil, América do Sul e Europa, após esse momentum TancredoMitterrand de janeiro-fevereiro de 1985, segue objeto direito de A primavera dos tempos e À sombra do general, respectivos capítulos 6 e 7. O Brasil
de Ricupero, capítulo 8, aprecia o magnífico A diplomacia na construção
do Brasil – 1750-2016 da lavra do sempre notável embaixador Rubens
Ricupero. 18 dias – Quando Lula e FHC se uniram para conquistar o apoio
de Bush, empreendimento de valor de Matias Spektor, vai anotado no capítulo 9, Os dias que marcaram a transição brasileira. Deixar a pátria livre
ou morrer pelo Haiti, capítulo 10, avalia os fundamentos de dez anos de
Mission des Nations Unis pour la stabilization en Haiti – Minustah. Muito
além dos olhos azuis, âncora do livro, aparece como capítulo 11 e retraça aspectos decisivos da reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à crise
financeira de 2007-2009. Noites de junho, capítulo 12, promove exercício
similar sobre a atuação da presidente Dilma Rousseff na gestão dos protestos de junho de 2013 no Brasil. O pano de fundo de toda essa quadra
mundial da viragem de séculos aos dias atuais foi premido por mutações
na condução da política externa norte-americana que vai analisada nos
primeiros capítulos do livro que são Após Gerônimo, De Benghazi, uma flor
e Adeus, Geronimo. O último capítulo, o 13, Réquiem, ensaia uma impressão geral do Brasil que disto tudo saiu.
O fio condutor dessas tramas todas do general De Gaulle à presidente Dilma Rousseff passando pelas presidências George W. Bush (pai e
filho) e Barack H. Obama nos Estados Unidos e Jacques Chirac e Nicolas
28 DANIEL AFONSO DA SILVA
Sarkozy na França jaza na perquirição da força da autoridade na formação
das relações internacionais contemporâneas. Seu fundamento reconhece e
reforça – malgrado o truísmo – a autoridade como o imperativo decisivo
desse processo. E, sendo assim, busca recompor a ação de alguns homens
e mulheres de autoridade ou objetos dessa autoridade na construção do
mundo contemporâneo de 1964 aos nossos dias.
Esses homens e mulheres impressos neste livro foram notórios e
notáveis ou ordinários e anônimos. Os primeiros foram artistas, diplomatas,
altos funcionários e/ou homens de Estado. Isso porque, por consenso e por
verdade, de muito escrutinar gestos e insinuar olhares, o artista, o diplomata, o alto funcionário e o homem de Estado apreendem todas as rugas da
alma humana, todos os sentimentos e vibrações de amor e dor da ação dos
homens e toda a emanação de imaginações nacionais e epopéias internacionais. Ao passo que a gente do comum – outsiders em plenitude – constitui
a massa de eternos contestadores dessa emanação marcada a ferro e fogo
pelas autoridades estabelecidas. Foram eles – homens do povo e do comum
– que germinaram os incidentes do 11 de setembro de 2001 e recomeçaram
a História. Foram eles que esgarçaram as limitações do novo tempo do mundo
quando instituições too big to fail começaram a claudicar após a crise financeira mundial recente. Foram eles que encheram as ruas árabes em 2011
para evidenciar o choque da descolonização. Foram eles que majoritariamente fizeram as noites de junho brasileiras de 2013 e anunciaram o tsunami
em lugar da “marolinha” em todos os países emergentes.
Essa sucessiva ofensiva contra autoridades ajudou a rebaixar o
nível da função pública e de seus atuantes em todas as partes do mundo
produzindo choques de realidade que permitiram o sucesso eleitoral de
gente tipo Donald J. Trump, Emmanuel Macron e Jair Messias Bolsonaro.
Essa porteira do dissenso segue aberta e sem previsão de contenção.
Uma simples admiração discreta tangida por curiosidade imoderada por esses temas e problemas ligados à história dos homens justificaria de saída o todo das preocupações contidas neste livro. Mas o que
vai a seguir foi produto de muitos anos de meditação e aprimoramento de
saberes circunscritos a Humanidades e Ciências Humanas com o intuito
de forjar uma carpintaria com algum quociente de clareza, cientificidade
e inteligibilidade.
MUITO ALÉM DOS OLHOS AZUIS E OUTROS ESCRITOS 29
Logo me dirão se consegui
Nas trilhas dessa cabotagem, acumulei dívidas morais e intelectuais impagáveis. Irene Castells e José Bailo Ramonde foram os primeiros a, de fato, mover a minha atenção acadêmico-universitária e intelectual para temas de relações internacionais contemporâneas. Luiz Felipe
de Alencastro, que dirigiu a versão francesa de minha tese de doutorado
na Sorbonne, sem saber nem prever, abriu portas de vivências decisivas
que dão sustento a este livro. Raul Mateos Castell, Fernando Augusto de
Albuquerque Mourão e Antonio Carlos Robert Moraes foram conselheiros decisivos em momentos decisivos. Rubens Ricupero, le meilleur parmi
nous, segue meu fiel incentivador desde O enigma da capital. Henrique
Altemani de Oliveira deu os sopros iniciais para a concretização destes
meus exercícios de cabotagem. José Carlos de Assis endossou a minha
participação no projeto GGN – O jornal de todos os Brasis de Lourdes
e Luis Nassif – onde tanto aprendi e aprendo –, e segue gentil e afável
todo o tempo. Ana Cristina Cordeiro Fonseca, José Késsio Floro Lemos,
Matheus Montenegro Carneiro e Paulo Cesar Gomes de Souza Sobrinho
foram brothers e sabem disso. Márcio Fortunato me ensinou mais que
ele imagina sobre a vida. Luis Ochoa Bilbao me acolheu com afeição em seu grupo mexicano de estudos sobre países emergentes. Rafael
Antonio Duarte Villa me recebe com desvelo no NUPRI-USP. Christian
Lesquesne deu suporte às minhas temporadas na Sciences Po em Paris e
me conectou a praticamente toda a intelligentsia francesa e europeia dedicada às relações internacionais contemporâneas. Sidonie Wetzig e Uwe
Optenhögel me abrigaram com solicitude na Friedrich-Ebert-Stiftung em
Bruxelas. Bert Hoffman, Franco Petroni, Gaby Küppers, Gregory Claeys,
Heinz Scherrer, Jean-Paul Joulia, Jesper Tvevad, Luiz Galvão, Peter
Simon, Thomas Renard, Wiktor Staniecki, Vitor Melicias, Yorgos Altinzis
e Yvan Vassart deram tom realista à minha compreensão do mundo europeu recente. Victor Sukup, morto idiotamente, ainda nos produz saudade. Karl Buck, esse ícone da interação União Europeia-América Latina,
recebeu a mim e ao Victor Sukup em Aachen/Aix-la-Chapelle para a
conversa-aula dos sonhos para qualquer observador internacional contemporâneo. Achilles Zaluar Neto, Alain Rouquié, Celso Lafer, Eduardo
30 DANIEL AFONSO DA SILVA
Violla, Jean-David Levitte, Maurice Vaïsse, Paulo Roberto de Almeida,
Sérgio Amaral e Tarcísio Costa foram sensíveis e pacientes às minhas
questões, ora num ora noutro lado do Atlântico. Sophie Jouineau sempre
me ensina muito sobre muitas coisas. Paola Giacomoni – com Constanza
e Stefano – continua me demonstrando o sentido grave que tudo em italiano pode ter. Ruy Fausto me deu aulas de sapiência em várias tardes
e noites de Paris. Diversas pessoas anônimas de competência e coração
me socorreram em horas de precisão em diversas instituições – arquivos,
bibliotecas, repartições – em várias partes do mundo. A Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de São Paulo franquearam a quase totalidade de
minha formação e de minhas pesquisas. Os periódicos Araucaria, Estudos
Avançados, História – Debates e Tendências, Insight Inteligência, Política
Externa, Tla-Melua, Tempo e Argumento, Tempo Social e Teoria e Debate
publicaram versões preliminares de muitas das ideias contidas neste livro.
Carlos Eduardo Lins e Silva, da publicação Política Externa, foi o primeiro editor a valorar, incentivar e publicar as minhas primeiras impressões
sobre o mundo contemporâneo. Maria Eloisa Cardoso Rosa – com Nina
e Juca – segue uma azaléia que sorri pra mim. Minha avó, dona Sebastiana
Maria Abraão, que morreu sem saber muito bem o que eu fazia, continua
presente em tudo que faço.
CAPÍTULO 1
APÓS GERONIMO
Una política es clara
cuando su definición no
lo es. Hay que decidirse
por una de estas dos
tareas incompatibles: o
se viene al mundo para
hacer política, o se viene
para hacer definiciones.
José Ortega y Gasset
“A decade of war is ending”. Esse diagnóstico – ousado e traiçoeiro
– vem ganhando espaço e força nas ações e nos movimentos do presidente Obama desde a confirmação de sua reeleição como mandatário dos
Estados Unidos da América. Na madrugada do dia 7 de novembro de
2012, sancionado pelo escrutínio do sufrágio universal, Obama discursa
em Chicago aos seus apoiadores, aos seus eleitores, aos seus compatriotas
e, inevitavelmente, ao mundo inteiro. Carregado de analogias e imagens
e variedades metafóricas, sua manifestação de vitória reafirma a unidade
nacional como essência do leadership americano. “We are an American family, and we rise and fall together as one nation and as one people”1
. Simples
em forma e potente em conteúdo, a mensagem – justa e precisa para o
momento e densa e reflexiva para os dias seguintes – cumpre sua função de recobrar o moral de toda uma população fragilizada pelo decênio
iniciado no hiato entre setembro de 2001 e março de 2003 e em vias de
desaparecer desde junho de 2009 no Cairo, maio de 2011 em Abbottabad
e novembro de 2012 em Chicago. O 9/11 traumatizou os fundamentos da
noção de civilização humana no sentido freudiano do termo. Foi “l’événe1 Barack Obama’s victory speech – full text. Guardian, Wednesday 7 november 2012.
32 DANIEL AFONSO DA SILVA
ment sans nom”, no dizer de Nicole Barcharan2
. A invasão do Iraque e seus
desdobramentos vêm demonstrando a impotência da superpotência, no
dizer de Bertrand Badie3
. Em seu On a new beginning, o famoso discurso do Cairo, Obama declara que “we cannot impose peace”4
. Mas palavras
não pagam dívidas, como diriam personagens de Shakespeare. E a dívida
americana, interna e externa, ampliada pelas diretivas da war on terror e
aprofundadas pela crise financeiro-econômica a partir de 2007, esteve à
beira de desfigurar o American dream. O assassinato de Ousamma Bin
Mohammed Bin Awad Bin Laden revigorou a auto-estima americana e
pró-ocidental. “Justice has been done”. E, ao anunciar o feito, perto do fim
da noite do dia 2 de maio de 2011 em Washington, o presidente Obama
lembra que “We (the American people) can do these things not just because of
wealth or power, but because of who we are: one nation, under God, indivisible,
with liberty and justice for all”.5 A concretização dessa busca por justiça
para todos com “Geronimo EKIA” – mensagem de oficial do comando
em Abbottabad, informando que o inimigo, Bin Laden, fora morto na
ação – contribuiu fortemente para o início do fim do que Bob Woodward
chama de Bush’s war e Obama’s war6
. Nesse sentido, sim: “a decade of war
is ending”. Entretanto, o significado e a significação dessa definição ou
diagnóstico ou desejo ou intuição são obscuros e imprecisos. Especular
sobre alguns possíveis significados e significações dessa proposição que o
presidente Obama repetira ato contínuo em suas aparições desde 7 de novembro de 2012 até o fim de sua presidência é o objetivo do que se segue.

