An edition of OS TIGRES DE SAIGAO (2000)

OS TIGRES DE SAIGAO

vietnam war

OS TIGRES DE SAIGAO
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Last edited by DAVID M S PAIS
September 20, 2011 | History
An edition of OS TIGRES DE SAIGAO (2000)

OS TIGRES DE SAIGAO

vietnam war

Certamente nunca terão ouvido falar neles. Muitos estão presos.
Não têm identidade própria, nem existência legal. São os filhos e filhas de antigos oficiais e soldados do antigo regime Sul-Vietnamita. A maioria não se lembra dos seus pais. Eles nada têm, no entanto, intitulam-se Tigres. Diariamente reúnem provas dos crimes cometidos pelos oficiais corruptos que governam Saigão.

Salvaram-me a vida por várias vezes. Dedico este livro à sua luta por uma Sociedade Aberta, em que a Lei se aplique igualmente a todos.

Tentei narrar os acontecimentos tal qual aconteceram; no entanto, descrevo alguns eventos que não testemunhei pessoalmente. Como tal, este livro é em parte narrativo e em parte ficção. Alguns nomes, datas e locais tiveram de ser alterados, afim de evitar represálias contra aqueles a quem eu devo a minha vida.

Vietnam - Uma breve história.

Após o colapso em 1975 do Vietnam do Sul, e quando as tropas norte-vietnamitas tomaram Saigão, mais de dois milhões de Sul-vietnamitas fugiram. Aqueles que fugiram por mar, foram apelidados de “boat people”.
Como o partido Comunista não confiava nos sul-vietnamitas - até mesmo naqueles que apoiaram os Viet Cong - um grande número de oficiais militares e políticos do Norte foram enviados para o Sul para controlar directamente a situação.
Isto criou um enorme ressentimento muito entre os comunistas do Sul, que tinham ajudado os norte-vietnamitas, e agora se encontravam excluidos do poder.
A situação mantém-se ainda hoje. Quase todos os militares oficiais ou políticos influentes são do Norte.
A reunificação entre Norte e Sul foi gerida num clima de repressão em larga escala e criou um clima de medo e ódio entre a população do Sul. Centenas de milhares de pessoas que tinham ligações com o antigo regime, por mais ténuas que fossem, tiveram os seus bens confiscados e foram postas sob prisão sem julgamento, em chamados “campos de reeducação” em condições de escravatura. Mantendo a tradicional política de “extermínio de três gerações” que remonta ao feudalismo, e que consistia no extermínio dos familiares dos que cometeram a ofensa, embora de forma mais humana, não envolvendo eliminação física, a purga afectou as famílias dos que haviam apoiado o Governo. As famílias foram separadas de propósito, sistematicamente privadas de educação, direitos civis, e tratadas com incrível crueldade, numa situação que se mantém-se ainda hoje.
A maior parte não tem “ho khaus” (permissões de residência). Sem isso, a sua presença é tecnicamente ilegal. Não têm acesso a escolas, trabalhos ou licenças de negócio. Sobrevivem como podem, geralmente trabalhando para os militares que lhes impedem qualquer outra actividade. Neste sentido, muitos distritos de Saigão são, na realidade, campos de trabalho forçado. Os habitantes não se podem mudar e trabalham em negócios possuídos pelos militares e membros do partido.
Direitos civis pura e simplesmente não existem. Qualquer forma de protesto significa realojamento e fome nas “áreas restritas” ou prisão e tortura nas prisões do Sul do Vietnam.
O crime de rua que tornou o Vietnam tão famoso até 1973, foi reinventado e é controlado directamente por polícias à paisana. (Nem um único polícia fardado é visto no distrito n.º 1, depois do cair da noite.)
Qualquer turista que tenha a infelicidade ou que não saiba e ande só pelas ruas de Saigão, será logo assaltado, intimidado e voltará para o hotel. Tal como as Autoridades advertem, as ruas de Saigão não têm segurança.

Esta situação eu testemunhei em 1996. Muitas coisas mudaram, desde então. Por um lado, o controle da polícia é menos óbvio. Após a minha “Carta aberta ao Governo Vietnamita”, a prostituição tornou-se ilegal e tornou-se actividade obscura. Foi aprovada uma lei de “Prisão Administrativa”, que permite à polícia deter os suspeitos por um período de no máximo de 2 anos, (mas podendo o prazo ser renovado indefinidamente), dando cobertura legal ao que já existia na prática. Muitos presos morrem antes de serem libertados.

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Table of Contents

OS
TIGRES
DE
SAIGAO
2
OS TIGRES DE SAIGÃO
Certamente nunca terão ouvido falar neles. Muitos estão presos.
Não têm identidade própria, nem existência legal. São os filhos e
filhas de antigos oficiais e soldados do antigo regime Sul-
Vietnamita. A maioria não se lembra dos seus pais. Eles nada têm,
no entanto, intitulam-se Tigres. Diariamente reúnem provas dos
crimes cometidos pelos oficiais corruptos que governam Saigão.
Salvaram-me a vida por várias vezes. Dedico este livro à sua luta
por uma Sociedade Aberta, em que a Lei se aplique igualmente a
todos.
Tentei narrar os acontecimentos tal qual aconteceram; no entanto,
descrevo alguns eventos que não testemunhei pessoalmente.
Como tal, este livro é em parte narrativo e em parte ficção. Alguns
nomes, datas e locais tiveram de ser alterados, afim de evitar
represálias contra aqueles a quem eu devo a minha vida.
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Vietnam - Uma breve história.
Após o colapso em 1975 do Vietnam do Sul, e quando as tropas nortevietnamitas
tomaram Saigão, mais de dois milhões de Sul-vietnamitas
fugiram. Aqueles que fugiram por mar, foram apelidados de “boat
people”.
Como o partido Comunista não confiava nos sul-vietnamitas - até mesmo
naqueles que apoiaram os Viet Cong - um grande número de oficiais
militares e políticos do Norte foram enviados para o Sul para controlar
directamente a situação.
Isto criou um enorme ressentimento muito entre os comunistas do Sul,
que tinham ajudado os norte-vietnamitas, e agora se encontravam
excluidos do poder.
A situação mantém-se ainda hoje. Quase todos os militares oficiais ou
políticos influentes são do Norte.
A reunificação entre Norte e Sul foi gerida num clima de repressão em
larga escala e criou um clima de medo e ódio entre a população do Sul.
Centenas de milhares de pessoas que tinham ligações com o antigo
regime, por mais ténuas que fossem, tiveram os seus bens confiscados e
foram postas sob prisão sem julgamento, em chamados “campos de
reeducação” em condições de escravatura. Mantendo a tradicional
política de “extermínio de três gerações” que remonta ao feudalismo, e
que consistia no extermínio dos familiares dos que cometeram a ofensa,
embora de forma mais humana, não envolvendo eliminação física, a purga
afectou as famílias dos que haviam apoiado o Governo. As famílias foram
separadas de propósito, sistematicamente privadas de educação, direitos
civis, e tratadas com incrível crueldade, numa situação que se mantém-se
ainda hoje.
A maior parte não tem “ho khaus” (permissões de residência). Sem isso,
a sua presença é tecnicamente ilegal. Não têm acesso a escolas,
trabalhos ou licenças de negócio. Sobrevivem como podem, geralmente
trabalhando para os militares que lhes impedem qualquer outra
actividade. Neste sentido, muitos distritos de Saigão são, na realidade,
campos de trabalho forçado. Os habitantes não se podem mudar e
trabalham em negócios possuídos pelos militares e membros do partido.
Direitos civis pura e simplesmente não existem. Qualquer forma de
protesto significa realojamento e fome nas “áreas restritas” ou prisão e
tortura nas prisões do Sul do Vietnam.
O crime de rua que tornou o Vietnam tão famoso até 1973, foi reinventado
e é controlado directamente por polícias à paisana. (Nem um único polícia
fardado é visto no distrito n.º 1, depois do cair da noite.)
Qualquer turista que tenha a infelicidade ou que não saiba e ande só
pelas ruas de Saigão, será logo assaltado, intimidado e voltará para o
hotel. Tal como as Autoridades advertem, as ruas de Saigão não têm
segurança.
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Esta situação eu testemunhei em 1996. Muitas coisas mudaram, desde
então. Por um lado, o controle da polícia é menos óbvio. Após a minha
“Carta aberta ao Governo Vietnamita”, a prostituição tornou-se ilegal e
tornou-se actividade obscura. Foi aprovada uma lei de “Prisão
Administrativa”, que permite à polícia deter os suspeitos por um período
de no máximo de 2 anos, (mas podendo o prazo ser renovado
indefinidamente), dando cobertura legal ao que já existia na prática.
Muitos presos morrem antes de serem libertados.
Como passear – O cyclo
A maneira mais comum e conveniente de viajar nas cidades vietnamitas é
de “cyclo”, uma reminiscência da colonização francesa, consistindo
numa cadeira de braços presa a uma cyclo. Os condutores de cyclo
procuram angariar turistas perto dos hotéis, restaurantes, bares ou casas
de massagem. Ocasionalmente são elementos da polícia à paisana.
Juntamente com o simpático pessoal de hotel, recolhem informação de
qualquer turista que lhe pareça suspeito. E quase tudo é suspeito no
Vietnam do Sul.
(extracto de “Vietnam - O guia do turista”)
5
Aviso do Departamento de Estado dos E.U.A. (1995)
Um número cada vez maior de americanos visita o Vietnam. A maioria não
tem problemas. No entanto, as autoridades locais detêm americanos e
outros estrangeiros sem ter queixas ou por actividades que não são
consideradas criminosas nos Estados Unidos. Alguns dos presos ficam
sem poder comunicar com ninguém durante meses. Os visitantes podem
reduzir o risco de serem presos evitando envolver-se em política ou
outras actividades que não sejam conhecidas, e evitando levar papéis de
conteúdo político ou desconhecido. A polícia pode colocar um cidadão
Americano ou outro turista sob vigilância apenas por serem estrangeiros.
Quem se descuide e não tenha a documentação toda em ordem, ou que
se envolva em actividades consideradas suspeitas pode ser preso, bem
como os seus guias ou amigos vietnamitas. As Autoridades nem sempre
informam o governo Americano das prisões, nem se pode por vezes obter
acesso aos cidadãos americanos presos.
6
I
Hua Guo Feng acreditava em bons presságios. No dia 11 de
Janeiro, 1º dia do ano do Búfalo, dia do seu aniversário, chegou
cedo ao escritório.
Noan, a sua tia que lia as estrelas, previra que 1997 seria um ano
próspero para ele. Aquele dia iria ser o mais feliz da sua vida. O
carteiro entregou-lhe uma carta do Ministério dos Negócios
Estrangeiros, a anunciar que o seu pedido de obtenção de
nacionalidade portuguesa tinha sido aceite. Isto eram óptimas
notícias, uma garantia sobre o que a transição para o regime
comunista poderia trazer. Além do mais, era também um símbolo
de status. Ele, Hua Guo Feng, cidadão de Portugal!
A sua filha estudaria em Paris, e decidiria livremente o seu próprio
futuro! Ele só esperava que ela voltasse para uma reunida, porém
próspera Macau, e que se casasse com Chen, um seu associado
no negócio da família. Mas, - nunca se sabe o que os comunistas
irão fazer - este passaporte garantia liberdade à sua família! Era
uma bênção preciosa cujo significado, só alguém como Hua,
nascido e criado na China comunista é que podia apreciar a o seu
justo valor.
Hua foi distraído dos seus pensamentos pelo zumbido do fax.
Olhou para a máquina, enquanto esta lentamente imprimia:
Mensagem para: Macau Trade
De: Casa dos Sapatos - Requisição mensal para 12 000 sapatos,
modelo n.º 26, confirmada. Tamanhos, preços e datas de entrega
conforme especificado e acordado por carta. Crédito disponível em
conta aberta hoje no banco de Macau.
Melhores cumprimentos, Casa dos Sapatos.
Esta era a sua primeira encomenda para exportação. O seu primo
distante Tseng vivia em Saigão, e havia confirmado os seus
baixíssimos preços de produção, além de garantir uma óptima
qualidade.
Hua tinha-lhe feito uma visita em Outubro, recolhido amostras e
tratado de tudo. Por um lado, lamentava não negociar do outro lado
da fronteira, com a China, mas Hua não queria que o seu destino
dependesse dos acontecimentos pós-reunificação - Nunca se sabe
o que os comunistas poderão fazer...
7
Além do mais, os preços de Tseng eram imbatíveis, mesmo na
própria China. Provavelmente os mais baratos de todo o Mundo,
pensou Hua.
Com este pensamento, recostou-se na cadeira. Ao olhar pela
janela, tudo o que viu foram sapatos, encomendas, e lucros.
Não haviam quaisquer nuvens a ensombrar o céu.
8
II
Toan era o líder incontestado do gang. Ele já não participava nos
assaltos. Observava à distância, e frequentemente indicava aos
companheiros este ou aquele cyclo em particular. Quando havia
problemas, ele intervinha de imediato, insultando e dando pontapés
àqueles do seu gang que se tinham metido em sarilhos.
Ocasionalmente, recuperava os artigos roubados, restituindo-os a
quem de direito.
As ordens eram precisas: Não usar violência contra os turistas, e
entregar todos os valores, cartões de crédito, passaportes e
documentos Nguyen, o seu supervisor.
Na pior das hipóteses, Toan acompanharia o turista molestado
juntamente com o ladrão capturado à esquadra da polícia. A sua
missão era assegurar que as coisas não chegassem a esse ponto.
Raramente chegavam.
Mesmo assim, por vezes, Toan sentia-se mal revoltado. A
percentagem de 10% de lucro para o gang parecia-lhe parecia-lhe
tão insignificante... Sentia uma raiva surda, interna, pela facção do
Norte que governava a cidade, que o tinha separado da família, e
assassinado o seu tio.
O ressentimento de Toan era partilhado por todos os membros do
gang. Eles ressentiam-se das detenções fictícias, dos
espancamentos que se lhes seguiam, da humilhação constante.
Toan sentia que faltava algo na sua vida. Não havia Orgulho. Não
podia haver Orgulho. Mesmo assim, ele sentia que tinha nascido
para ser livre. Nascera com o direito de ter Orgulho.
Seria possível Doi Moi (a “Nova Política”) trazer-lhe o orgulho que
acompanha a Liberdade?
Os seus pensamentos foram interrompidos por Nguyen.
- Quem é aquele estrangeiro?
Toan olhou na direcção que Nguyen indicou. Do outro lado da
esquina, sentado entre Jane e Shu, estava um estrangeiro bem
parecido, vestido com um fato branco, de corte feito à sua medida,
de óculos escuros.
Estavam todos a beber cerveja e a fumar, rindo. Juan também
estava com eles, ocupado a dizer aos miúdos do gang que
deixassem aquele estrangeiro em paz:
- Ele não tem dinheiro! Deixem-no estar! Está comigo - Meu amigo!
9
- Eles que saiam já daqui! Eu quero saber quem ele é, onde está
hospedado, e quero-o daqui para fora, e já!, disse Nguyen.
Toan foi andando, até chegar perto de Juan:
- Leva o teu amigo daqui! Nguyen quer que ele vá embora.
- Vai-te lixar, respondeu Jane: Ele está connosco! Não está a fazer
nada! Só estamos à espera da Mai Li, e depois levamo-lo a casa.
- Nguyen disse que o queria fora daqui agora! Levem-no a qualquer
lado e depois voltem.
- Tu metes-me nojo!, disse Jane. E, dando a mão ao estrangeiro,
levou-o. Subiram na motocicleta dela, aceleraram e foram-se
embora.
Já passava das 6 horas da manhã, e Nguyen fez sinal que eram
horas de acertar contas e ir para casa.
As raparigas já começavam a chegar com os seus cycloboys. Elas
também tinham contas a acertar.
Jane e o seu estrangeiro continuavam a acelerar, estrada acima,
estrada abaixo, nos arredores, seguidos de outras quatro ou cinco
motas.
Tinha sido uma noite lucrativa, os 10% do grupo eram 28 dólares e
uma nota de 10 libras de Singapura.
Como sempre, Toan ficou no centro até de madrugada, a jogar às
cartas e a comentar os acontecimentos do dia com os outros, mas o
seu trabalho ainda não tinha acabado: Ele tinha que dar mais
informações a Nguyen sobre aquele estrangeiro.
Mai Li esperava Jane, a jogar às cartas com mais duas raparigas.
Toan juntou-se a elas. Quando Jane chegou, com o seu estrangeiro
e os cyclo-boys que os acompanhavam, juntaram-se ao jogo.
- Nguyen quer saber tudo sobre ele, disse Toan apontando para o
estrangeiro de fato branco.
- Pergunta-lhe tu mesmo, respondeu Jane - Ou já te esqueceste do
teu Inglês?
Toan sentiu que a hostilidade da atitude dela era injusta.
O que é que ele, Toan, podia fazer, senão dar a Nguyen a
informação que ele pretendia? Jane estava a tratá-lo como uma
espécie de colaboracionista, como se o seu próprio acesso à cidade
não dependesse também de ter de se rebaixar aos do Norte.
Virou-se para o estrangeiro e disse:
- Chamo-me Toan. E tu?
Até aquele momento, todos falavam ao mesmo tempo, uns mais
alto que outros, várias conversas cruzadas. Então, repentinamente,
fez-se um silêncio que deixou Toan pouco à vontade.
- Olá, sou o Mig.
10
- Onde é que estás hospedado?
Mig apontou para o alto de uma árvore: Sou um tigre. Os tigres
dormem nas árvores ,disse.
- Ele não tem dinheiro, mas não vai dormir nas árvores. Ele vai para
casa comigo, disse Juan.
- Talvez não vá contigo, respondeu Jane. Ele pode vir comigo. De
borla.
III
Ele acordou e olhou para Jane, ainda adormecida, a seu lado.
Sentiu vontade de agarrá-la e uma urgência de possuí-la uma vez
mais, mas pensou melhor.
Silenciosamente, escorregou para fora da cama. Eles tinham
dormido no quarto dos pais dela, que ela havia acordado sem
cerimónias, quando eles chegaram a casa, de madrugada.
Vestiu-se, dirigiu-se à porta, abriu-a, e entrou na sala, cujo chão
consistia num trapo grande que cobria o solo a jeito de tapete.
A mãe de Jane estava sentada a um canto, a costurar. Ele inclinou
ligeiramente a cabeça levando as mãos ao peito, cumprimentandoa
à maneira asiática. Ela sorriu-lhe, levantou-se, e foi-lhe buscar
uma tigela de sopa quente.
Duas miúdas, uma de uns 9, outra de uns 4 anos, fixavam-no, do
outro lado da sala. Ele sorriu-lhes, e subitamente a mais velha
desapareceu porta fora. Ele continuou a comer a sua sopa.
Pouco depois, rostos de outras raparigas apareceram à entrada, a
seguir risinhos, depois mais caras, até que uma mulher mais velha
entrou, dizendo algo à mãe de Jane, e as duas falaram por um
bocado.
Entretanto, ele terminou a sua sopa, pensando onde estaria. Em
casa de Jane, é claro, mas onde é que isso seria?
Levantou-se, e foi lá fora. Estava calor. Isto era o Vietnam, um sem
fim de casebres aparentemente indistintos, ruas e ruelas cheias de
população.
A casa de Jane era mesmo no fim de um beco. Ele aventurou-se a
sair, divertido com os olhares espantados e curiosos que lhe iam
deitando.
Obviamente era bastante invulgar um estrangeiro ser visto nestes
lugares.
11
Ele subiu o beco, e virou à esquerda. Várias mulheres vendiam
diversas coisas, muitas tentavam chamar-lhe a atenção, mostrando
os seus artigos, numa tentativa de lhos venderem.
- “Ling-a-Lai”, respondia, querendo dizer “não tenho dinheiro”, e
imitava o gesto que tinha visto Juan fazer: Um braço esticado
esfregava dois dedos, no sinal universal de dinheiro; depois, o
braço esticado tremia e recolhia-se, como se estivesse a tentar
sacudir algo da manga.
As mulheres obviamente não acreditavam, porque continuavam a
propor-lhe todo o tipo de coisas, forçando-o a repetir o seu “Ling-a-
Lai”, e a tornar a sacudir o braço.
Ele ainda andou uns metros rua abaixo, à procura de sinais que o
ajudassem a voltar. Pensou que, se virasse sempre à esquerda,
não teria problemas em retornar. Mas as coisas afinal não eram
assim tão simples, visto que os seus passos levavam-no
constantemente a pequenos becos sem saída, muito parecidas com
o beco de Jane. Então ele voltou atrás, a casa dela, e pegou na
mão da criança de 4 anos. Ele podia ter confiança nela para guiá-lo
no regresso.
E assim, conduzido pela mão de uma criança, o estrangeiro saiu
para dar um passeio.
Nenhum deles se apercebeu na altura, mas este passeio iria ter
consequências trágicas.
Assim que chegaram a casa, o estrangeiro reparou na tensão que
pairava no ar. Os vizinhos já não sorriam.
Entraram. Dois homens de meia idade estavam sentados no chão,
a beber chá. Havia um silêncio gélido, e a mãe de Jane chamou-a.
Ela, ao entrar na sala, vindo por detrás dos dois homens, lançou-lhe
um olhar cheio de ódio. Então, sorrindo, sentou-se diante de ambos
os homens e convidou-o a fazer o mesmo. Serviu-lhe chá.
- Os meus amigos vieram visitar-te, e gostariam de saber se há algo
que eles possam fazer por ti, disse ela.
- Ti gabarit parusski?”, perguntou o estrangeiro.
Os homens ficaram intrigados ao ouvir o estrangeiro a falar russo.
12
- Da”, disse o mais velho dos dois - Ya gabariu parusski.
Com estas palavras Jane foi milagrosamente dispensada do seu
incómodo papel de intérprete. Mais uma vez ela admirou o
estrangeiro: tinha a certeza que, propositadamente, ele tinha
mostrado aos homens que os reconhecera por aquilo que eram:
Oficiais comunistas, treinados por russos. Ao fazer aquilo, ele tinhaos
apanhado de surpresa, e tinha-a livrado de uma situação
incómoda.
Porque razão o estrangeiro falava russo, no entanto, era um
enigma; tanto para ela, como para os seus visitantes.
Poderia o estrangeiro ser, ele próprio, um membro do partido
comunista no seu país? Jane tinha a certeza de que ele não o era,
mas as suas visitas não pareciam estar tão certas disso.
Ela levantou-se, e deixou a sala. Os três falaram por um bocado.
Pouco depois, os dois homens saíram.
Jane entrou na sala, visivelmente irritada:
- Eu disse-te que podias cá dormir, mas não te disse para saíres.
Agora eu e a minha família podemos vir a ter grandes problemas.
Porque é que fizeste isso?
- Peço desculpa. Mas quem eram estes homens? Polícia?
- Quase a mesma coisa, respondeu Jane: pertencem ao núcleo
local do Partido Comunista desta zona.
13
IV
Do corredor, Toan podia ouvir os gritos de Ho.
Nguyen abriu a porta, e fez-lhe sinal para entrar. A divisão era
grande, e Ho estava sentado atrás da secretária. À sua esquerda,
de pé, estavam dois agentes especiais das forças de elite.
- Ouvi dizer que há um macaco estrangeiro na cidade. O que é que
vocês sabem dos movimentos dele?
- Não sei lá muito, respondeu Toan. Ele parece ter muitos amigos lá
no meu distrito n.º 5. Tem estado por lá a oferecer emprego a quem
desejar trabalhar para ele, mesmo sem “Ho Khau”. Diz que pode
arranjar-lhes pedidos para inúmeros artigos através da Internet.
Também tem dito que devíamos proteger os turistas dos ladrões,
em vez de seguir ordens para roubá-los, que os turistas pagariam
mais pela protecção do que a polícia paga aos ladrões. Diz que
pode voltar a reunir famílias através da Internet, e acha que o Sul
ganhou a guerra ideológica e económica, e que em breve o
Governo terá de aceitar essa vitória.
- Aonde é que ele dorme?, perguntou Ho.
Nguyen interrompeu:
- Ele estava hospedado no Liz Salon, até se lhe acabar o dinheiro.
Deixou a conta por pagar e o passaporte como garantia. Desde
então tem estado em vários hotéis baratos, daqueles que as
raparigas usam para dormir com os clientes vietnamitas. Sempre
ilegalmente, sem quaisquer papéis ou identificação. Tem deixado
anéis de ouro como garantia, emprestados pelos amigos, e
ninguém sabe como é que ele paga às raparigas!
- Eu acho que ele não lhes paga. Elas parecem gostar dele, disse
Toan.
14
- Basta!, disse Ho, irritado. Virou-se para os agentes:
- Camarada Kim, trate-me deste assunto. Quero este caso
encerrado amanhã.
- Sim, Camarada Ho!
V
Toan não conseguia dormir. Sentia-se enojado e furioso.
Em toda a sua vida, tinha feito sempre os trabalhinhos sujos de
outros, roubando, organizando os roubos. Mas agora era diferente:
Ele teria de assassinar alguém.
Polícias à paisana encarregar-se-iam de provocar uma briga com o
estrangeiro. No meio da confusão, Ele e Juan teriam de o
esfaquear.
Sempre o mesmo cinismo dos do Norte; sempre a perversa atenção
ao detalhe, assegurando que seja inflingida toda a dor e a
humilhação possível.
Porque não o faziam eles? Porquê ele, Toan, e porquê Juan?
Juan tinha-se tornado amigo íntimo do estrangeiro. Mesmo ciente
do risco que corria, abrigou-o, alimentou-o, emprestou-lhe a roupa,
inclusivamente deu-lhe o seu anel de ouro, o único valor que
possuía, para que o estrangeiro o usasse como garantia de
pagamento a um hotel.
Como iria Toan transmitir-lhe a sua missão? E o que é que ia dizer
às raparigas? O estrangeiro tinha-lhes prometido liberdade, e
emprego. Tinha prometido a Wu que tentaria encontrar informações
sobre os seus familiares, fazendo buscas na Internet.
Imediatamente, todas as outras raparigas pediram-lhe que fizesse o
mesmo por elas. E ele disse que o faria: “Vocês escrevem os
vossos nomes numa página da Net. Se estiverem à vossa procura,
encontram-vos.”
15
E, quer estivesse certo, quer se enganasse, todos acreditaram nele.
Toan também.
O estrangeiro desafiava sozinho todo o sistema que os oprimia.
Desarmado, sem dinheiro, usando as roupas rasgadas de Juan, ele
estava em todo o lado, pronto a tudo. Era evidente que não iria
sobreviver mais tempo.
Toan lembrou-se da noite em que se conheceram. Um indivíduo
qualquer do Norte, obviamente enviado por Nguyen, aproximou-se
dele, oferecendo ao estrangeiro alguns cigarros de haxixe. O
estrangeiro pressentiu o perigo. Provavelmente leu a mensagem
nos olhos de Karen. Recusou. Depois de trocar mais algumas
palavras, o homem do Norte ofereceu-se para emprestar dinheiro
ao estrangeiro.
- Eu não preciso de dinheiro. - disse ele - É bom não ter dinheiro.
Sem dinheiro vêem-se melhor as coisas. Quando se tem dinheiro,
todos parecem ser amigos. Quando estás sem dinheiro, sabes
quem são os teus verdadeiros amigos.
O estrangeiro lançou um olhar de desafio ao homem do Norte, e por
momentos, toda a farsa parou. Estudaram-se por um breve
momento, olhando um para o outro como inimigos. Depois,
continuaram com a farsa:
- Julgo que devia ser mais cauteloso quanto aos amigos que
escolhe; você não está em casa. Há muito crime por aqui. Você
devia ter mais cuidado.
- Eu tenho, não se preocupe. - replicou o estrangeiro. E,
continuando a conversa com Sharon:
- Sabes, este mundo está cheio de tigres, e de leões, e de hienas.
Os tigres são solitários, vagueiam pela selva. Habitualmente, eles
evitam confrontarem-se uns aos outros. As hienas andam em
matilhas, e todas obedecem a um líder, e mais, toda e cada uma
dessas hienas tem a sua hierarquia na matilha.
Os Tigres e hienas odeiam-se reciprocamente. Isso deve-se às
hienas atacaram frequentemente uma tigre fêmea para matarem e
comerem as suas crias. Por isso, os tigres aprenderam a ajudaremse
uns aos outros contra as hienas...
O homem do Norte, olhou para o estrangeiro, conteve-se e foi-se
embora, para avisar Nguyen.
16
17
VI
Toan acordou sobressaltado, saltou da enxerga a que chamava de cama,
e foi lá para fora.
O sol intenso atingiu-o. Estava já alto, devia ser cerca do meio dia. Toan
correu na direcção da rua principal.
Um silêncio invulgar abateu-se sobre ele. As pessoas estavam paradas,
não se mexiam, não havia nenhum barulho, nem o habitual ruído de
cantilenas e pregões tão característicos de Saigão.
O silêncio fez Toan abrandar o passo:
- O que é que se passa?, perguntou a uma vizinha que estava parada sem
olhar para nenhum ponto em particular.
- Estamos à espera, respondeu a estátua.
Toan continuou a descer a rua principal, e o silêncio acompanhava-o.
Virou à esquerda e desceu a rua do beco que dava para a rua da casa de
Jane. Ele não tinha bem a certeza do que o levava ali. Uma sensação de
irrealidade pairava no ar.
Enquanto descia, Toan deu de caras com um muro novo, de tijolos. O
muro atravessava os telhados das casas em ambas as direcções.
- As autoridades decidiram construí-lo!
Toan reconheceu a voz de Kim atrás dele e virou-se.
- Porque é que vais por esse lado? Devias estar a ir buscar o Juan.
Nguyen quer-vos aos dois na ponte Ho Fung às 5 horas!
Toan retrocedeu no seu caminho, e quando estava a chegar à rua
principal, uma das estátuas criou vida, e lembrou-o das fotografias da sua
avó que tinha deixado Saigão de barco, quando os norte-vietnamitas
invadiram.
-Toan”, chamou-o ela, por onde andaste? O teu pai procurou-te em todo o
lado! Despacha-te, para Port Sung, vamos todos fugir no barco do tio
Hyu.
Quando chegou ao porto notou o mesmo silêncio desconfortável.
Também ali, tudo parecia parado. Foi então que viu o estrangeiro
atarefado a transportar malas para um junco.
- O meu Pai, gritou Toan. Viste o meu Pai?
O teu Pai partiu há 20 anos. Agora é a minha vez. Os do Norte estão a
planear matar-me.
- Como é que tu sabes?, perguntou Toan.
- Os tigres pressentem o perigo- retrucou o estrangeiro.
Toan acordou, suando profusamente.
18
VII
Juan chegou a casa de Jane por volta do meio-dia. Ambos subiram
no cyclo dele.
O sol estava intenso e Juan pedalava, deixando-o para trás, em
direcção ao centro.
Depois de uns quilómetros, o estrangeiro disse:
- Deves estar cansado. Deixa-me pedalar
- És louco! Os turistas não conduzem cyclos.
- Achas que eu sou um turista como os outros? Eu vivo aqui,
respondeu o estrangeiro.
- Deixa-o, pediu Jane- quero ver as caras deles quando lá
chegarmos.
-Tu és doido!, mas não há problema”, respondeu Juan. Parou o
cyclo e trocou com o estrangeiro. Esta mudança de lugares causou
grande espanto a todos os transeuntes na estrada. Quando o
estrangeiro começou a pedalar, Jane e Juan não conseguiram mais
conter o riso.
- O que é tão engraçado?, perguntou o estrangeiro. Não tem piada
nenhuma. Vocês são bastante pesados, ouviram?
Jane e Juan continuaram a rir. O estrangeiro sentia a dor nas suas
pernas, os músculos a distenderem com o esforço, mas estava
mais divertido do que propriamente cansado. Continuou a pedalar
até ao centro.
Jane despediu-se deles. O seu “próprio” cyclo-boy esperava-a.
Nenhum deles reparou em Toan, flanqueado por Nguyen e Kim a
observá-los do outro lado da praça.
- É ele!, disse Nguyen.
- Sim, vem com o Juan, confirmou Toan.
- Prossigam como planeado, disse Kim.
O estrangeiro seria seguido o dia todo. Toan asseguraria que quem
estivesse com ele repetiria todas as suas palavras e identificaria
qualquer pessoa com quem ele contactasse.
Teriam de certificar-se que ninguém lhe emprestaria nada nem lhe
faria nenhum favor. Isto também se aplicava às raparigas.
Os homens de Kim segui-lo-iam discretamente, e também a todos
os estrangeiros que ele encontrasse.
19
Era essencial verificar se ele tinha contactos com companhias
estrangeiras, se esperava a chegada de alguém, quais os seus
planos, de onde vinha a transferência bancária que ele esperava,
quais os seu propósitos, e para que queria utilizar esse dinheiro. No
dia seguinte iria sofrer um acidente.
Toan aproximou-se de Juan e do estrangeiro. Apesar de manter-se
calmo e tentar parecer amistoso, Juan imediatamente sentiu que
ele estava preocupado. Após uma breve troca de palavras com o
estrangeiro, Toan disse a Juan para os deixar imediatamente e
deixá-lo falar com o estrangeiro a sós.
Juan disse ao estrangeiro que tinha uns negócios a tratar, e o
estrangeiro ficou sozinho.
Juan afastou-se e Toan também. Não tinha nada a dizer.
20
VIII
O estrangeiro subiu a avenida que levava ao Liz Salon. Ele tinha
ficado ali até acabar-se o dinheiro. Embora convidado a sair,
continuava a ser amigo de todos, e em particular das raparigas.
Assim que entrou, encontrou o proprietário.
- Peço desculpa, disse, mas estamos fechados por hoje. Eu acabei
de vender o local a um novo proprietário.
- Posso mudar de roupa?, perguntou o estrangeiro.
- Tem de perguntar ao novo proprietário. Por favor, aguarde um
minuto. Ergueu a voz e chamou o proprietário. Um homem de pele
escura com um penso na vista apareceu. Trocaram algumas
palavras em vietnamita, e o novo dono saiu.
- O novo proprietário não fala inglês, disse o antigo dono. Ele diz
que está muito zangado consigo por causa da sua dívida aqui. Ele
não compreende porque é que você é turista e vem para cá se não
tem dinheiro. Por favor, não volte cá novamente, até pagar-nos.
-Explicou-lhe o problema que tive com a transferência bancária?
- Sim, eu expliquei-lhe, mas acho que ele não acredita em si.
- Tudo bem, diga-lhe que pagarei assim que os bancos reabrirem
depois dos feriados do Tet. (Novo Ano Chinês).
- Eu digo, não se preocupe.
O estrangeiro saiu do Liz Salon e dirigiu-se a uma Mummysan. (Bar
de Meninas). Encontrou a dona na rua.
- Desculpe, mas não tenho licenças. As minhas meninas não têm
“Ho Khau”, a polícia fechou-nos, disse ela com lágrimas nos olhos.
O estrangeiro retrocedeu e foi ao restaurante perto do Hotel. Estava
aberto. O gerente, um homem muito alto, deu-lhe as boas vindas.
- Posso comer qualquer coisa?
- Peço desculpa, replicou. Os donos deram-me ordem para não lhe
servir nada até acertar as suas contas.
- Mas eu deixei-lhe um anel de ouro como garantia só há dois dias!
- Desculpe, mas os proprietários não consideram que essa seja
uma forma correcta de pagar.
- Obrigado, de qualquer maneira, replicou o estrangeiro antes de
sair.
As coisas estavam a tornar-se claras. No Vietnam, toda a
propriedade pertence ao Estado. Os “proprietários” têm
propriedades “emprestadas” pelo Estado.
21
O estrangeiro sentiu uma mão invisível a brincar com ele, como que
fechando todas as portas numa demonstração impressionante de
controle económico e social.
Pensou que nunca mais tinha visto os seus “cyclo-boys”.
Também eles tinham partido, substituídos por outros muito
diferentes, condutores mais velhos e antipáticos, que não pareciam
interessados em tê-lo como cliente. Não havia nenhuma das
habituais propostas que todos os cyclo-boys fazem
entusiasticamente aos turistas.
Não. Estes eram polícias à paisana. Os verdadeiros cyclo-boys não
estavam por perto.
O estrangeiro sentou-se num banco, pensativo. Olhou em volta, e
via todos os pretensos cyclo-boys a olharem para ele. Talvez fosse
só a sua imaginação; talvez fosse apenas coincidência, pensou. A
única maneira de sabê-lo, era andar.
Voltou para o centro: apercebeu-se de que estava a ser seguido.
Agora tinha a certeza. Enquanto andava, ouviu uma voz dizer:
- Amanhã vais sofrer um acidente da Máfia.
Voltou-se. Um grupo de homens falavam entre si. As ruas estavam
apinhadas. Ele não conseguia saber quem teria falado.
Amigo ou Inimigo? Aviso ou ameaça?
Não havia maneira de saber.
“Eles estão a jogar um jogo”, pensou. “Vamos jogar também. Ir
directamente à esquadra. Esperar que outros turistas também
entrem. Explicar a minha situação à polícia. Ingenuamente
perguntar o que fazer, o que é que eles aconselham. Ver o que
acontece. Conseguir sair enquanto outros turistas ainda lá
estiverem. Se for impossível, pedir que dêem a conhecer a minha
situação ao Consulado Francês em Hanoi o mais cedo possível,
assim que os feriados de Tet acabem”.
O estrangeiro sentou-se num banco fora da esquadra da polícia.
Em breve, 2 turistas franceses entraram para dar queixa do roubo
dos seus documentos. Minutos depois, ele entrou.
O único polícia que falava Inglês estava a tirar apontamentos da
queixa dos turistas franceses e fez-lhe sinal para esperar.
Esperou uns minutos, mas não tinha previsto que só houvesse um
polícia a falar inglês. Apercebeu-se que os turistas franceses iriam
embora e que ia ficar para trás, sozinho.
“Mesmo na boca do Lobo”, pensou.
22
Pediu uma caneta e escreveu uma mensagem. Antes que o par
francês saísse, pediu-lhes para a enviarem para o consulado deles.
Explicou ao polícia que esperava uma transferência bancária, que
estava atrasada devido aos feriados do fim de ano, e que tinha
deixado o passaporte como garantia num hotel, por isso não podia
registar-se noutro. Aparentando a maior ingenuidade possível,
pediu o seu conselho.
- Não me parece que possamos dar-lhe grande ajuda nesta
situação. No entanto, conheço um homem que poderá ajudá-lo,
disse o polícia. Venha, eu apresento-vos. Ele estava lá fora há um
minuto, vamos ver se ele ainda lá está.
O estrangeiro saiu à rua com o polícia.
23
IX
A infância de Kim tinha sido a de uma criança num país em guerra.
Cresceu com medo e raiva, provocados por bombas e napalm
cobardemente atirados dos céus.
Aos 12 anos, fez-se voluntário para o combate. Pouco depois o pai
morreu a menos de 50 metros dele, queimado vivo pelo napalm.
Dois anos mais tarde, Kim entrou em Saigão, que tinha sido
cobardemente abandonada por aqueles que a defendiam. Tornouse
um comando de elite.
Entrou logo em acção, a controlar as tribos nómadas das terras
centrais, apostadas em resistir ao comando comunista.
Entrou novamente em acção quando o Vietnam invadiu o Camboja
e as tropas chinesas invadiram algumas províncias do norte como
forma de retaliação.
Foi durante o confronto com os chineses que recebeu a medalha de
oficial exemplar.
Pouco depois foi mandado para a cidade de Ho Chi Minh, assim
fora baptizada a cidade de Saigão. Durante os próximos quinze
anos, preparar-se-ia para a próxima guerra e entraria para os
Serviços Secretos Militares.
Treinava ou fazia exercício 12 horas por dia. Tomava doses
enormes de esteróides; tornara-se um verdadeiro colosso.
Assim que viu o estrangeiro a entrar na esquadra, não conseguiu
reprimir um sorriso de satisfação, que foi substituída pela
impaciência à medida que os minutos iam passando.
Finalmente ele saiu na companhia de um polícia:
-“Este é o homem de quem lhe falei,” disse o polícia, apontando
para Kim. “Tem sorte que ele ainda cá esteja, ele é muito bem
relacionado. Tenho a certeza de que vai ajudá-lo”.
O estrangeiro mediu o homem que supostamente o ia ajudar. Tinha
um corpo largo, que juntamente com o seu ar auto-confiante
mostrava que devia pertencer a algum tipo de força de elite.
O polícia trocou algumas palavras em vietnamita com Kim.
- Então em que posso ser-lhe útil?, perguntou Kim.
O estrangeiro explicou novamente a sua situação: Esperava uma
transferência bancária do Crédit Lyonnais, que estava atrasada, e
24
que só estaria disponível após os feriados. Como tinha deixado o
passaporte como garantia no hotel, não podia dar entrada em outro.
O que precisava era que alguém lhe fizesse um empréstimo ou lhe
desse alojamento até ao Ano-Novo.
- Eu posso tratar disso, disse Kim - mas primeiro você precisa de
comer, deve ter fome.
- Não, nem por isso. Eu prefiro ir a um “Mummysan”. Como
qualquer coisa por lá se você puder convença-a a deixar-me pagar
depois dos feriados. Eu pago-lhe o dobro assim que os bancos
abrirem. O mesmo quanto a alojamento, claro.
Por um lado fazia-se de ingénuo enquanto tentava aguçar a
ganância de Kim. Não sabia que Kim era incorruptível.
- Venha, vamos embora, disse Kim.
Subiu na sua mota, com o estrangeiro atrás dele. Conduziu pela
cidade, pelas ruelas estreitas da velha Saigão. Parou perto de uma
casa. O estrangeiro reconheceu-a. Era a primeira “Mummysan” em
que tinha estado, na sua 1ª visita, três meses antes. A porta estava
fechada. Kim bateu várias vezes à porta. Ninguém respondeu. Viu
um vizinho e falou com ele em vietnamita.
- Estamos sem sorte. Este lugar fechou. Aparentemente não têm as
licenças necessárias. Procuramos outro.
Novamente montaram na motocicleta de Kim. O estrangeiro notou
que outras duas motocicletas os seguiam.
O segundo Mummysun também estava fechado. Novamente o
estrangeiro reconheceu o local, foi o primeiro Mummysun a que
tinha ido na sua 2ª visita a Saigão.
- Olhe, disse Kim, eu não conheço mais nenhuma Mummysun.
Empresto-lhe 50 dólares até às 9 horas. Então encontramo-nos na
esquadra. Até lá, verei o que se pode fazer quanto a alojamento.
Onde quer ir agora?
- Leve-me ao centro, pediu o estrangeiro. Vou dar uma volta.
- O.K., concordou Kim.
Este conduziu até ao centro. Agora já havia uma boa meia-dúzia de
motocicletas a segui-los. Entre elas, o estrangeiro reconheceu a de
Toan. Nem ele nem os outros se preocupavam em não serem
vistos.
Kim passou por um polícia de trânsito que lhe fez uma saudação
militar.
- Pode deixar-me aqui, disse o estrangeiro.
25
Kim parou e ambos os homens desceram.
- Vamos dar uma volta, propôs Kim.
- O.K., disse o estrangeiro.
- Sabe, Saigão é uma cidade perigosa, tem muito crime. Até agora
tem tido sorte, só travou conhecimento com bons cyclo-boys, mas
agora vai conhecer outros muito diferentes.
Vindos do nada, apareceram vários vietnamitas cujas expressões
não deixavam dúvidas quanto às suas intenções. Só a expressão
de Toan era diferente.
O estrangeiro não lhe viu ódio no rosto. Em vez disso parecia-lhe
que via uma espécie de tristeza, quase como se ele lhe pedisse
desculpa.
Kim estava parado no passeio, de costas para o trânsito da hora de
ponta em Saigão.
- Há uma coisa que tenho que lhe dizer, disse o estrangeiro
virando-se para Kim. - Venha, disse, enquanto via o fluxo de
trânsito e lhe pousava a mão no ombro.
Pelo canto do olho, viu um autocarro aproximar-se. Subitamente
atravessou a estrada, segundos antes do autocarro passar.
Kim correu atrás dele, logo seguido pelos outros, mas era tarde. O
autocarro e o enorme tráfego atrasaram-nos umas fracções de
segundos. O estrangeiro atravessou a estrada e correu para o hotel
Majestic. Com um salto digno do de um tigre, atravessou a porta do
hotel. Sentiu uma espécie de triunfo quando o vidro se estilhaçou a
seu redor. Aterrou no chão, rebolou e correu pelo Hall enquanto
Kim e mais outros dois entravam no átrio em sua perseguição.
26
X
Quando o vidro da porta principal do hotel Majestic se estilhaçou e
um homem voou através dela a gritar “Socorro, estão a tentar
matar-me!. Ajudem-me”, os seguranças do hotel entraram em
acção. Dois deles levaram o estrangeiro para a cave, dois andares
abaixo da Sauna.
Os outros seis barraram o caminho dos três que o perseguiam.
Embora conhecessem Kim e o seu cargo de oficial da Polícia
Militar, a os regulamentos proibiam, sob quaisquer circunstâncias, a
qualquer membro da polícia, ou do exercito deter um cidadão
estrangeiro num hotel sem um mandato do tribunal. Além do mais,
vários turistas tinham testemunhado a cena e o número aumentava,
todos a querer saber o que se passava. Tentaram acalmar Kim.
- Tenho ordens do general Than para eliminar este indivíduo. Ele
não pode fugir! Levem-me a ele!, disse, com o sangue ainda a
ferver com a humilhação de estar a ser sido impedido por uns
insignificantes seguranças de hotel - Trato-lhe já da saúde!
- Não se preocupe, Camarada Kim, disse o Chefe da Segurança: A
ratazana não sai daqui com vida. Deixe-nos tratar disto.
Compreende, temos que fazer as coisas de uma forma discreta,
não podemos dar-nos ao luxo de ter um escândalo aqui. Pode
informar o general que a ratazana está morta. Por favor, camarada,
controle-se, temos procedimentos para com estas situações que
têm de ser respeitados. Todas as pessoas envolvidas têm de ser
identificadas, incluindo a si... Claro que dada a sua posição pode
completar os impressos de identificação você mesmo,...
- Kim ainda estava a remoer a humilhação de meros civis poderem
pará-lo. No entanto, percebeu que, dadas as circunstâncias, os
seguranças estavam melhor colocados que ele para cumprir a sua
missão.
- Se eu puder ficar descansado que a ratazana está como morta,
então vamos completar as formalidades do funeral, disse.
Escreveu:
Juan Truong, Nguyen Lee, e... - consultou na sua agenda os
contactos do estrangeiro, Pham Truoc. Agora trate disso o mais
rapidamente possível e mantenha-me informado de tudo.
27
- Fique descansado, Camarada Kim. Obrigado pela sua
colaboração.
Humilhado e furioso, Kim e os outros saíram do Hotel.
XI
- O.K., disse o chefe dos seguranças - os perseguidores foram
identificados e saíram do hotel. Por agora, está a salvo. Acho que
precisa de descansar e talvez de comer e beber algo. O que posso
arranjar-lhe?
- Eu gostava de usar o telefone, primeiro, e também de alugar um
quarto, se possível. Não tenho os meus documentos comigo, podia
chamar-me o gerente?
- Não se preocupe com telefonemas por agora. O gerente estará
aqui num instante, já vem a caminho. Ele já tentou contactar o
consulado americano e o francês, mas como sabe, estão fechados
no fim do ano. Agora o que precisa é de descanso. Acalme-se. E há
formalidades a tratar nestes casos. Pegou num livro da prateleira, e
pediu ao estrangeiro que descrevesse o incidente e que assinasse.
Ele escreveu:
“Fui vítima de tentativa de homicídio, peço protecção Consular, e
considero a gerência do hotel responsável pela minha segurança”.
Deram-lhe uma sanduíche e um pacote de sumo de laranja com
palhinha. Ele bebeu o sumo, e deu uma dentada na sanduíche.
Quando o fez, veio-lhe à memória uma frase de “ Vietnam - Guia do
turista”: “...Eles, juntamente com o simpático pessoal de hotel,
fornecerão informações em primeira mão à polícia das suas
actividades.”
Decidiu não engolir.
- Desculpe, não tenho fome, disse.
Insistiram que comesse. Respondeu:
- Olhem eu não acho que tenha veneno. Só não tenho fome.
Passados minutos, sentiu-se esquisito, a sua boca e língua
imobilizavam-se, os músculos do ombros também.
- Envenenaram-me!, disse ele.
- Ouça, fomos contratados para aqui pelos indivíduos que o
acabaram de tentar matar. Lembras-se deste homem? Anteontem
era ele que transportava a tua namorada. Ninguém te pode salvar
agora. Podes gritar, que ninguém te vai ouvir.
28
O estrangeiro pensou para si: Eles têm razão! Ninguém me vai
salvar! Por isso tenho que me salvar a mim mesmo.
Na sala existia uma janela, mas infelizmente o hotel devia ter sido
construído sobre uma forte declive porque a janela ficava a uns
bons 15 metros do nível do chão. Se ele saltasse por ela partia os
ossos todos.
Ao mesmo tempo, cada segundo que passava ele sentia os
músculos a paralisar cada vez mais, aquele veneno devia ser muito
potente, pensou. Graças a Deus que não o tinha engolido!
Só se podia salvar agora, enquanto ainda se conseguia mexer. À
frente estavam os seguranças do hotel, uns 8, indo e vindo
constantemente. A porta que dava para a Sauna e para a recepção
estava aberta. Ele tinha só que alcansá-la e correr lá para cima,
mas como passar pelos seus captores?
Ergueu-se, sob o olhar atento dos seguranças. Os músculos das
pernas não pareciam afectados, o veneno parecia ter um efeito
mais forte nas áreas em torno da boca, onde devia ter sido
absorvido localmente.
De repente saltou para a janela do outro lado da porta, partindo o
vidro e magoando-se bastante. Os seus captores de imediato
surgiram atrás dele, mas o estrangeiro não tinha saltado através da
janela, ele tinha saltado para cima do rebordo desta. Quando os
seguranças se aproximaram dele, saltou-lhes por cima e correu em
direcção à porta, subindo as escadas a correr, em direcção à
Sauna. Lá havia alguns turistas, e ele voltou a gritar: “Socorro! Fui
envenenado! Preciso de um médico! Socorro! Estão a tentar matarme!”
Uns turistas norte-americanos ajudaram-no, estavam no hotel e
chamaram um médico inglês que lhe disse para não comer nada e
beber muita agua. Perante a insistência dos americanos, foi-lhe
permitido fazer várias chamadas a cobrar na conta dos americanos.
Avisou as pessoas no País e no estrangeiro que o poderiam ajudar
após o que, com alguma relutância, concordou em voltar à cave,
enquanto aguardava pelo proprietário.
Agora sentia-se a salvo – demasiados turistas haviam
testemunhado os acontecimentos, a família e amigos estavam
avisados do que se passava.
Algum tempo depois o gerente, muito bem vestido veio, assegurou
que tudo estava bem, que era preciso que lhe tratassem das
feridas, que tinha de ir ao hospital.
29
Ele ainda pediu para falar com o médico inglês antes de ir ao
hospital, mas o médico já tinha saído do Hotel. O estrangeiro
explicou a situação ao gerente e a um dos americanos que
chamaram o médico na altura, perguntou se podia alugar um quarto
quando tivesse alta. O gerente assegurou que sim.
- Mas tem de pagar todo o estrago que fez.
-Certamente - disse ele - assim que os bancos abrirem.
- Muito bem, respondeu o gerente. Chegou um médico vietnamita
que trocou algumas palavras com o gerente.
O médico não falava inglês, e o gerente traduziu:
- Você está muito tenso e precisa de uma pequena cirurgia. O Dr.
sugere dar-lhe uma injecção para as dores e desinfectar e coser as
feridas antes de levá-lo para a ambulância para diagnóstico e
desintoxicação.
- O. K., concordou o estrangeiro.
Foi-lhe dada a injecção. As feridas foram cosidas. Os turistas
americanos foram jantar.
A realidade começou a abandoná-lo. Estava vagamente consciente
da dor, de vozes em vietnamita, da sirene da ambulância, depois
adormeceu.
30
XII
Assim que recuperou os sentidos ouviu vozes e sentiu dores no
braço esquerdo. Com algum esforço abriu os olhos, viu agulhas e
tubos no seu corpo.
Estava a soro, o seu braço, ligado. O soro pendia frouxamente de
um suporte. Uma enfermeira aproximou-se, sorrindo:
- Então como nos sentimos hoje?, perguntou amigavelmente.
- Um bocado cansado, respondeu. Que horas são?
- Cerca das 2 da tarde. E tem visitas. Têm estado à espera desde
as 10 da manhã.
Ele elevou-se para se poder sentar e ficou dolorosamente
consciente das agulhas presas ao braço.
- Shhh! Shhh! Não se deve mexer assim, disse a enfermeira com
gentileza, mas empurrando-o firmemente para trás.
- Vietnamitas?
-Sim, - confirmou a enfermeira – posso deixà-los entrar?
- Primeiro desamarre-me o braço, preciso de ir à casa de banho.
- Não é necessário, disse com risinhos, enquanto baixava os
lençóis e descobria os seus genitais, onde uma argália tinha sido
colocada - pode fazê-lo aqui, ou refere-se à “coisa sólida”?
Ele pensava:
-Quem seriam as suas visitas? Era mais do que certo a polícia ter
seguido a ambulância, mas correria risco enquanto estava em
tratamento hospitalar? Se quisessem, os médicos podiam tê-lo
morto.
- Posso falar com o médico?
- Claro. A enfermeira divertiu-se da súbita ansiedade do paciente.
Deixou o quarto e em breve um médico entrou.
- Como se sente?
- Bastante bem, respondeu. Onde estou?
- No Hospital Internacional de Ho Chi Minh. Temos os melhores
meios e a melhor assistência médica. Sente alguma dor na coluna?
- Não. Suponho que seja bom sinal?
- Sim, muito bom, significa que o veneno não alcançou o sistema
nervoso central. Vamos examinar os seus olhos, disse, olhando de
perto em contra-luz. O ritmo cardíaco também precisa de ser visto,
disse, pegando no estetoscópio.
31
- Quem são as minhas visitas?
- Não sabia que tinha visitas, só agora é que cheguei! Chamou a
enfermeira.
- O nosso paciente tem visitas?
- Sim, 3. Estiveram à espera desde manhã.
- Quem são? Perguntou o estrangeiro.
- Não quiseram deixar os nomes, respondeu ela.
O médico saiu.
- Posso ir à casa de banho?, perguntou á enfermeira
- Claro, se precisa. Vai poder encontrar as visitas no caminho.
Cuidadosamente ela desamarrou o braço. Ele saltou da cama e
começou a fazer a sua kata preferida.
- Pratica artes marciais?
- Não propriamente, falta-me de exercício.
Aproximou-se da janela para ver o exterior, notou que estava num
2º andar. Pensou: “Demasiado alto para saltar e sem árvores onde
cair”. À entrada do hospital estavam dois guardas que pareciam
desarmados, um terceiro homem falava com eles. Uma multidão de
cyclo-boys esperava por qualquer estrangeiro que saísse. Um
estrangeiro dava entrada numa maca.
- Posso telefonar?
- Só lá embaixo na recepção.
- Por favor, mostre-me onde fica a casa de banho.
- Venha, disse ela pegando-lhe na mão.
Ele sentiu a mão dela e apertou-a com firmeza, mas não se mexeu.
Examinou-a por instantes, tentando discernir os seus pensamentos.
Obviamente sem perceber, corando, ela disse baixinho: - “sabe, eu
sou casada”. Ele afrouxou o aperto na sua mão.
- Sabe porque estou aqui?
- O seu diagnóstico é intoxicação alimentar, Sr.
- E quanto a estas feridas? Perguntou, mostrando os braços.
- Julgo que se magoou quando estava envenenado. Foi de encontro
a um vidro, ou algo do género, não é assim?
- Bem, sim, não exactamente. Então, olhando-a nos olhos disse: Fui
envenenado pela Mafia.
Ela retraiu-se, intimidada e nervosa.
- Não sei a que se refere. Isto é um hospital. Tratamos de pessoas,
não lidamos com esse tipo de problemas. Isso é para a polícia,
disse, a voz ficando mais firme.
32
Ele não parava de pensar: Tinha escapado de Kim, do pessoal do Hotel
Majestic, mas não era suposto ser esfaqueado por Kim. Era
suposto Ser vitima de um acidente perpetrado pela Máfia, O
autocarro e o trânsito altamente congestionado salvaram-no. O seu
instinto salvou-o de um envenenamento “acidental”. Mas se a Máfia
enviasse 3 pessoas para o esfaquear ou abater, o tal incidente seria
perfeitamente credível. Era óbvio que o pessoal hospitalar não fazia
parte da conspiração, mas que outras certezas poderia ter? Nessa
altura o médico, que entretanto voltara, interviu: Ou vai à casa de
banho ou volta para a cama. O seu tratamento é da minha
responsabilidade, e você ainda devia estar a soro. Não o quero a
andar por aí, muito menos a fazer exercício. Pode ser muito
prejudicial para si.
- Desculpe, doutor, preciso da sua ajuda, o meu envenenamento
não foi acidental, foi tentativa de homicídio. Temo que as visitas
venham acabar o trabalho.
O médico não comentou.
- Pode identificá-los? perguntou o estrangeiro.
- As identidades por aqui, são frequentemente falsas, mas não
serão permitidas quaisquer visitas ao seu quarto sem o seu
consentimento. Eu vou tratar disso, mas é tudo o que posso fazer.
- Pode mandar uma mensagem a um amigo meu? Se não for
possível, pode chamar o médico americano?
- Isso já não, porque temos médicos competentes aqui. Sinto muito,
mas não quero envolver-me. Desconheço a sua situação, que
também poderia trazer-me problemas. - fez uma pausa, por um
instante, e então murmurou: Você não está na Europa, sabe? Mais
um breve silêncio: - Calma. Fique calmo. O que tiver de ser, será.
E dizendo isto, o médico saiu do quarto.
- Não se eu o puder impedir!, pensou o estrangeiro.
- Diga às minhas visitas para voltarem às 4 horas. Peça desculpa,
mas sinto-me um bocado cansado, disse à enfermeira que pareceu
aliviada e saiu do quarto.
Deitou-se para trás, esticando o braço direito, agarrando num jornal,
e leu:
33
XIII
“Vietnam News”
O Comité Central do Partido Comunista do Vietnam debateu ontem os
efeitos negativos da influência estrangeira que se deve à abertura do país
ao turismo e ao investimento estrangeiro.
Especificamente referiu-se ao aumento de revistas e de publicações
estrangeiras contendo material subversivo, frequentemente criticando os
princípios básicos do Marxismo-Leninismo, assim como a legitimidade do
Governo do Partido Comunista, ao aumento da pornografia, prostituição e
abuso de drogas, e também ao dramático aumento da criminalidade em
Ho Chi Minh. Discutiu-se também a medida em que estas influências
podem ameaçar a preservação da nossa identidade e da nossa cultura.
Após um debate que durou várias horas, uma moção proposta pelo
Camarada Pham The foi aprovada pela esmagadora maioria dos
presentes. Ela pede a todos os membros do partido e às massas que
redobrem a vigilância contra as influências indesejáveis estrangeiras, e
que participem todas as ocorrências que pareçam suspeitas às
autoridades competentes, e aos núcleos partidários.
Também dá instruções à polícia afim de esta tomar todas as medidas
necessárias para combater a subversão, prostituição e o abuso de
drogas.
A moção também pretende salvaguardar o carácter e identidade do País
ao exigir que todos os reclames em línguas estrangeiras, cartazes,
posters, imagens publicitárias e outras do género sejam removidas, e
que, de futuro, todas essas formas de publicidade em língua estrangeira,
sejam permitidas só e se apenas forem precedidas por um texto em
língua vietnamita de formato idêntico, ou maior.
Estas medidas produziram um protesto imediato da parte de homens de
negócios estrangeiros.
Um deles, o Sr. Yan Lee, director da companhia das Cervejeiras
Associadas, de Singapura, queixou-se: Nós acabámos de gastar dezenas
de milhares de dólares a anunciar a nossa marca de cerveja, “TIGRE”, por
todo o Vietnam, após meses de negociações para conseguir que as
autoridades o permitissem - e agora isto!
O sr. Ian Rose, da “East Asia Consulting” afirmou-nos,
“Se esta é a concepção vietnamita da economia de mercado, teremos de
avisar os nossos clientes para evitá-la.” “Espero que as autoridades se
34
apercebam que se os investidores não tiverem confiança, não há
investimento!”, comentou o Sr. Fieldricht, consultor financeiro da Dade
Brothers, numa reacção típica de outros investidores, alguns dos quais
ainda se lembram do decreto do ano anterior que anulou todos os
contratos de arrendamento com empresas estrangeiras.
XIV
O estrangeiro pousou o jornal na cabeceira. Silenciosamente
procurou chegar à caixa de instrumentos cirúrgicos atrás dele.
Removeu um bisturi, segurou-o firmemente, ajustando-o à mão
direita, puxando a manga, deforma a não ser visto. Cortou o botão
de punho para uma maior mobilidade, de forma a este não
atrapalhar qualquer movimento.
- “As facas são melhores que armas de fogo no combate corpo a
corpo.”, lembrou-se que tinha sido aprendido durante a sua
instrução militar.
Em menos de um segundo, o que parecia ser um braço imobilizado,
tornar-se-ia numa arma letal.
Às 15h30 pediu à enfermeira para soltar o seu braço esquerdo.
- Onde estão as minhas roupas?
- Eu penso que estejam na lavandaria, respondeu sorrindo. Não se
preocupe, vai tê-las de volta assim que receber alta do médico. E
vão estar limpinhas, também, disse, alargando o seu sorriso.
- As minhas visitas voltaram?
- Acho que sim, respondeu a enfermeira.
- Se faz favor, desate-me o braço por um instante, pediu.
- Com certeza, - respondeu ela, continuando a retirar-lhe a agulha.
Você precisa de ir à casa de banho, de qualquer forma. Mas precisa
de continuar a soro por mais um bocado. Terei de o recolocar em
breve.
- Quero ter uma visita agora.
- Mas só uma, entendeu!? disse, num tom brusco, algo agressivo.
Viu no olhar dela que ela não gostara da forma como eu me dirigi a
ela. Murmurou uma desculpa enquanto ela saia do quarto.
Esperou a uma distância prudente da porta, os músculos tensos.
Ouviu bater. A porta abriu-se, e a visita entrou no quarto.
Apesar de ser desconhecido, o rosto tinha um ar amigável.
- Como vai?, perguntou o visitante. Vim cá para ajudá-lo. Foi
Sharon quem me enviou. Sabemos tudo sobre a história. Nenhum
dos outros veio por ser demasiado perigoso para eles.
35
Juan e Pham já foram detidos. Jane está sob interrogatório. Como
sabe, é ilegal abrigar um estrangeiro sem notificar a polícia.
- O melhor para si e para todos é que não os volte a ver.
Mesmo a minha visita aqui, pode ser perigosa. Você não me verá
mais. Mas, dia e noite, vai ter tigres à espera na entrada principal.
Um deles terá uma T-shirt amarela. Eles vão passar por cyclo-boys
comuns, até para a polícia, que também estará lá fora como cycloboys.
- Lembre-se: o de amarelo Ele terá uma moto mais rápida, com
matrículas falsas.
Agora tenho que ir.
- Não sabia que haviam tigres em Saigão.
- Talvez eles estivessem adormecidos. Você acordou-os.
Mesmo assim, eu acho que é melhor para mim ficar hospitalizado
até que acabe o Tet, quando re-abrir a embaixada francesa. Por
favor, informe-os da situação.
- Já foi mandada uma carta anónima. Tenho mesmo de ir, disse ele, saindo.
36
XV
Às seis horas, médicos e enfermeiras mudaram de turno. Por volta das
seis e meia, uma enfermeira diferente entrou.
“Tenho uma coisa para lhe contar”, disse baixando o olhar. “Mas por
favor, não diga nada a ninguém que lhe contei.”
Olhou para ele e continuou em voz baixa, quase como se estivesse a
confessar-se: “Um dos médicos pediu-me para o avisar de que o
tratamento que está prestes a receber vai transformar-lhe o cérebro
num vegetal.” Fez uma pausa. “Para sempre.”
“Porque acha que o médico lhe contou isso?”
“Alguns médicos não aprovam...”
“Sin, c’mon”, respondeu o estrangeiro, agradecendo-lhe em vietnamita.
“E quando deverá esse ‘tratamento’ começar?”
“Às oito horas”, respondeu-lhe, novamente baixando o olhar. Voltou-se
e saiu do quarto.
O estrangeiro dava voltas ao seu pensamento, a mente fervilhava. Não
duvidava da sinceridade do aviso nem da honestidade do visitante
anterior, mas parecia-lhe que aquela não era a melhor altura para
tentar uma fuga. Com certeza, os polícias à paisana lá fora conheceriam
o momento exacto do tratamento, pensou. Se assim fosse, esta seria a
pior altura para tentar a fuga. O seu instinto dizia-lhe que não o fizesse.
A sua mão cheia de cyclo-boys não eram certamente suficientes para
fazer frente a polícias armados. Estes certamente não iriam usar as
armas, isso seria demasiado óbvio. Toda a gente sabe que o uso de
armas é severamente controlado no Vietname.
Saiu do quarto, ainda com o bisturi escondido na manga e pôs-se a
congeminar possibilidades de fuga. O seu olhar fixou-se numa árvore
grande que havia no jardim.
Olhou para a enfermeira, observou o edifício e dirigiu-se à casa de
banho no andar de baixo.
37
XVI
Um silêncio opressivo.
Deviam ser umas duas horas, pensou o estrangeiro – mais que tempo
para se pôr a mexer.
Silenciosamente, soltou o braço esquerdo do soro venenoso. Tentou
mexê-lo, mas o braço não obedecia. Estava completamente inerte.
Agarrou no bisturi e cortou o torniquete que improvisara com o cinto do
pijama. Também tirou a ligadura que pusera no corte feito
imediatamente após a administração da injecção.
Mesmo assim, o torniquete estava tão apertado que a parte superior do
braço doía insuportavelmente. Pediu a Deus que o torniquete estivesse
bem apertado e assim tivesse impedido o veneno de entrar na corrente
sanguínea.
“Provavelmente estou bem”, pensou. “Sinto-me bem.”
Mas não deixou de ter uma sensação arrepiante à medida que o sangue
lhe corria nas veias.
Sentiu gradualmente os músculos a readquirirem o controlo. Exercitou
os dedos, flectiu o braço. Ainda se sentia fraco, mas estava a melhorar.
Ainda com a arma escondida na manga, dirigiu-se à janela. Bastante
nítida no meio do grupo de rapazes, destacava-se uma t-shirt amarela.
Abriu a porta silenciosamente. O corredor estava vazio. Pé ante pé
desceu as escadas para o rés-do-chão. Conseguia ouvir as enfermeiras
a conversar algures no primeiro andar. Atravessou o jardim e subiu a
uma árvore de onde podia ver a estrada do outro lado do muro. Estava
deserta.
Parecia que este era um dos principais acessos ao hospital. Um
cycloboy vinha pela estrada acima. “Deve ir para casa”, pensou o
estrangeiro. Assobiou e o rapaz e travou, olhando intrigado em seu
redor.
O estrangeiro arregaçou a manga, colocou o estilete no bolso direito e
saltou da árvore para a estrada. Fez sinal ao rapaz atónito que ficasse
em silêncio.
Subiu para o cyclo e disse: “Leva-me para uma rua escura. Qualquer
rua, desde que seja escura.”
“Quanto paga?” perguntou o rapaz desconfiado.
“Vou pagar-te bem. Não te preocupes. Agora vamos!” O estrangeiro
tentava pôr-se numa posição que escondesse a sua curiosa
indumentária, de modo a não chamar a atenção.
“A que distância quer ir?”
“Não muito longe. Qualquer rua escura serve, mas nunca um beco,
percebeste?”
“Não percebo o que significa ‘beco’”, respondeu o rapaz.
“Quero uma rua sem gente. Esta serve. Vira à esquerda.”
O rapaz virou e parou a bicicleta.
38
“Agora ouve com atenção”, pediu o estrangeiro. “Quero que voltes ao
portão principal do hospital. Está lá um amigo meu. É vietnamita e tem
uma t-shirt amarela vestida. Quero que lhe digas que estou aqui.
Depois voltas e pago-te.”
“Quanto?” perguntou ansioso o rapaz.
“Dez dólares.”
“Sim, senhor. Obrigado, senhor”, respondeu o rapaz.
“Só falas com ele, percebes?”
“Sim, sim”, assegurou o rapaz.
O estrangeiro afastou-se uns metros do local onde tinha sido deixado e
escondeu-se atrás de um pequeno portão.
Uns minutos depois, um rapaz de t-shirt amarela apareceu numa moto.
O estrangeiro assobiou e saiu do esconderijo.
“Tire a parte de cima do pijama e vista isto”, disse o motociclista,
despindo a t-shirt.
“Para onde me leva?” perguntou o estrangeiro.
“Para as montanhas. Há lá boa gente. E menos polícias”, disse rindo-se.
“Vai gostar de lá estar.”
E foi assim, vestido numa t-shirt amarela emprestada e à boleia numa
moto com matrículas falsas conduzida por um estranho que o
estrangeiro iniciou a sua fuga de Saigão.
39
XVII
Andaram cerca de três horas. O estrangeiro estava impressionado com a
população aglomerada tão miseravelmente, casa sobre casa durante mais de
30 quilómetros. Era como se Saigão fosse uma cidade interminável embora
com ruas vazias, à excepção de um ou outro grupo de jovens vietnamitas que
se viam ocasionalmente ou grupos de estranhos ciclistas e cycloboys de
regresso a casa.
Ao longo do caminho, as casas tornavam-se menos frequentes e os campos de
arroz só apareciam de vez em quando. Mas depois as casas desapareceram
quase por completo e os arrozais predominavam na paisagem.
Não trocaram uma palavra durante toda a viagem. O estrangeiro estava
exausto. Apesar disso, sentia-se seguro mas temia adormecer. O condutor
virou à esquerda e seguiu por uma estrada muito estreita que terminava à
entrada de uma casa.
“É a casa dos meus pais”, disse.
Parou a moto, desceram e o rapaz abriu silenciosamente a pequena porta de
madeira que se encontrava destrancada. Estava escuro porque a casa não
tinha electricidade. O vietnamita pegou num isqueiro e acendeu um lampião a
óleo que depois pendurou no tecto. Mal o fez, todo o cenário se tornou nítido:
um quarto pequeno, uma mulher a dormir numa enxerga no chão e várias
peças usadas de bicicleta – quadros, rodas, peças sobresselentes.
“O meu pai arranja bicicletas”, explicou o rapaz. “E já agora, chamo-me Luyen.”
A mulher sussurrou qualquer coisa em vietnamita. Levantou-se num ápice e
olhou fixamente para o estrangeiro durante alguns minutos. Parecia
estupefacta. Luyen e a mulher começaram a falar. A mulher tornou a olhar para
o estrangeiro, sorriu e inclinou ligeiramente a cabeça, como se acabasse de
tomar conhecimento da sua presença. Levantou-se e foi buscar comida e sake.
Os três sentaram-se no chão em torno da comida. Luyen e o estrangeiro
comeram avidamente. Era a primeira vez que o estrangeiro comia sem medo
de ser envenenado, desde o incidente no Hotel Majestic. A comida e bebida
eram deliciosas. Tinham um sabor que nunca provara antes: o sabor da
segurança.
Foi então que o estrangeiro viu uma rede suspensa por dois ganchos presos no
tecto, pendurada a um canto da casa. Alguém dormia aí.
“A minha irmã”, disse Luyen. “Queres-la?”
Sem esperar pela resposta, o Luyen levantou-se, deu-lhe uma palmada no
rabo e disse: “Acorda, Shi. Temos uma visita.”
A rapariga, ensonada, resmungou qualquer coisa.
“Um estrangeiro”, acrescentou Luyen. “Um estrangeiro fugitivo.”
Shi saltou da rede com uma agilidade surpreendente. Ficou boquiaberta em
frente ao estrangeiro que estava sentado e igualmente incrédulo. Mas não se
conteve e desatou a rir à gargalhada. Era um riso compulsivo, incontrolável.
“É a primeira vez que a minha irmã vê um estrangeiro”, explicou Luyen. “A
maior parte das pessoas daqui não tem autorização para ir ao centro de
Saigão.”
40
Shi ficou a rir durante uns cinco minutos seguidos antes de finalmente parar.
Mas o por pouco tempo, uma vez que o riso voltou logo depois.
“O que é que se passa aqui?” perguntou uma voz masculina, interrompendo o
riso de Shi. O pai, acordado por toda aquela risota, entrara no quarto. Ainda
não tinha acabado a pergunta quando reparou na presença do estrangeiro.
“O Luyen trouxe-nos um estrangeiro!” exclamou Shi, radiante.
“Parabéns, Luyen”, disse o pai. “Quer passar a noite aqui? Disseste-lhe que
podemos alugar-lhe um quarto?”
“Pai, ele não tem dinheiro.”
“O quê?”
“E para mais anda a fugir da Polícia. Tentaram matá-lo!”
O pai acenou com a cabeça em sinal de desaprovação. “A Polícia pode roubar
turistas mas não os pode matar. Este rapaz é um criminoso?” Após uma breve
pausa, continuou: “O melhor é entregarmo-lo já. Deve ser um problema muito
sério, se a Polícia o quer matar... Devemos receber uma recompensa por isto.”
O pai ficou em silêncio durante algum tempo, como se estivesse a ordenar os
seus pensamentos. “Por outro lado, se o estrangeiro nos puder pagar... É
perigoso mas pode valer a pena arriscar.”
Luyen interrompeu o discurso do pai: “Tu não estás a perceber...”
O estrangeiro, que seguia atentamente a conversa, avaliava as palavras do
velhote. Assistia às suas expressões – do entusiasmo à incredulidade, da
ganância à incerteza. Por instinto, talvez, o estrangeiro pegou na lâmina – uma
reacção nervosa, algo injustificada. Estava certo de que Luyen trataria de tudo.
Seguiu a conversa entre pai e filho tanto quanto lhe era possível. De repente,
olhou para Shi. Shi também olhou para ele. Levantou-se, aproximou-se dele e
pegou-lhe na mão. Puxou a mão dele, levantando-o do chão e mostrou-lhe o
caminho para o quarto dos pais.
A mãe estava à porta e acenou ao estrangeiro. Shi sussurrou-lhe algo ao
ouvido e a Mãe entrou na sala. Shi empurrou o estrangeiro para dentro do
quarto. Começou a mudar os lençóis.
O estrangeiro observava-a, como se estivesse parado no tempo,
consciente de que faria melhor em seguir a conversa que se passava na sala,
mas ao mesmo tempo, incapaz de se mover. Se não podia confiar em Luyen,
que hipótese tinha de sobreviver? Pensou em atravessar a selva até ao
Cambodja. Mas que hipóteses tinha de lá chegar? E em quantos Luyens teria
de confiar durante o percurso? Finalmente, decidiu voltar à sala. Shi impediu-o:
“Prometo. Não há problema.”
“Não há problema, o caraças!” exclamou o estrangeiro. “E quem és tu para me
dizeres que não tenho problemas? Tenho problemas! Deixa-me!” disse,
empurrando-a do seu caminho. Quando entrou na sala, Luyen ainda discutia
com o pai.
“Luyen”, interrompeu o estrangeiro. “Provavelmente salvaste-me a vida e isso é
mais que suficiente. Agora posso seguir o meu caminho. Não metas a tua
família nisto. Lembra-te que sou um tigre. Os tigres dormem nas árvores. Eu
durmo lá fora. Basta que avises a tua família que mato seja quem for que saia
desta casa antes do amanhecer.”
Mal o estrangeiro terminou a última frase, calou-se, envergonhado da sua
ingratidão. “Desculpa, não era isso que queria dizer...”
“Deixa-te de tanta preocupação”, interrompeu Luyen. “Não te trouxe até aqui?
Então deixa-me tratar do assunto.”
41
O pai de Luyen dirigiu-se ao estrangeiro com os olhos lacrimosos: “É amigo do
Vietnam do Sul?” perguntou num inglês rudimentar.
“A Polícia está a tentar matar-me porque tem medo que eu saia daqui e
divulgue ao mundo o que vi. Esta é a única maneira que tenho de vos ajudar e
de me vingar das hienas que governam Saigão.”
Luyen disse qualquer coisa em vietnamita e voltando-se para o estrangeiro,
explicou: “Expliquei-lhe o que queria dizer com ‘hienas’. O inglês do meu pai
não é muito bom.”
“É muito bem-vindo”, disse o ancião comovido.
Shi aproximou-se do estrangeiro: “Vês? Agora está tudo bem. Vem. Precisas
de descansar.”
O ancião estava de cócoras no chão com as mãos a cobrirem-lhe o rosto. O
estrangeiro posou-lhe a mão sobre o ombro e disse, antes de se render ao
suave empurrar de Shi: “Prometo.”
Shi levou-o para o quarto e fechou a porta. Gentilmente despiu-o e indicou-lhe
que se deitasse. Começou a massajar-lhe os dedos dos pés, aliviando-o de
toda a tensão acumulada. Dedicou depois toda a sua atenção a cada um dos
músculos de cada pé, cada tendão do tornozelo, cada músculo de cada uma
das pernas.
O estrangeiro sentiu-se a flutuar e as recordações do Liz Salon voltaram.
Recordou os mesmos toques suaves, mas firmes e a felação que
habitualmente se seguia. Começou a sentir um desejo intenso de possuir Shi.
Os dedos dela subiam pela coluna, acariciando-o vértebra após vértebra até
dedicar toda a sua atenção às costas, aos ombros, aos braços e ao pescoço.
Shi fez-lhe sinal para que se virasse, despiu-se e sentou-se em cima dele,
fingindo ignorar a erecção dele. Shi continuava a massagem, roçando
suavemente o clítoris no pénis dele. Shi continuou a gatinhar até alcançar a
zona do abdómen. Estava húmida.
“O meu irmão disse-me que me querias. Agora percebo que é verdade. Podes
pagar pela minha virgindade?”
“Claro que quero”, respondeu o estrangeiro sem hesitar. “Mas não gosto de
pagar em troca de sexo – nem costumo fazer isso. Julgo que deves guardar a
tua virgindade para alguém que ames.”
“Mas eu amo-te!” respondeu Shi, baixando os olhos. És bonito, és um amigo,
és como um dos heróis dos meus sonhos. Tu é que não compreendes. Já
tenho 15 anos e em breve a Polícia vai pedir a licença de negócio ao meu pai e
vão ver que ele não a tem. Depois vão passar-lhe uma multa e ele não vai ter
dinheiro para a pagar e vão prendê-lo! É por isso que tenho de me manter
virgem, para poder pagar essa multa. Sabes, muitos homens asiáticos
acreditam que tirar a virgindade a uma rapariga traz boa sorte, especialmente
nos negócios. Outros querem virgens porque têm medo da SIDA. Se eu não
tiver o dinheiro da virgindade para pagar a multa, vou ter de andar na
prostituição durante muito mais tempo e não quero isso.”
O estrangeiro boquiaberto levantou-se. De repente, tudo lhe pareceu claro. Era
a única testemunha de um tipo de crime em massa, organizado, sistematizado
e executado a uma escala tal que não podia acreditar que fosse possível.
Isso também fez com que entendesse melhor o que a Polícia temia. Os
interesses em jogo eram muito maiores do que imaginara.
42
43
XIX
Shi e o estrangeiro passaram os três dias seguintes a fazer amor, deixando a
cama somente para as refeições, durante as quais o pai dela falava
incessantemente sobre o passado – sobre torturas, prisões, humilhação,
desespero e esperança.
Luyen traduzia tudo o melhor que podia. O estrangeiro tentava fixar todas as
palavras.
Na terceira noite, Shi estava triste.
“O que tens?” perguntou o estrangeiro.
“Estou triste porque amanhã o Luyen vai levar-te para as montanhas e eu
também gostava de ir.”
“Eu volto”, respondeu o estrangeiro, limpando-lhe as lágrimas do rosto. “Amo-te
e voltarei por ti. Prometo.”
“Nunca te deixarão voltar”, respondeu-lhe Shi.
“Não preciso da autorização deles. Nem sequer a pedirei. Voltarei tal como
vou. Quando um tigre é ferido por hienas, esconde-se na selva, lambe as
feridas, espera até sair outra vez. Um belo dia, salta do cimo da árvore para
reclamar o seu território. Tu és minha e voltarei para ti.”
“Não voltarás”, respondeu Shi suavemente.
44
XX
“Esta viagem não será tão simples quanto a anterior”, disse Luyen. “Agora
devem estar à tua procura. Vamos viajar em três bicicletas separadas.”
“Porquê três bicicletas?” perguntou o estrangeiro.
“Porque vamos ser seguidos”, assegurou Luyen.
“Por quem?” perguntou o estrangeiro, perplexo.
“Quanto menos souberes, melhor”, retorquiu Luyen. “Eu vou à tua frente.
Mantém a maior distância possível mas não me percas de vista. Se eu parar, tu
paras. Se eu virar à direita, desces da tua bicicleta, esconde-la no lado direito
da estrada e escondes-te. Se vires alguém a aproximar-se, corres e escondeste.”
E continuou: “Não te preocupes se te perderes. Fica escondido durante um
ou dois dias até que vejas uma destas”, avisou Luyen apontando para a sua tshirt
amarela. “A mesma coisa para se eu virar à esquerda mas não te
esqueças de esconderes a bicicleta no lado esquerdo da estrada. Esse será
um sinal para quem nos esteja a seguir. Direita significa perigo, como um
polícia sozinho. Nesse caso, podes contar em quem vem atrás de nós. O nosso
“terceiro homem” está armado e atirará em quem te persiga. Esquerda
representa grande perigo, como darmos de caras com uma patrulha, por
exemplo.
“Vejo que estamos muito organizados”, comentou o estrangeiro.
“Ainda não viste nada...” respondeu Luyen.
45
XXI
Luyen virou duas vezes à direita e uma vez à esquerda, mas não houve
quaisquer problemas durante todo o trajecto.
No segundo dia, os três homens encontraram-se pela primeira vez. O terceiro
tinha – durante o caminho e sem se saber como – trocado a bicicleta por uma
motorizada.
“Este é o Mo”, disse Luyen, apresentando-o ao estrangeiro. “A partir de agora,
o Mo fica encarregue de tratar de ti. O inglês dele não é grande coisa mas
agora tenho de voltar para casa.”
O estrangeiro observou o olhar atento e determinado e o corpo esguio e
musculoso do desconhecido que doravante seria o seu protector.
“Em breve estarás a salvo”, assegurou Luyen. “Estamos perto da zona das
montanhas.”
Luyen despediu-se do estrangeiro, acenando-lhe como se se tivessem
conhecido por acaso, num encontro informal.
“E quanto ao dinheiro da virgindade da tua irmã?”
“Não te preocupes com isso. Nós cá nos arranjaremos. Fizeste-a muito feliz e
isso é que importa.”
“Diz-lhe que eu voltarei”, gritou o estrangeiro.
“És um tigre, mas é completamente”, respondeu Luyen, rindo. “Quase que
acredito em ti, mas a minha irmã não.”
“Verás” respondeu o estrangeiro, não totalmente das suas próprias palavras.
Mo e o estrangeiro seguiram caminho fora. Uns quilómetros mais tarde,
cartazes enormes de ambos os lados da estrada avisavam:
“ÁREA RESTRITA – PROIBIDA A ENTRADA”
“Isto está cada vez mais interessante”, disse o estrangeiro. “Acho que
vou gostar disto!”
46
XXII
Mal o avião descolou do aeroporto de Banguecoque e à medida que ia
ganhando altitude, Hua Guo Feng olhou pela janela. Deixara Macau de
madrugada. Tinha apanhado o ferry para Hong Kong, onde visitou um amigo.
Depois apanhara um táxi que o levara ao aeroporto.
Chegou cedo, como era hábito seu, e passou algum tempo a ver as lojas do
aeroporto. O voo para Banguecoque tinha chegado a horas, embora o voo para
Ho Chi Minh estivesse ligeiramente atrasado – cerca de uma hora. Hua deveria
aterrar em Saigão por volta das seis da tarde, hora local, onde teria o seu primo
Tseng ou algum familiar à sua espera.
Hua levava consigo algumas lembranças chinesas e um anel de safiras para a
sobrinha de Tseng. Tencionava oferecer o anel em troca da hospitalidade e
ajuda que lhe tinham prestadas nas negociações com os fornecedores
vietnamitas.
Mal viu as luzes do sinal “Não Fumar” apagarem-se, o rapaz que estava
sentado ao lado de Hua perguntou-lhe: “Tem lume?”
Hua tivera o cuidado de pedir um lugar de não-fumador, pelo que ficara
surpreendido e mesmo aborrecido com a pergunta.
“Não tenho”, respondeu. “Mas está na zona de não-fumadores. Espero que não
fume muito porque o fumo incomoda-me imenso.” O rapaz consultou o cartão
de embarque e verificou que estava de facto de um num lugar de não-fumador.
Carregou no botão para chamar a hospedeira e passados uns meros
segundos, apareceu uma hospedeira, simpática e sorridente à maneira
tailandesa.
“Em que posso ajudar, senhor?”
O vizinho de Hua explicou o problema e perguntou se seria possível mudar
para um lugar de fumador. Apesar de o voo estar cheio, a hospedeira voltou
passado pouco tempo com a resposta. Outro passageiro concordara com a
troca de lugares. Hua reconheceu o novo companheiro de viagem. Ambos
tinham tomado o voo de Hong Kong para Banguecoque.
“Chamo-me Xiao Ping”, apresentou-se. “Julgo que viemos juntos no voo de
Hong Kong? É de lá?”
“Não”, respondeu Hua. “Sou de Macau.”
“Também eu! Que coincidência! Para onde vai, no Vietname?”
“Tenho uns parentes afastados em Saigão”, respondeu Hua. “Tive uma
encomenda bastante grande de sapatos e encarreguei os meus primos de a
completarem. Vou verificar a qualidade da mercadoria, o preço e fazer uma
nova encomenda. Já esteve no Vietname?” inquiriu Hua.
“É a terceira vez que lá vou”, respondeu Ping. “Fiz várias compras de mobília
feita à mão ao director de um campo de reeducação. Têm uma mão-de-obra
baratíssima”, sussurrou. E como é artesanato, a qualidade é muito boa. Posso
apresentar-vos, se quiser. Esse director também negoceia em têxteis.”
“Obrigado, mas prefiro trabalhar com os meus primos”, disse Hua. “Confio
neles. Sou refugiado da terra-Mãe, da China. E eu próprio estive num desses
47
campos de reeducação. Sentir-me-ia pouco à vontade a negociar com o
director de um desses campos.”
“Entendo”, disse Ping.
O voo foi curto e agradável, apesar de depois a fila no balcão da imigração ser
caótica. Levaram quase uma hora para apresentarem os passaportes. O polícia
que os observou atentamente carregou num botão e pediu-lhes que
esperassem enquanto inspeccionava o passaporte do passageiro seguinte. Um
guarda de fronteira chegou entretanto.
“Acompanhem-me, por favor”, ordenou. “Precisamos de vos fazer algumas
perguntas acerca do objectivo da vossa viagem. São meras formalidades”,
acrescentou com um sorriso.
Hua e Ping seguiram o guarda até uma sala no aeroporto. O guarda pediu-lhes
que esperassem. Passados 20 minutos voltou acompanhado de quatro
homens.
“Os senhores estão presos”, afirmou o guarda enquanto os seus quatros
camaradas algemavam os dois homens.
Hua ainda tentou dizer alguma coisa mas depressa foi interrompido com um
violento pontapé nos genitais. Hua ficou caído no chão a contorcer-se com
dores.
“Poderão explicar o que quiserem no tribunal”, disse o guarda, deixando os
dois homens a cargo dos outros quatro.
48
XXIII
“Já foste preso!” disse Mo ao estrangeiro, mostrando-lhe um recorte de jornal
que tirara do bolso.
VIETNAM NEWS
Homens de negócios portugueses presos no aeroporto de Ho Chi
Min.
A alfândega vietnamita descobriu ontem o primeiro grande caso de tráfico de droga
organizado no Vietname. seguindo o pedido de vigilância redobrada do Comité Central
do Partido contra os inimigos da nossa amada República Socialista, que usam de
todos os meios para sabotarem o nosso regime socialista, as autoridades
alfandegárias apreenderam ontem mais de dez quilos de ópio puro no aeroporto de Ho
Chi Minh.
Esta vitória na guerra contra o tráfico de estupefacientes acontece num momento em
que a insegurança nas ruas de Ho Chi Minh aumenta de dia para dia. Os
toxicodependentes gastam cerca de 100 dólares por dia no consumo de heroína e
outras drogas. Os assaltos a turistas aumentaram consequentemente.
O combate ao narcotráfico constitui a melhor maneira de proteger as raparigas mais
jovens do mundo da prostituição, a consequência inevitável para a maioria do vício
terrível da droga.
“Tinham de salvar a face”, disse Mo.
“O que quer isso dizer?” perguntou o estrangeiro.
“A Polícia controla tudo. Ninguém lhe escapa. Todos os teus amigos e
conhecidos estão em poder dela. Chamam-lhe “propaganda”. Vamos embora.
Estamos a poucos quilómetros de onde moro. É numa “Área Restrita”. A
entrada é proibida porque lá há muito ópio.
XVII
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Andaram cerca de três horas. O estrangeiro estava impressionado com a
população aglomerada tão miseravelmente, casa sobre casa durante mais de
30 quilómetros. Era como se Saigão fosse uma cidade interminável embora
com ruas vazias, à excepção de um ou outro grupo de jovens vietnamitas que
se viam ocasionalmente ou grupos de estranhos ciclistas e cucloboys de
regresso a casa.
Ao longo do caminho, as casas tornavam-se menos frequentes e os campos de
arroz só apareciam de vez em quando. Mas depois as casas desapareceram
quase por completo e os arrozais predominavam na paisagem.
Não trocaram uma palavra durante toda a viagem. O estrangeiro estava
exausto. Apesar disso, sentia-se seguro mas temia adormecer. O condutor
virou à esquerda e seguiu por uma estrada muito estreita que terminava à
entrada de uma casa.
“É a casa dos meus pais”, disse.
Parou a moto, desceram e o rapaz abriu silenciosamente a pequena porta de
madeira que se encontrava destrancada. Estava escuro porque a casa não
tinha electricidade. O vietnamita pegou num isqueiro e acendeu um lampião a
óleo que depois pendurou no tecto. Mal o fez, todo o cenário se tornou nítido:
um quarto pequeno, uma mulher a dormir numa enxerga no chão e várias
peças usadas de bicicleta – quadros, rodas, peças sobresselentes.
“O meu pai arranja bicicletas”, explicou o rapaz. “E já agora, chamo-me Luyen.”
A mulher sussurrou qualquer coisa em vietnamita. Levantou-se num ápice e
olhou fixamente para o estrangeiro durante alguns minutos. Parecia
estupefacta. Luyen e a mulher começaram a falar. A mulher tornou a olhar para
o estrangeiro, sorriu e inclinou ligeiramente a cabeça, como se acabasse de
tomar conhecimento da sua presença. Levantou-se e foi buscar comida e sake.
Os três sentaram-se no chão em torno da comida. Luyen e o estrangeiro
comeram avidamente. Era a primeira vez que o estrangeiro comia sem medo
de ser envenenado, desde o incidente no Hotel Majestic. A comida e bebida
eram deliciosas. Tinham um sabor que nunca provara antes: o sabor da
segurança.
Foi então que o estrangeiro viu uma rede suspensa por dois ganchos presos no
tecto, pendurada a um canto da casa. Alguém dormia aí.
“A minha irmã”, disse Luyen. “Queres-la?”
Sem esperar pela resposta, o Luyen levantou-se, deu-lhe uma palmada no
rabo e disse: “Acorda, Shi. Temos uma visita.”
A rapariga, ensonada, resmungou qualquer coisa.
“Um estrangeiro”, acrescentou Luyen. “Um estrangeiro fugitivo.”
Shi saltou da rede com uma agilidade surpreendente. Ficou boquiaberta em
frente ao estrangeiro que estava sentado e igualmente incrédulo. Mas não se
conteve e desatou a rir à gargalhada. Era um riso compulsivo, incontrolável.
“É a primeira vez que a minha irmã vê um estrangeiro”, explicou Luyen. “A
maior parte das pessoas daqui não tem autorização para ir ao centro de
Saigão.”
Shi ficou a rir durante uns cinco minutos seguidos antes de finalmente parar.
Mas por pouco tempo, uma vez que o riso voltou logo depois.
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“O que é que se passa aqui?” perguntou uma voz masculina, interrompendo o
riso de Shi. O pai, acordado por toda aquela risota, entrara no quarto. Ainda
não tinha acabado a pergunta quando reparou na presença do estrangeiro.
“O Luyen trouxe-nos um estrangeiro!” exclamou Shi, radiante.
“Parabéns, Luyen”, disse o pai. “Quer passar a noite aqui? Disseste-lhe que
podemos alugar-lhe um quarto?”
“Pai, ele não tem dinheiro.”
“O quê?”
“E para mais anda a fugir da Polícia. Tentaram matá-lo!”
O pai acenou com a cabeça em sinal de desaprovação. “A Polícia pode roubar
turistas mas não os pode matar. Este rapaz é um criminoso?” Após uma breve
pausa, continuou: “O melhor é entregarmo-lo já. Deve ser um problema muito
sério, se a Polícia o quer matar... Devemos receber uma recompensa por isto.”
O pai ficou em silêncio durante algum tempo, como se estivesse a ordenar os
seus pensamentos. “Por outro lado, se o estrangeiro nos puder pagar... É
perigoso mas pode valer a pena arriscar.”
Luyen interrompeu o discurso do pai: “Tu não estás a perceber...”
O estrangeiro, que seguia atentamente a conversa, avaliava as palavras do
velhote. Assistia às suas expressões – do entusiasmo à incredulidade, da
ganância à incerteza. Por instinto, talvez, o estrangeiro pegou na lâmina – uma
reacção nervosa, algo injustificada. Estava certo de que Luyen trataria de tudo.
Seguiu a conversa entre pai e filho tanto quanto lhe era possível. De repente,
olhou para Shi. Shi também olhou para ele. Levantou-se, aproximou-se dele e
pegou-lhe na mão. Puxou a mão dele, levantando-o do chão e mostrou-lhe o
caminho para o quarto dos pais.
A mãe estava à porta e acenou ao estrangeiro. Shi sussurrou-lhe algo ao
ouvido e a Mãe entrou na sala. Shi empurrou o estrangeiro para dentro do
quarto. Começou a mudar os lençóis.
O estrangeiro observava-a, como se estivesse parado no tempo,
consciente de que faria melhor em seguir a conversa que se passava na sala,
mas ao mesmo tempo, incapaz de se mover. Se não podia confiar em Luyen,
que hipótese tinha de sobreviver? Pensou em atravessar a selva até ao
Cambodja. Mas que hipóteses tinha de lá chegar? E em quantos Luyens teria
de confiar durante o percurso? Finalmente, decidiu voltar à sala. Shi impediu-o:
“Prometo. Não há problema.”
“Não há problema, o caraças!” exclamou o estrangeiro. “E quem és tu para me
dizeres que não tenho problemas? Tenho problemas! Deixa-me!” disse,
empurrando-a do seu caminho. Quando entrou na sala, Luyen ainda discutia
com o pai.
“Luyen”, interrompeu o estrangeiro. “Provavelmente salvaste-me a vida e isso é
mais que suficiente. Agora posso seguir o meu caminho. Não metas a tua
família nisto. Lembra-te que sou um tigre. Os tigres dormem nas árvores. Eu
durmo lá fora. Basta que avises a tua família que mato seja quem for que saia
desta casa antes do amanhecer.”
Mal o estrangeiro terminou a última frase, calou-se, envergonhado da sua
ingratidão. “Desculpa, não era isso que queria dizer...”
“Deixa-te de tanta preocupação”, interrompeu Luyen. “Não te trouxe até aqui?
Então deixa-me tratar do assunto.”
O pai de Luyen dirigiu-se ao estrangeiro com os olhos lacrimosos: “É amigo
doo Vietnam do Sul?” perguntou num inglês rudimentar.
51
“A Polícia está a tentar matar-me porque tem medo que eu saia daqui e
divulgue ao mundo o que vi. Esta é a única maneira que tenho de vos ajudar e
de me vingar das hienas que governam Saigão.”
Luyen disse qualquer coisa em vietnamita e voltando-se para o estrangeiro,
explicou: “Expliquei-lhe o que queria dizer com ‘hienas’. O inglês do meu pai
não é muito bom.”
“É muito bem-vindo”, disse o ancião comovido.
Shi aproximou-se do estrangeiro: “Vês? Agora está tudo bem. Vem. Precisas
de descansar.”
O ancião estava de cócoras no chão com as mãos a cobrirem-lhe o rosto. O
estrangeiro posou-lhe a mão sobre o ombro e disse, antes de se render ao
suave empurrar de Shi: “Prometo.”
Shi levou-o para o quarto e fechou a porta. Gentilmente despiu-o e indicou-lhe
que se deitasse. Começou a massajar-lhe os dedos dos pés, aliviando-o de
toda a tensão acumulada. Dedicou depois toda a sua atenção a cada um dos
músculos de cada pé, cada tendão do tornozelo, cada músculo de cada uma
das pernas.
O estrangeiro sentiu-se a flutuar e as recordações do Liz Salon voltaram.
Recordou os mesmos toques suaves, mas firmes e a felação que
habitualmente se seguia. Começou a sentir um desejo intenso de possuir Shi.
Os dedos dela subiam pela coluna, acariciando-o vértebra após vértebra até
dedicar toda a sua atenção às costas, aos ombros, aos braços e ao pescoço.
Shi fez-lhe sinal para que se virasse, despiu-se e sentou-se em cima dele,
fingindo ignorar a erecção dele. Shi continuava a massagem, roçando
suavemente o clítoris no pénis dele. Shi continuou a gatinhar até alcançar a
zona do abdómen. Estava húmida.
“O meu irmão disse-me que me querias. Agora percebo que é verdade. Podes
pagar pela minha virgindade?”
“Claro que quero”, respondeu o estrangeiro sem hesitar. “Mas não gosto de
pagar em troca de sexo – nem costumo fazer isso. Julgo que deves guardar a
tua virgindade para alguém que ames.”
“Mas eu amo-te!” respondeu Shi, baixando os olhos. És bonito, és um amigo,
és como um dos heróis dos meus sonhos. Tu é que não compreendes. Já
tenho 15 anos e em breve a Polícia vai pedir a licença de negócio ao meu pai e
vão ver que ele não a tem. Depois vão passar-lhe uma multa e ele não vai ter
dinheiro para a pagar e vão prendê-lo! É por isso que tenho de me manter
virgem, para poder pagar essa multa. Sabes, muitos homens asiáticos
acreditam que tirar a virgindade a uma rapariga traz boa sorte, especialmente
nos negócios. Outros querem virgens porque têm medo da SIDA. Se eu não
tiver o dinheiro da virgindade para pagar a multa, vou ter de andar na
prostituição durante muito mais tempo e não quero isso.”
O estrangeiro boquiaberto levantou-se. De repente, tudo lhe pareceu claro. Era
a única testemunha de um tipo de crime em massa, organizado, sistematizado
e executado a uma escala tal que não podia acreditar que fosse possível.
Isso também fez com que entendesse melhor o que a Polícia temia. Os
interesses em jogo eram muito maiores do que imaginara.
52
53
XIX
Shi e o estrangeiro passaram os três dias seguintes a fazer amor, deixando a
cama somente para as refeições, durante as quais o pai dela falava
incessantemente sobre o passado – sobre torturas, prisões, humilhação,
desespero e esperança.
Luyen traduzia tudo o melhor que podia. O estrangeiro tentava fixar todas as
palavras.
Na terceira noite, Shi estava triste.
“O que tens?” perguntou o estrangeiro.
“Estou triste porque amanhã o Luyen vai levar-te para as montanhas e eu
também gostava de ir.”
“Eu volto”, respondeu o estrangeiro, limpando-lhe as lágrimas do rosto. “Amo-te
e voltarei por ti. Prometo.”
“Nunca te deixarão voltar”, respondeu-lhe Shi.
“Não preciso da autorização deles. Nem sequer a pedirei. Voltarei tal como
vou. Quando um tigre é ferido por hienas, esconde-se na selva, lambe as
feridas, espera até sair outra vez. Um belo dia, salta do cimo da árvore para
reclamar o seu território. Tu és minha e voltarei para ti.”
“Não voltarás”, respondeu Shi suavemente.
54
XX
“Esta viagem não será tão simples quanto a anterior”, disse Luyen. “Agora
devem estar à tua procura. Vamos viajar em três bicicletas separadas.”
“Porquê três bicicletas?” perguntou o estrangeiro.
“Porque vamos ser seguidos”, assegurou Luyen.
“Por quem?” perguntou o estrangeiro, perplexo.
“Quanto menos souberes, melhor”, retorquiu Luyen. “Eu vou à tua frente.
Mantém a maior distância possível mas não me percas de vista. Se eu parar, tu
paras. Se eu virar à direita, desces da tua bicicleta, esconde-la no lado direito
da estrada e escondes-te. Se vires alguém a aproximar-se, corres e escondeste.”
E continuou: “Não te preocupes se te perderes. Fica escondido durante um
ou dois dias até que vejas uma destas”, avisou Luyen apontando para a sua tshirt
amarela. “A mesma coisa para se eu virar à esquerda mas não te
esqueças de esconderes a bicicleta no lado esquerdo da estrada. Esse será
um sinal para quem nos esteja a seguir. Direita significa perigo, como um
polícia sozinho. Nesse caso, podes contar em quem vem atrás de nós. O nosso
“terceiro homem” está armado e atirará em quem te persiga. Esquerda
representa grande perigo, como darmos de caras com uma patrulha, por
exemplo.
“Vejo que estamos muito organizados”, comentou o estrangeiro.
“Ainda não viste nada...” respondeu Luyen.
55
XXI
Luyen virou duas vezes à direita e uma vez à esquerda, mas não houve
quaisquer problemas durante todo o trajecto.
No segundo dia, os três homens encontraram-se pela primeira vez. O terceiro
tinha – durante o caminho e sem se saber como – trocado a bicicleta por uma
motorizada.
“Este é o Mo”, disse Luyen, apresentando-o ao estrangeiro. “A partir de agora,
o Mo fica encarregue de tratar de ti. O inglês dele não é grande coisa mas
agora tenho de voltar para casa.”
O estrangeiro observou o olhar atento e determinado e o corpo esguio e
musculoso do desconhecido que doravante seria o seu protector.
“Em breve estarás a salvo”, assegurou Luyen. “Estamos perto da zona das
montanhas.”
Luyen despediu-se do estrangeiro, acenando-lhe como se se tivessem
conhecido por acaso, num encontro informal.
“E quanto ao dinheiro da virgindade da tua irmã?”
“Não te preocupes com isso. Nós cá nos arranjaremos. Fizeste-a muito feliz e
isso é que importa.”
“Diz-lhe que eu voltarei”, gritou o estrangeiro.
“És um tigre, mas é completamente”, respondeu Luyen, rindo. “Quase que
acredito em ti, mas a minha irmã não.”
“Verás” respondeu o estrangeiro, não totalmente das suas próprias palavras.
Mo e o estrangeiro seguiram caminho fora. Uns quilómetros mais tarde,
cartazes enormes de ambos os lados da estrada avisavam:
“ÁREA RESTRITA – PROIBIDA A ENTRADA”
“Isto está cada vez mais interessante”, disse o estrangeiro. “Acho que
vou gostar disto!”
56
XXII
Mal o avião descolou do aeroporto de Banguecoque e à medida que ia
ganhando altitude, Hua Guo Feng olhou pela janela. Deixara Macau de
madrugada. Tinha apanhado o ferry para Hong Kong, onde visitou um amigo.
Depois apanhara um táxi que o levara ao aeroporto.
Chegou cedo, como era hábito seu, e passou algum tempo a ver as lojas do
aeroporto. O voo para Banguecoque tinha chegado a horas, embora o voo para
Ho Chi Minh estivesse ligeiramente atrasado – cerca de uma hora. Hua deveria
aterrar em Saigão por volta das seis da tarde, hora local, onde teria o seu primo
Tseng ou algum familiar à sua espera.
Hua levava consigo algumas lembranças chinesas e um anel de safiras para a
sobrinha de Tseng. Tencionava oferecer o anel em troca da hospitalidade e
ajuda que lhe tinham prestadas nas negociações com os fornecedores
vietnamitas.
Mal viu as luzes do sinal “Não Fumar” apagarem-se, o rapaz que estava
sentado ao lado de Hua perguntou-lhe: “Tem lume?”
Hua tivera o cuidado de pedir um lugar de não-fumador, pelo que ficara
surpreendido e mesmo aborrecido com a pergunta.
“Não tenho”, respondeu. “Mas está na zona de não-fumadores. Espero que não
fume muito porque o fumo incomoda-me imenso.” O rapaz consultou o cartão
de embarque e verificou que estava de facto de um num lugar de não-fumador.
Carregou no botão para chamar a hospedeira e passados uns meros
segundos, apareceu uma hospedeira, simpática e sorridente à maneira
tailandesa.
“Em que posso ajudar, senhor?”
O vizinho de Hua explicou o problema e perguntou se seria possível mudar
para um lugar de fumador. Apesar de o voo estar cheio, a hospedeira voltou
passado pouco tempo com a resposta. Outro passageiro concordara com a
troca de lugares. Hua reconheceu o novo companheiro de viagem. Ambos
tinham tomado o voo de Hong Kong para Banguecoque.
“Chamo-me Xiao Ping”, apresentou-se. “Julgo que viemos juntos no voo de
Hong Kong? É de lá?”
“Não”, respondeu Hua. “Sou de Macau.”
“Também eu! Que coincidência! Para onde vai, no Vietname?”
“Tenho uns parentes afastados em Saigão”, respondeu Hua. “Tive uma
encomenda bastante grande de sapatos e encarreguei os meus primos de a
completarem. Vou verificar a qualidade da mercadoria, o preço e fazer uma
nova encomenda. Já esteve no Vietname?” inquiriu Hua.
“É a terceira vez que lá vou”, respondeu Ping. “Fiz várias compras de mobília
feita à mão ao director de um campo de reeducação. Têm uma mão-de-obra
baratíssima”, sussurrou. E como é artesanato, a qualidade é muito boa. Posso
apresentar-vos, se quiser. Esse director também negoceia em têxteis.”
57
“Obrigado, mas prefiro trabalhar com os meus primos”, disse Hua. “Confio
neles. Sou refugiado da terra-Mãe, da China. E eu próprio estive num desses
campos de reeducação. Sentir-me-ia pouco à vontade a negociar com o
director de um desses campos.”
“Entendo”, disse Ping.
O voo foi curto e agradável, apesar de depois a fila no balcão da imigração ser
caótica. Levaram quase uma hora para apresentarem os passaportes. O polícia
que os observou atentamente carregou num botão e pediu-lhes que
esperassem enquanto inspeccionava o passaporte do passageiro seguinte. Um
guarda de fronteira chegou entretanto.
“Acompanhem-me, por favor”, ordenou. “Precisamos de vos fazer algumas
perguntas acerca do objectivo da vossa viagem. São meras formalidades”,
acrescentou com um sorriso.
Hua e Ping seguiram o guarda até uma sala no aeroporto. O guarda pediu-lhes
que esperassem. Passados 20 minutos voltou acompanhado de quatro
homens.
“Os senhores estão presos”, afirmou o guarda enquanto os seus quatros
camaradas algemavam os dois homens.
Hua ainda tentou dizer alguma coisa mas depressa foi interrompido com um
violento pontapé nos genitais. Hua ficou caído no chão a contorcer-se com
dores.
“Poderão explicar o que quiserem no tribunal”, disse o guarda, deixando os
dois homens a cargo dos outros quatro.
58
XXIII
“Já foste preso!” disse Mo ao estrangeiro, mostrando-lhe um recorte de jornal
que tirara do bolso.
VIETNAM NEWS
Homens de negócios portugueses presos no aeroporto de Ho Chi
Min.
A alfândega vietnamita descobriu ontem o primeiro grande caso de tráfico de droga
organizado no Vietname. SeguIndo o pedido de vigilância redobrada do Comité
Central do Partido contra os inimigos da nossa amada República Socialista, que usam
de todos os meios para sabotarem o nosso regime socialista, as autoridades
alfandegárias apreenderam ontem mais de dez quilos de ópio puro no aeroporto de Ho
Chi Minh.
Esta vitória na guerra contra o tráfico de estupefacientes acontece num momento em
que a insegurança nas ruas de Ho Chi Minh aumenta de dia para dia. Os
toxicodependentes gastam cerca de 100 dólares por dia no consumo de heroína e
outras drogas. Os assaltos a turistas aumentaram consequentemente.
O combate ao narcotráfico constitui a melhor maneira de proteger as raparigas mais
jovens do mundo da prostituição, a consequência inevitável para a maioria do vício
terrível da droga.
“Tinham de salvar a face”, disse Mo.
“O que quer isso dizer?” perguntou o estrangeiro.
“A Polícia controla tudo. Ninguém lhe escapa. Todos os teus amigos e
conhecidos estão em poder dela. Chamam-lhe “propaganda”. Vamos embora.
Estamos a poucos quilómetros de onde moro. É numa “Área Restrita”. A
entrada é proibida porque lá há muito ópio.
Uns quilómetros mais tarde, cartazes enormes de ambos os lados da
estrada avisavam:
“ÁREA RESTRITA – PROIBIDA A ENTRADA”
“Isto está cada vez mais interessante”, disse o estrangeiro. “Acho que
vou gostar disto!”
59
Primeiro Epílogo
Hua Guo Feng e Lee Phong, ambos de nacionalidade portuguesa, foram
presos e fuzilados por tráfico de ópio.
Juan, que se recusou a participar na tentativa de homicídio planeada contra
mim e Nguyen e Pham, os meus melhores amigos em Saigão, foram
identificados pelo pessoal do Hotel Majestic como as pessoas que me
perseguiram pelo hotel a dentro. Foram condenados por tentativa de homicídio
e sentenciados a 12 anos de prisão.
Juan foi condenado a 18 anos de prisão. Os três morreram na prisão,
provavelmente depois de terem sido torturados. As famílias de todos foram
expulsas de Saigão e “re-aloojadas” em “Áreas Restritas”, onde
proovavelmente terão morrido à fome.
Sharon e a família também foram expulsas de Saigão para uma zona no centro
do país. As irmãs mais novas de quatro e nove anos foram enviadas para o
Cambodja para fazerem parte de uma rede de prostituição infantil.
Toan perdeu o estatuto de líder do gang. Continua a ganhar a vida como cycloboy.
Desconheço o que poderá ter acontecido aos meus outros benfeitores.
60
PARTE II - ENTRADA NAS ÁREAS RESTRITAS
Vietnam - Um pouco mais de História
Após o exército Norte-Vietnamita tomar Saigão, entre outras terras do Sul e as
chamadas terras-baixas, mais de um milhão de pessoas fugiu por mar,
enquanto outras refugiaram-se nas montanhas. Estas eram habitadas por
tribos semi-nómadas, a maioria das quais tinha sido treinada indoutrinada pelos
Americanos no sentido de apoiar tendo o governo Sul-Vietnamita.
Parte desse exército derrotado partiu com as suas famílias e reuniu-se nas
montanhas, onde os americanos tinham deixado enormes quantidades de
armamento escondido, destinadas às tribos das montanhas.
Após consolidar o seu domínio nas terras-baixas, os Comunistas voltaram-se
agora para as terras-altas. Porém, à medida que penetravam nestas áreas, iam
sofrendo baixas tremendas. Estavam agora frente a frente com as tácticas de
guerrilha que se haviam revelado tão eficazes no passado, quando praticadas
por eles próprios.
Os bandos armados de “contra-revolucionários” iam mudando sempre de lugar,
o que tornava impossível um confronto decisivo. Juntavam-se e reagrupavamse
quando e como queriam, e eram indistintos de, e apoiados por, uma
população civil hostil.
A táctica que os comunistas adoptaram foi simples, mas eficaz: Estabeleceram
bases militares fortificadas nos vales, impedindo a comunicação entre os
rebeldes. Esta táctica tinha a vantagem de poder provocar o colapso da
economia das tribos semi nómadas, baseada na frequente deslocações dos
seus rebanhos de gado para novas pastagens. Sem essa liberdade de
movimento, a fome alastrou, agravada pela presença de mais de um milhão de
refugiados das terras-baixas.
Os Comunistas aproveitaram-se da situação para oferecerem às tribos das
montanhas arroz em troca da entrega de refugiados ou dos seus restos
mortais. De facto, eles puseram as tribos das montanhas a perseguir o que
restava do exército Sul-Vietnamita. Após alguns anos, a operação estava
concluída. No entanto, os Comunistas mantiveram a política de isolamento, que
impedia as tribos das montanhas de se movimentarem. Tendo-as forçado à
sedentarização, alguns comandantes locais corruptos instruíram-nos no cultivo
de ópio, do qual eram eles os únicos compradores. Assim a economia das
terras-altas tornou-se baseada na cultura da papoila do ópio. Esta situação
continua até aos dias de hoje, em muitas das chamadas “Áreas Restritas”.
61
I - AMEAÇAS
Eu passei apenas uns dias na companhia e sob a protecção de
pessoas que não falavam inglês.
Movimentávamo-nos de noite, atravessando selvas, vales, e
plantações de papoila de ópio. Algo que notei, foi o facto de não
existirem em lado algum raparigas. Dormi numa aldeia onde não
havia nenhuma. Os meus amigos fizeram sinal que tinham sido
algemadas. Comecei a perceber que a polícia “recrutava” minorias
étnicas para o circuito do mercado “interno” da prostituição (dirigido
para homens vietnamitas). Não senti a confiança necessária nesta
conclusão para expor no meu livro uma acusação deste tipo. Estas
tribos haviam sobrevivido milhares de anos, no entanto dar
seguimento a esta política representava dizimá-las em décadas. A
Lei Internacional classifica a “prática sistemática de violação de
mulheres de minorias étnicas” como uma forma de genocídio. E era
exactamente o que eu estava a testemunhar: Um genocídio
contínuo, sistemático, levado a cabo por razões políticas, raciais e
comerciais, sob encobrimento oficial. Afim de melhor documentar e
confirmá-lo, decidi que iria publicar apenas a primeira parte do livro,
“Os Tigres de Saigão” electronicamente, e procurar corroborar
provas sobre o que se estava realmente a passar nas “Áreas
Restritas”, e incorporá-las na obra mais tarde, procedendo então à
publicação sob forma de livro tradicional. Publiquei o livro através
de uma firma chamada E-Publications e procurei saber mais sobre
o que se passava nas “Áreas Restritas”. Pedi ao Professor Vern
Wietzel do “Australia-Vietnam Discussion Forum” para colocar “Os
Tigres de Saigão” e os primeiros capítulos da “Entrada nas Áreas
Restritas” em debate no seu fórum.
Recebi então os seguintes comentários:
Assunto:
Resposta para “Um tigre de Saigão”
Data: 22 de Agosto de 1997 10:14:13 EDT
De: <NTNGUY01@ULKYVM.LOUISVILE.EDU>
Para:<vern@coombs.anu.edu.au.>, <vn foru@saigon.com>
Sobre: <vnforum@saigon.com>
Assunto: Resposta para “O tigre de Saigão”
62
Caro Vern, (pode enviar para quem estiver interessado em ler este meu
comentário);
Li o extracto de “Um tigre em Saigão”.
É um romance interessante, no estilo de James Bond, cheio de imaginação e
ficção. Eu preferia que o autor mudasse o nome “Vietnam” para o nome do seu
próprio país (ou poderia ser Itália, França, Estados Unidos...) e o Tigre de
Saigão para o Tigre de Milão/ Marselha/ Nova Yorke...
Se o propósito deste livro é descrever algumas realidades no Vietnam:
Como em todos os países, lidar com gangs, prostitutas, traficantes de droga,
criminosos... Em breve torna-se-se num deles!
Como a maioria dos criminosos, as pessoas pobres, sem educação, tornam-se
marginais na sociedade, ignorando a história e os costumes do Vietnam... Ao
lidar com esta gente, o romance é um reflexo dessa civilização.
A paranóia do envenenamento da comida, o imaginar uma conspiração para o
assassinar, das suas relações com prostitutas, as relações sexuais com uma
menor (pode estar a cometer violação de acordo com a lei) falam por si.
O livro é insultuoso para os antigos oficiais Sul-Vietnamitas e para os seus
filhos, confundindo-os com estes gangs e criminosos de rua. Conheça apenas
os alguns (aqueles que foram soldados no Sul do Vietnam, oficiais,
administradores), para ver como estes estão orgulhosos da educação que
demos aos seus filhos, que na sua maioria têm pelo menos os estudos
secundários completos, e acompanham os costumes e a moral vietnamita.
Conduta suspeita ao propor um favor em alterar o seu próprio relatório?
A existência de um investimento imaginário - sem qualquer prova de
investimento da parte da sua própria companhia.
Um resultado de desconfiar. Concluindo: Não se trata de uma observação
objectiva para se chegar a uma conclusão, mas sim de uma história imaginária
com um desfecho totalmente de acordo com um filme de ficção.
Fim de comentário.......... ntnguy01. 8/22/97
O que eu não sabia na altura era que quem tinha escrito isto era o
Tenente - Coronel Thai, que iria tentar sem sucesso raptar-me.
Respondi:
Não vou rebater ponto por ponto cada um dos seus comentários. A sua maioria
não merece uma resposta. Tenho pena de não poder mudar o título como você
63
sugeriu. É que a Itália, a França, os Estados Unidos, são sociedades
democráticas. O Departamento de Estado Americano não emite avisos para
quem viaja em tais países. E polícias fardados patrulham as ruas.
Recebi então, outro “comentário”:
Assunto:
Os Tigres de Saigão
Data:
Quarta, 27 de Agosto de1997 12:39:42 +0000
De:
David Nguyen<David.Nguyen@adm.monash.au>
Organização:
Administração, Universidade de Monash
Para:
miguel.pereira@nca.pt
Caro Sr. Pereira,
Li o seu «romance» se assim se pode chamar a “Os Tigres de Saigão”, com
um enorme desapontamento. É que este «romance» não passa de um monte
de lixo. Eu acho que você está a sofrer de algum tipo de doença mental. O meu
conselho é que vá consultar um psiquiatra o mais rapidamente possível. Sou
uma das pessoas que fugiram por mar mencionadas no seu “romance”, e já
voltei duas vezes a Saigão desde que deixei o país, há vinte e dois anos. Viajei
para a minha terra, incluindo as terras-altas, e contactei com muitas pessoas
incluindo as crianças da rua.
Aquilo que você descreve no seu “romance” é produto da sua imaginação
doentia.
Você precisa de tratamento psiquiátrico, antes agora do que tarde
demais.
Cumprimentos,
David Nguyen.
O Tenente-Coronel Thai enviou uma segunda resposta:
Assunto:
Resposta 2 para o “ Tigre de Saigão”
Data:
Sexta, 29 de Agosto de 1997 14:35:51 +1000
O seu “Tigres de Saigão” foi enviado para VNFORUM para ser comentado.
Creio que os leitores do VNFORUM já devem conhecer a reacção.
(comentário).
64
Para responder à sua questão quanto à credibilidade do seu “livro”:
Se ler as suas próprias palavras, você verá a “credibilidade”:
1- Você disse que sabia muito pouco sobre o Vietnam, ... E baseando-se na
sua curta viagem... Mas escreveu um livro a comentar a história do Vietnam, as
nossas normas políticas e sociais sendo a sua experiência a de uma pequena
viagem!
2- Reuniu informações de muitas pessoas iletradas que não falavam bem o
inglês... Como conseguiu comunicar com eles para saber com precisão
todos os segredos das mais altas patentes?
E quais os conhecimentos destas pessoas ignorantes?
3- Você teme que contenha inexactidões: O seu medo é real.
(creio que tentou reprimir o seu medo).
4- Você não mencionou: Para que firma trabalhava? Qual era a sua missão? E
de que maneira a sua firma queria investir no Vietnam? Se eu gastasse 23.500
dólares da minha empresa, eu decerto teria imenso para relatar!
5- Você disse que tinha uma transferência de 23.500 dólares do Crédit
Lyonnais: Se tivesse consigo esse montante em Nova Yorke ou em Chicago e
se se desse com gangs de rua, prostitutas... teria sorte em estar vivo na manhã
seguinte.
Mas no Vietnam, tal como você disse, o crime é severamente punido, assim
como a violência contra os turistas... por isso o meu palpite é que estes gangs
de rua/prostitutas montaram-lhe um esquema, atraindo-o numa encenação de
conspiração de assassínio, ... para lhe extorquirem o seu dinheiro
pacificamente,... fazendo-o abandonar o país deixando tudo para trás. O que
significam 23.500 dólares para o povo vietnamita se um trabalhador numa
fábrica de ténis Nike ganha apenas cerca de 45 dólares por mês? Então estes
gangs passaram muito tempo consigo, despenderam muito esforço, e não
acreditaram quando lhes disse que esperava 23.500 dólares, e então disse:
“Não tenho dinheiro”!
6- Qual seria o motivo para assassiná-lo? Temer o seu relatório? Deixe só os
diplomatas do seu País (ou então pode ir aos à Embaixada dos Estados Unidos
/ Consulado Francês), e deixe-os apenas lerem a sua carta ao governo
vietnamita. Irão eles vão rir-se de si, mas poderão ajudá-lo com bons
conselhos.
7- Não vou discutir ponto por ponto o seu romance, tomar-me-ia mais tempo do
que escrevê-lo eu próprio; Apesar de que eu seria bastante mais cauteloso em
escrever um “livro” cujo conteúdo trata de assuntos que desconheço.
65
Espero que altere todos os “nomes” do seu romance como sugeri. Gostava de
comprar um exemplar para ler no avião.
Boa sorte!
Fim....ntnguy01. 8/28/97
Eu respondi-lhe:
Vejo que parece estar muito bem informado sobre as minhas actividades de
negócios no Vietnam. Isto faz-me pensar na forma como obteve essas
informações e quais serão os seus reais motivos.
Gostava que entendesse uma coisa: Se você estiver disposto a ter um diálogo
aberto, sincero, em privado (ou em público), eu estou aberto ao diálogo. Posso
até ser “razoável”. Se não, tanto pior. Eu já tomei todas as precauções
necessárias para um cenário “no pior dos casos”. Julgo que o que temos aqui é
um clássico desentendimento cultural. Eu não fui ao Vietnam para me envolver
em toda esta confusão, nem tão pouco estou assustado com as possíveis
consequências.
Acredite ou não, eu tenho o maior respeito pelo vosso povo, cultura e
civilização, por isso é difícil para mim levar a sério as suas ameaças. (Ou talvez
eu esteja a interpretá-lo erradamente?). Não me parece de vosso interesse
fazer nada que possa causar publicidade futuramente, e que dê credibilidade
aos meus comentários e relatórios. Posso entender a sua ira, suponho que
entende a minha? Considero-me uma pessoa razoável.. Talvez seja possível
falarmos, em vez de difamar-mo-nos um ao outro? Cabe a si tomar a decisão.
Sinto que devo responder ao ponto 2 do seu comentário, acerca do
“conhecimento das pessoas iletradas e ignorantes”: Quando a uma rapariga de
15 anos de idade é dito que o pai foi preso e que tem de vender a sua
virgindade para angariar o dinheiro necessário para poder pagar a fiança, e que
isso jà aconteceu a várias amigas dela, esse é o conhecimento de uma pessoa
“iletrada e ignorante”.
Cumprimentos,
Miguel Pereira.
Tendo-me declarado disposto e “aberto a um diálogo sincero, e
declarando-me disposto a ser “razoável”, eu estava a tentar
negociar com eles. Libertavam os meus amigos, deixavam as suas
famílias em paz, e pagariam uma quantia simbólica pelas tentativas
de homicídio à minha pessoa. Infelizmente, como eu estava prestes
66
a aprender, os termos “sinceridade” e “compromisso” pura e
simplesmente não constam do dicionário dos meus interlocutores.
Eu não tinha quaisquer ilusões sobre o que o meu correspondente
queria dizer com “gostaria de adquirir um exemplar para poder ler
no avião”.
Obviamente necessitavam de me silenciar, fazendo-me retirar os
“Tigres de Saigão” e, sobretudo, evitar que eu suscitasse interesse
sobre o que se passava nas “Áreas Restritas”. Estavam
desesperados ao ponto de recorrer a uma tentativa de rapto. Uma
vez em seu poder, eu venderia os meus “direitos de autor” de livre
vontade. Receberia então um tratamento ainda pior do que aquele
reservado aos meus amigos.
O meu corpo não seria recuperado. Mais tarde soube que
planeavam livrar-se dele na Embaixada vietnamita de Paris.
67
II- PRECAUÇÕES
Eu tinha só um ou dois dias - era o meu cálculo - para o tempo que
demoraria até eles chegarem a Lisboa e para poder preparar-me
para o que viria. Mesmo neste curto espaço de tempo, o perigo
espreitava. A Embaixada vietnamita mais próxima era em Paris - a
duas horas de voo de Lisboa.
A minha primeira tarefa era tirar de minha casa todas as fontes de
informação que fossem potencialmente reveladoras, e substituí-las
por informações inócuas mas enganosas. O primeiro passo dos
meus raptores seria provavelmente fazer uma busca na minha casa
e no meu computador. Passei algumas horas a apagar ficheiros
comprometedores, e ainda mais horas a modificar outros ficheiros.
Ao implantar falsas informações, eu poderia confundir e enganar os
meus raptores, e até mesmo controlar os seus movimentos. Deixei
diversas dicas, pistas e também algumas moradas que seriam
preciosas mais tarde. Demorou mais tempo do que eu pensara.
Suando profusamente, à medida que as horas passavam, eu ia
pensando se o mais prudente não seria simplesmente remover o
computador de casa, mas no entanto, senti que tinha de correr o
risco.
Voltei-me depois para outros documentos: as contas, a
correspondência, fotografias, etc,... Eu tinha de estabelecer um
equilíbrio muito delicado: Tirar tudo o que era essencial, deixando
ao mesmo tempo a impressão de ter sido apanhado desprevenido.
Eu tinha de memorizar o que deixava ficar para trás, e não era fácil.
Sair de casa foi um alívio. Ao menos, ia poder dormir sem medo. No
entanto, os meus contactos de negócios no Vietnam tinham a
morada do meu escritório. Com toda a certeza, os meus raptores
também a tinham. Sem poderem encontrar-me em casa, o passo
mais óbvio seria procurarem-me lá. Teria eu de abandonar as
68
minhas actividades profissionais? E por quanto tempo? Apesar de
tudo, eu não tinha sequer a certeza que a ameaça fosse real.
Repeti a “limpeza” que fiz em casa, no meu escritório. Apagar ou
alterar ficheiros para, remotamente, poder controlar a estratégia dos
meus raptores. Ao terminar o trabalho, tomei uma decisão: A minha
vida profissional continuaria sem quaisquer mudanças. Eu iria para
o escritório todos os dias. Seria aí que os meus raptores me
encontrariam. O lugar era bastante inadequado para uma tentativa
de rapto. Um grande complexo de escritórios com múltiplas
entradas e guardas de segurança (desarmados). Se eu pudesse
transmitir-lhes confiança suficiente para me apanharem em
qualquer lado desprevenido, o complexo de escritórios parecia ser
seguro.
Decidi ir dormir a casa de uma amiga. Já não a via há uns anos, por
isso pareceu-me seguro. Tinha a vantagem acrescida de não estar
nem muito perto, nem muito longe do meu escritório. E, é claro, eu
esperava juntar o útil ao agradável, e que a companhia dela fosse
agradável. Aconteceu que a sua companhia revelou-se muito útil. A
noite já ia avançada e eu estava exausto. Combinámos encontrarnos
para tomar uma bebida e para eu poder explicar-lhe a situação.
Não me lembro claramente do que aconteceu naquela noite. Nós
bebemos até tarde, e ela levou-me para casa dela; estava bastante
divertida e achava excitantes os meus problemas.
Acordei de madrugada. Havia inúmeras medidas óbvias a tomar.
Iniciei por apresentar uma queixa formal à polícia. Não tinha
quaisquer ilusões sobre o facto de isso resolver o assunto, mas
valia a pena tomar essa medida. Ao contrário do que esperava, isso
iria tornar-se muito útil de uma forma que nunca me ocorrera, na
altura.
Eu tinha centrado as minhas esperanças nos Serviços de
Informações de Segurança, o S.I.S., que pareciam mais talhados
para o trabalho. Telefonei a um tio meu, um ex-ministro dos
Negócios Estrangeiros. Perguntei-lhe se conhecia alguém do S.I.S..
- “Por definição, não conheço ninguém. Estas coisas são secretas
por definição. Só te vou dar um pequeno conselho: Tem muito
cuidado.”
Foi a resposta dele. Nem uma sequer uma pergunta sobre as
minhas razões. Perguntei-lhe se podia transmitir uma mensagem.
69
-“Eu já te disse: Eu não conheço ninguém. Obrigado por teres
telefonado.”
Desligou. Quanto ao S.I.S., eu estava de volta à estaca zero. No
entanto, isto só confirmava a minha crença na eficiência do S.I.S..
Eu iria dedicar os próximos dias a tentar contactá-los. Também iria
precisar de uma arma. Mas em Portugal, a posse de uma arma
envolve possuir licença de porte e de uso da mesma. Obtê-la é um
processo moroso, que habitualmente demora um ano e termina em
rejeição do pedido. Eu decidi ter esperança que o S.I.S. me
ajudasse nesse assunto em particular. Entretanto, teria de andar
desarmado.
70
III- Primeiro Encontro
Cheguei ao escritório, na manhã seguinte, por volta das 11 horas.
No centro do hall de entrada, existe um pequeno café.
Ao entrar, reparei numa rapariga asiática a beber um café.
Nenhumas raparigas asiáticas trabalhavam naquele complexo de
escritórios.
De onde ela estava sentada, tinha um ângulo de visão da entrada
principal. Ela observou-me fixamente quando entrei. Olhei
directamente para ela. Ela baixou os olhos e olhou demoradamente
para a sua chávena de café. Fui directamente na direcção dela, e
perguntei-lhe educadamente se podia sentar-me na sua mesa. Ela
respondeu-me afirmativamente. Perguntei-lhe de onde era.
- “Sul de Bangkok”, respondeu.
- Conheço muito bem Bangkok. Seria capaz de mandar uma
mensagem para uma pessoa em Bangkok?
- “Não”, replicou. Agarrou na mala, e pegou no telemóvel. Eu
segurei-lhe delicada mas firmemente no braço.
-“Ton Mui Guiap”, disse-lhe.
- Desculpe?, respondeu.
- Eu estava a falar tailandês. O que eu disse é que você é uma
mulher muito bonita. Até logo.
Dirigi-me para o elevador, premi cada botão e desci no quinto
andar, telefonei a um dos meus colegas, e pedi-lhe para vir ter
comigo.
Ele, que estava a par dos meus temores, chegou em segundos.
Pedi-lhe para me emprestar o carro, e levar o meu depois.
Eu tinha cometido o erro de usar o meu próprio carro. Agora era um
bem comprometido. É muito fácil plantar um aparelho de
localização num carro. Isto permite detectar a sua localização.
Eu tinha-me desleixado. Era um erro menor, mas tinha sido um
erro.
Fomos à garagem, e para meu alívio, não havia vestígios de
asiáticos. Agradeci ao meu amigo, e acenei-lhe, em despedida. Ao
conduzir passei pelo meu carro e notei que quatro homens
conversavam, nas imediações. Apenas vi-os de longe e estava sem
paciência para verificar as suas origens raciais.
De uma coisa eu tinha a certeza: Os vietnamitas estavam a agir por
conta própria. Tinham a confiança e a estupidez necessárias para o
fazer. Além do mais, estavam em território hostil, onde não tinham
contactos nem ligações. Isso dava-me uma vantagem enorme.
71
Por instantes, pensei se não seria melhor pintar ou rapar o cabelo,
ou talvez deixar crescer a barba para esconder as cicatrizes
facilmente identificáveis na minha face direita. De imediato rejeitei a
ideia. Não é o meu género.
Fui directamente a uma embaixada, onde pedi para falar com o
chefe da Segurança, que conhecia. Fui recebido passado alguns
minutos, e expliquei a minha situação. Ele foi muito compreensivo,
e deu-me algumas dicas preciosas:
- Não use e-mails, ou faxes. Comunique somente através de cartas
a grandes empresas, e utilize envelopes de clientes habituais.
Ele deu-me uma palavra em código. “Use numa emergência, se
quiser falar comigo. De outro modo, utilize esta morada.” Deu-me
um endereço de uma enorme multinacional americana, e alguns
envelopes com o logotipo de outra empresa. “Você deve tentar
entrar em contacto com o S.I.S.. Nós não confiamos neles, nem
você deve confiar, por isso, jogue pelo seguro”.
Agradeci-lhe, e despedi-me. Ele estava claramente a agir além das
suas funções. Aproveito esta oportunidade para lhe agradecer.
- Mantenha-me informado, disse, quando eu ia embora.
Depois do almoço, fui à Associated Press, onde fui recebido pelo
Sr. Krylic. Expliquei-lhe a minha situação. Ele mostrou-se
interessado, e queria o livro, e-mails, nomes de testemunhas, etc.
Eu expliquei-lhe que não queria uma reportagem e que queria
deixar as opções em aberto. O meu advogado possuía tudo e
seguiria em frente, enviando-lhe o material, no caso de algo me
acontecer. De outra forma, eu entraria em contacto com ele de
novo.
- Não se preocupe, disse ele, quando eu ia a sair. “Se houver
sangue, haverá notícia”. Não fiquei muito encorajado.
Fiz o mesmo com um jornalista português, também meu amigo.
Pedi-lhe também para suspender a publicação até futuras
instruções.
Não me apercebi na altura, mas acabara de cometer um erro
irreparável.
72
Necessitado de descanso, fui para uma praia distante. Aluguei um
quarto privado na casa de uma família. Estava em segurança, mas
a situação era insustentável. Eu não podia fugir eternamente, mas o
tempo estava do meu lado. Os meus escritos ainda estavam na
Internet. Contactar o S.I.S. era apenas uma questão de tempo. As
minhas férias foram divertidas, mas de uma forma estranha. Sentiame
poderoso, com uma autoconfiança estimulada, porque cada
hora que passava, era uma vitória sobre os meus adversários, e eu
estava a lutar sozinho e desarmado contra aquilo que podia ser
considerada uma das mais bem organizadas e poderosas máfias do
mundo. E sentia ter capacidades para isso. Senti-me orgulhoso.
Só havia algo que me desmoralizava: Não houvera uma única
palavra de apoio no “Vietnam Discussion Forum”. Após reflecção,
percebi que, se alguém o fizesse, o seu e-mail seria lido pelos meus
“amigos” vietnamitas. Compreendia a situação, mas mesmo assim
não podia evitar sentir algum desapontamento.
73
III - Interlúdio
A minha estadia na praia foi curta, e tranquila. Comprei um novo
telemóvel, com um novo número, com o qual mantive um contacto
mínimo com alguns amigos. Pedi-lhes para irem a minha casa e
levarem o meu computador. Eu esperava que isto levasse os meus
raptores a confiar ainda mais na informação enganosa que eu lhes
tinha deixado, e que decerto, eles já tinham. Mais tarde perguntei
aos meus amigos se haviam notado algo suspeito na casa, mas
eles não haviam notado nada.
Uns dias depois, decidi voltar a Lisboa. Mas, primeiro, teria de
adquirir uma arma. Passei vários dias à procura de uma no
mercado negro. A maioria era impossível de utilizar, com os seus
mecanismos de ejecção encravados, ou com outros problemas do
género. Só encontrei duas mais operacionais, mas nada de
munições correspondentes. (Ambas tinham umas balas nos
carregadores). Eu nem sequer poderia experimentá-las. E balas
desse calibre são difíceis de obter. Eu passei a seguinte mensagem
aos meus amigos: “Arranjem-me uma arma”. A outros, enviei uma
mensagem diferente: “Ponham-me em contacto com o S.I.S. -
Urgentemente!”
Eu estava a usar um telemóvel, contrariamente ao conselho que me
fora dado. Mas a intercepção de conversas por telemóvel, estava,
com certeza, para além das capacidades dos meus raptores.
Também percebi, que mesmo sem ter sido afirmado claramente,
que este conselho tinha mais a ver com os S.I.S. do que com os
vietnamitas.
Estava já a caminho de Lisboa, quando recebi um telefonema de
uma amiga. Conhecia-a há vários anos, durante os quais tivéramos
alguns casos.
- Acho que precisamos de conversar. Sei da tua situação e posso
ajudar.
74
IV- UMA PRIMEIRA AJUDA
Chamava-se Isabel. Conhecia-a há muito tempo. Encontrámo-nos
num café, e ela prometeu entrar em contacto com alguém que ela
conhecia no S.I.S. Emprestou-me uma arma, mandada por um
amigo em comum.
Fui assim que fui apresentado ao Ricardo, que se assumia como
sendo – e estou plenamente convencido é - um agente do S.I.S.
Expliquei-lhe a minha situação.
“O que precisas é de dois cães de guarda”, disse ele. “Eu posso ser
um deles, e achar outro. Então não terás nada com que te
preocupar”.
Percebi de imediato que teria de encontrar uma forma de convencer
o S.I.S. da gravidade da situação e que não tinha hipóteses de
convencê-los naquele momento.
Pensei que o principal objectivo do Ricardo era, claramente,
extorquir-me o máximo de dinheiro que pudesse. Os seus dois cães
de guarda prontos 24 horas por dia, não só iriam custar-me uma
pequena fortuna, durante um período interminável de tempo, como
não estavam de certeza à altura da matilha de hienas que estavam
no meu encalço.
Dois cães seriam mortos, um Tigre raptado, e seria o fim da
história. Eu não o permitiria. Além do mais, o tempo estava do meu
lado. O livro estava na Net. Os meus raptores não conseguiriam
encontrar-me. E eu tinha adquirido uma arma. Acenei adeus ao
Ricardo, pedi-lhe para investigar, e disse que voltava a contactá-lo
em breve.
Ele obviamente não me levou a sério, pensei. Hoje não tenho
certeza nenhuma. O mundo do SIS é muito enganador. Devo dizer
que são verdadeiros mestres em encenações.
75
Levei a Isabel a casa no meu carro emprestado, e dirigi-me para um
lugar em Espanha onde podia passar mais uns dias.
Decidi comprar um telemóvel em segunda mão e desligar o meu.
Afinal, por duas vezes fora avisado para não confiar no S.I.S. e eles
poderiam detectar os meus movimentos através das chamadas do
meu telemóvel.
Retrospectivamente, acho que esta precaução me pode ter salvo a
vida.
V- UM ERRO TELEFÓNICO VIETNAMITA
Fui à loja da Telecel e comecei a escolher um telémovel novo.
Enquanto estava na loja, o meu telefone tocou. Apareceu-me um
número no écran. Reparei que tinha 9 dígitos. Portugal é um país
pequeno. Nunca tinha recebido - sequer ouvido falar - num Telecel
com 9 dígitos. O meu telemóvel só tinha tocado uma vez. Não era
um número confidencial. Eu devolvi a chamada. Ninguém atendeu.
Ao comprar o meu novo telefone (utilizando outro nome), expliquei
à assistente a ocorrência.
Temos estado a emitir números de nove dígitos nas últimas
semanas. Isto quer dizer que quem lhe telefonou adquiriu o telefone
recentemente. Eu penso, pelo que você me disse, que alguém está
a tentar incluir o seu número na lista telefónica dele ou dela.
Acontece algumas vezes. Se a pessoa lhe quisesse falar, teria
deixado tocar por mais tempo, ou então respondia à sua chamada.
Pode identificar esta chamada?
Sim. É só um minuto. Nguyen Manh.
Agradeci-lhe, comprei o meu novo telemóvel e telefonei ao Ricardo
através do antigo.
- Novidades?
- Não notámos nada fora do normal, por aqui. Está tudo calmo.
Aonde estás?
76
- De férias. Põe este número sob vigilância. Pertence a um tal
Nguyen Manh.
- Merda! Como é que conseguiste o número dele?
Expliquei-lhe.
- “Vamos verificar isso. Não te preocupes. Manterte-emos
informado. Boas férias. Estás a precisar delas.” - E ambos
desligámos.
VI
Dirigi-me a Isla Cristina, uma estância de férias no Sul de Espanha,
logo a seguir à fronteira portuguesa. Decidi deixar o país para que
ninguém em Portugal decidisse tentar localizar os meus
movimentos através do meu telemóvel.
Era altura de reflectir. Decidi que não podia esperar e cheguei a
considerar a ideia de arranjar um trabalho algures na Europa. Já
não tinha quaisquer ilusões sobre poder mudar o destino dos meus
amigos. O mínimo que eu podia fazer, era dar a conhecer ao
Mundo a situação. Por outras palavras, publicar o livro de forma não
- virtual. Contactei várias editoras nos Estados Unidos e em
Inglaterra, e recebi respostas favoráveis.
Mantive-me em contacto com o escritório, utilizando o meu número
novo, mas tomando a precaução de conduzir até Portugal para o
fazer, para me assegurar que ninguém poderia saber das minhas
andanças.
Estava prestes a concretizar a publicação, quando, ao telefonar
para o meu escritório, me disseram que tinha chegado um fax para
mim do Vietnam. Tinha sido enviado por uma firma chamada
Leaprodexim, que se situava em Hanói, com a qual eu tinha
negociado a importação de bolas de futebol e outros artigos
desportivos. Informava-me que o Sr. Do Than Hong, o director da
Leaprodexim, iria visitar a Europa, para se encontrar com os
clientes da empresa, e estaria disposto a visitar-me em Lisboa.
Eu conhecia bem a firma Leaprodexim e eles não tinham nenhum
”Departamento de Exportação”. Era bastante claro para mim o que
77
tinha acontecido. Sem conseguirem encontrar-me, os meus
raptores tinham elaborado um estratagema. Os administradores da
Leaprodexim tinham sido postos em “Prisão Administrativa” e,
utilizando os telefones da companhia, faxes, e pessoal, os militares
vietnamitas estavam a tentar montar-me uma armadilha.
Pensei em telefonar à Leaprodexim e pedir para falar com o
director, Sr. Pham ou o seu assistente, Toan.
Depois, reflectindo no assunto, vi que não havia nenhuma
vantagem em fazer isso. Dir-me-iam que eles estavam de férias, ou
algo do género, e os meus raptores ficariam a saber que eu não iria
cair na armadilha deles. Pareceu-me melhor ingenuamente aceitar
o convite deles. Era altura de voltar a Lisboa.
VII- Encontro com o Sr. Do
Dirigi-me a Lisboa e encontrei-me com o Ricardo.
Expliquei-lhe o que se passava, e que necessitava de segurança. Perguntei-lhe
se me podiam conceder licença de uso e porte de armas. Garantiu-me que sim.
“Nós já recebemos ordens do Alto para te protegermos. Vamos estar
presentes. Envia uma limousine para o ir buscar. O motorista será “um de nós”.
Aconselho-te a ficares em minha casa, esta noite, sob a minha protecção até
que ele chegue. Não saias sozinho, não deixes esta zona (Almada). Marca
uma reserva no Hotel Tivoli Jardim.
O Hotel Tivoli é um hotel de cinco estrelas localizado num beco, cerca do Hotel
Tivoli Jardim. Qualquer tentativa de rapto seria facilmente evitada.
Passei os três dias seguintes com o Ricardo e com os seus amigos. Eles
alojaram-me e protegeram-me. Foi mandada uma limousine para buscar o Sr.
Do.
Fomos para o Hotel Tivoli em três carros, antes do Sr. Do chegar. O Ricardo
disse-me que os dois carros atrás do nosso levavam pessoal do S.I.S. e uma
brigadas especial da PSP. Quando chegámos, o agente Mota, que obviamente
controlava a situação, enviou dois atiradores para o telhado do Hotel.
Aparentemente, já obtivera autorização da gerência do hotel. Dois agentes com
mochilas entraram no elevador. Os outros dispersaram-se. Câmaras de vídeo e
aparelhos haviam sido estrategicamente colocadas disse-me o Ricardo.
78
Como eu não confiava plenamente no S.I.S., pedira a cinco amigos meus que
estivessem armados no Hotel.
Avisei o Mota da sua presença. O Ricardo e eu fomos ao bar, e pedimos
algumas bebidas. Em breve chegou o Sr. Do, com as malas cheias de bolas de
futebol, ténis, etc...
Fui recebê-lo à recepção. Gradualmente, uma dúzia de asiáticos chegou, em
grupos de três e quatro. Notei um certo nervosismo da parte do Mota. Este fez
um telefonema e alguns minutos depois um carro da polícia chegou e
estacionou à porta do Hotel.
Eu e o Sr. Do sentámo-nos numa mesa no salão. O Ricardo também se
sentou. O Sr. Do disse que tinha trazido imensas amostras e que seria
preferível mostrar-mas no seu quarto. Concordei, mas o Ricardo interviu:
Explica ao teu amigo que houve um pequeno engano da tua parte. Diz que o
quarto é no Hotel Tivoli Jardim mesmo aqui ao lado. E não subas ao quarto
dele.
Expliquei o “engano” ao Sr. Do. O Ricardo pegou nas malas dele, que entregou
a um empregado que as transportou para o Hotel Tivoli Jardim.
Os meus cinco amigos seguiram-nos. Os asiáticos não.
Chegamos ao Hotel Tivoli Jardim e o Sr. Do entregou as malas a outro
empregado, que lhas levou ao quarto. Ele voltou a insistir que analisasemos as
amostras no quarto. Recusei.
O Sr. Do foi, sozinho, buscar as amostras.
O Ricardo disse-me então estas palavras:
“Miguel, hoje tás totalmente seguro, mas amanhã podes não estar. Vais retirar
o livro e fazer tudo o que eles te pedirem. Ou não contas mais connosco. Fez
uma pausa, e acrescentou: “Ordens do Gabinete do 1º Ministro”.
Fiquei boquiaberto, mas não tive tempo de reflectir. O Sr. Do voltara com um
sacão cheio de amostras, que começou a colocar na mesa. Um grupo de meia
dúzia de asiáticos chegou e sentaram-se na mesa ao lado. Não eram os
mesmos que haviam ficado no Hotel Tivoli.
“Antes de entrarmos em mais detalhes, julgo que é necessário que saiba uma
coisa”, disse eu. Tenho alguns problemas com as autoridades vietnamitas por
causa de um livro que escrevi. Temo que esses problemas interfiram ou tornem
impossíveis os nossos negócios. Quero assegurá-lo de uma coisa. Vou de
imediato retirar o livro de circulação, e farei o que me for possível para
remediar esta situação.”
Os olhos do Sr. Do brilharam de satisfação.
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“Vejo que é um homem extremamente inteligente e sensato. Tenho a certeza
que os nossos negócios vão correr bem.”
De repente, um asiático entrou no hotel e correu em direcção à nossa mesa. O
Ricardo levantou-se, e interceptou-o. O homem voltou a sair e apanhou um
táxi..
Segundo o Ricardo, o S.I.S. detectou um total de 20 agentes vietnamitas, um
total de 17 homens (excluindo o Sr. Do), e três mulheres. Alguns utilizavam um
carro da Embaixada Vietnamita em Paris. O Governo fez um protesto
diplomático “informal”, e os vietnamitas retiraram-se.
80
IV- Tiroteio em Saigão
(International Herald Tribune de Quinta-feira,15 de Janeiro de 1998)
Líder militar abatido a tiro em tribunal Vietnamita.
Página:4
“Hanói: Um militar de alta patente foi abatido a tiro na sala de audiências do
tribunal de Ho Chi Minh, de acordo com a reportagem de um jornal estadual, na
passada quarta-feira.
O Coronel Vo Van Trung foi abatido a curta distância, na passada terça-feira,
por um subordinado seu, o Tenente-Coronel Nguyen Quang Thai, de acordo
com o jornal Tanh Nien. O Coronel Thai, alegadamente teria disparado sobre
outro colega, que ficou gravemente ferido. Não é claro se decorria algum
julgamento na altura.
A polícia militar cercou o tribunal de Ho Chi Minh, afim de terminar o drama. Foi
então que o Sr. Tenente-Coronel Nguyen Quang Thai deu um tiro na cabeça,
vindo a morrer mais tarde. Uma fonte no local disse que o motivo do tiroteio
ainda não estava clarificado, mas acrescentou que a situação nas zonas
militares do Vietnam, que circundam a cidade de Ho Chi Minh, e as províncias
mais próximas, tornara-se “complexa”, devido a mudanças do ao mais alto
nível da hierarquia militar.”
Creio que o que realmente se passou foi que o Tenente-Coronel Thai e os seus
subordinados foram acusados de “abuso de poder”, e de tráfico de drogas pelo
Coronel Vo, que lhes tinha transmitido ordens provindas do General Than.
Sabendo que para tais acções aplica-se a pena de morte, eles tentaram
escapar, por essa razão a polícia cercou o tribunal de Ho Chi Minh.
Aparentemente, o protesto diplomático “informal” surtira efeito.
81
VIII – AS HIENAS PROCURAM VINGAR-SE
Continuei as negociações com o Sr. Do. Era parte do nosso
acordo, e eu ainda acreditava no nosso negócio de exportação.
Criei um site especificamente desenhado para publicitar os
produtos da Leaprodexim, e inclusivamente recebi algumas
encomendas.
Durante umas semanas, tudo parecia correr bem, até eu receber
um e-mail da Impetus Trading, uma companhia que manufacturava
produtos similares, no Paquistão. Esta oferecia exactamente os
mesmos produtos, mas a preços mais baixos. No entanto, esta
revenda era invulgar. Os fornecedores habitualmente não vendem a
outros fornecedores. Senti o cheiro do perigo no ar.
Visitei o Web site deles, e notei que era o utilizador número 2!
Alguém tinha criado a página e confirmado a sua existência. Eu
tinha sido a única pessoa contactada. Informei o S.I.S., mas não dei
qualquer resposta.
Fui depois contactado por várias outras firmas com ofertas de
produtos semelhantes. Continuei sem dar resposta.
Depois recebi o seguinte e-mail:
Assunto:
Informação
Data:
Segunda, 11 de Maio, de 1998 23:09:43 +0100
De: “E.L.” <allstone@indigo.ie>
Organização:
Allstone
Para:
miguel.pereira@nca.pt
Estou interessado em comprar propriedades rurais ou urbanas, em Portugal.
Seria possível o Sr. enviar-me todos os detalhes que disponha acerca de todas
as propriedades que tenham mais de 1 M Libras Esterlinas?
PS. Por favor, envie detalhes da sua empresa, pois encontrei o seu nome
numa lista de mailing e não tenho mais informações, isto é, o nome da
empresa, morada, o número de fax,......etc.
82
Agradecimentos.
Eu estava efectivamente envolvido no ramo imobiliário, mas tinha a
certeza de que o meu nome não constava de nenhuma lista de
mailing e podia nitidamente ver a maquinação e a armadilha por
detrás disto.
A minha resposta foi que me encontrava ausente durante um
período indeterminado e que o contactaria após a minha chegada.
Fui mantendo o Ricardo ao corrente. Disse-me que não me
preocupasse, e aproveitou para me pedir os empréstimos. Disse
que me podia colocar sob protecção “não oficial”, nas que a mesma
teria de ser paga. Só preciso da licença de uso e porte de arma,
retorqui.
Não ta podemos dar. Requere-a pelas vias normais, e não
menciones os acontecimentos relativos aos vietnamitas.
-Porquê?”, indaguei.
“Foi tudo apagado”, respondeu-me.
Arranjas-me uma na candonga?
Arranjo. 100 contos, calibre 6,35, serve-te?
Serve.” Entreguei-lhe o dinheiro.
No dia seguinte entregou-me uma pistola completamente
“marrada”.
Percebi que não podia contar mais com eles. Decidi fazer “bluff”.
Enviei então o seguinte e-mail:
Caro El,
Devido a circunstâncias inesperadas, tive de regressar a Portugal. Estarei por
cá até finais de Julho. Encontrei algumas propriedades que podem interessarlhe.
Se ainda estiver interessado, por favor, informe-me.
83
Sinceramente,
Miguel Pereira.
Ao mesmo tempo, enviei o seguinte e-mail para alguns endereços
no Sul do Vietnam:
Assunto:
OS TIGRES DE SAIGÃO
Data:
Terça, 09 de Junho de 1998 10:22:35 +0200
De:
Miguel Pereira <miguel.pereira@nca.pt>
Para:
luong@netnam.org.vn (e outros)
Caros amigos,
O S.I.S. informou-me de que, não obstante a retirada do meu livro, e a minha
total abstenção em assuntos de natureza política do Vietnam, oficiais militares
do vosso país contrataram assassinos a soldo para me localizar, obviamente
com propósitos nada amigáveis.
No minha conversa com o Sr. Do Than Hong, eu comprometi-me a, dentro do
contexto das relações amigáveis, a retirar o livro “Os Tigres de Saigão”, e não
me manifestar nem me envolver em questões de âmbito político referente ao
vosso país. Obviamente, estes desenvolvimentos alteram a situação por
completo.
Irei agora fazer o seguinte, dentro dos seguintes prazos:
1- Tornar a publicar “os Tigres de Saigão” num prazo de 15 dias;
2- Vender os direitos de autor tanto dos “Tigres de Saigão” como de “Entrada
nas Áreas Restritas” a uma editora americana que se mostrou interessada no
livro;
3-Enviar uma Segunda “Carta aberta” ao vosso Governo, explicando as razões
destas medidas, em 30 dias;
4- Vender os copyrights para um filme baseado nesta história. Os contactos
foram já iniciados anteriormente, e suspensos após, o meu encontro com o Sr.
Do.
Envio esta carta como sendo correio de carácter privado. Mas, na ausência de
resposta num prazo de 15 dias, todas as minhas comunicações passadas e
futuras convosco, serão tornadas públicas, com cópias enviadas para a
imprensa, políticos europeus, membros da imprensa e para organismos Não-
Governamentais, tais como a Amnistia Internacional, a Sooros Foundation
84
(interessada em fazer um documentário sobre os Direitos Humanos no
Vietnam), a “Associação para um Vietnam Livre”, assim como outras.
Espero que este assunto possa ser resolvido de forma amigável, mas há algo
que espero que compreendam: Quando se encurrala um tigre, ele luta.
Cumprimentos,
Miguel Pereira.
PS: Vários advogados, estão de posse de procurações que lhes permitem
autorizar a cedência e a utilização dos meus copyrights. Não entendo o que
vocês ganhariam em raptar-me, ou matar-me. Vocês estariam a dar um tiro no
vosso próprio pé.
Minutos depois, recebi um e-mail em branco, do pretenso
“comprador”. Ele nunca mais voltou a contactar-me.
A verdadeira resposta veio, enviada por uma firma paquistanesa
com a qual eu tinha estado em contacto, respeitante a artigos
desportivos.
Assunto:
Facas
Data: Segunda, 06 de Julho de 1998 13:07:17 +0200
Para: Miguel Pereira <miguel pereira@nca.pt>
Enviado poor:
vivify<vivify@space.net.pk>
Referências:
vivify escreveu:
Caros senhores,
Esperamos que se encontrem bem e que o vosso negócio esteja em franca
expansão.
Convidamo-los a prestarem a vossa atenção para a nossa oferta de
fornecimento de FACAS PARA TODOS OS PROPÓSITOS CONCEBÍVEIS.
Temos pena que, até ao presente momento, não tenhamos recebido qualquer
resposta mas esperamos que a nossa oferta esteja a ser activamente
considerada, e que obtenhamos uma resposta breve.
Gostaríamos de mencionar que somos produtores genuínos e que estamos a
suprir os fornecedores do mercado local, assim como os nossos clientes
estrangeiros. Os nossos clientes dependem da nossa qualidade, e confiam nos
nossos compromissos.
85
Temos todo o interesse em trabalhar com a vossa estimada companhia, e
pedimos que tenha a gentileza de nos dar uma oportunidade, e nós
asseguramos-lhe plena satisfação a todos os níveis.
Agradecendo-lhe a atenção dispensada, e assegurando a nossa melhor
colaboração, esperamos ansiosamente uma resposta positiva da sua parte,
através de fax ou de e-mail.
Os melhores cumprimentos, / M. ASGHAR SHEIKH
Eu respondi:
Facas são objectos interessantes. Podem ser utilizadas para
propósitos de todos os géneros. Podem ser utilizadas para
intimidar. Podem ser usadas para desfigurar, torturar ou matar.
Podem inclusivamente ser usadas para outros fins, tais como
arranjar conflitos ou criar notícias. Lembro-me de há uns meses um
jornalista da Associeted Press me dizer: “Não se preocupe: Se
houver sangue, haverá notícia”.
O seu comentário em nada me tranquilizou, por isso, decidi ter a
sensatez de tentar evitar facas. No entanto, devido à vossa
insistência, estou disposto a adquirir uma. Por favor, informem-me
do tipo de facas em que vocês se especializam.
Se a vossa especialidade são facas para intimidação, não é
necessário enviarem-me nenhuma, porque eu já recebi a
mensagem, e na ausência de provocações ou de acidentes, vou
manter uma discrição tal como tenho mantido até agora, ao receber
a vossa generosa proposta de negócios.
Se a vossa especialização for de outro tipo de facas, por favor,
deixem-me saber.
Cumprimentos,
Miguel Pereira.
Também recebi uma resposta do David Nguyen: Ele tinha enviado anteriormente um email
que volto a reproduzir:
Caro Sr. Pereira:
Li o seu romance com um grande desapontamento. Este “romance” não passa de um
monte de lixo. Eu acho que você sofre de algum tipo de doença mental. O conselho que
eu lhe dou é de consultar um psiquiatra o mais rapidamente possível.
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Sou uma das pessoas que partiram de barco, mencionadas no seu “romance”, e já voltei
a Saigão duas vezes desde que parti, há vinte e dois anos. Viajei para as partes do país
incluindo as terras-altas, e contactei muita gente, inclusivamente os miúdos da rua. O
que você descreveu no seu “romance” só existe na sua imaginação doentia.
Você precisa de tratamento psiquiátrico, mais vale agora do que quando for tarde
demais.
Desta vez o texto era ligeiramente diferente:
Caro Sr. Pereira,
Quando lhe enviei o e-mail (acima), eu trabalhava na Austrália-Vietnam Forum,
e senti-me na obrigação de oferecer-lhe o meu ponto de vista. Lamento
profundamente se o ofendi de alguma maneira. Você pode publicar o seu livro.
Está no seu direito. No entanto, agora que não trabalho no fórum, não estou
envolvido nos subsequentes desenvolvimentos e nada quero ter a ver
com os mesmos.
Cumprimentos,
David Nguyen
A Vivify insistiu:
Data:
Segunda,20 de Abril, de 1998
De:
QAISER PERVEZ <qaiser@sp.net.pk>
Organização:
Para: Miguel.pereira@imagine.pt
Assunto:
FACAS
Data:
Segunda, 17 de Setembro, 1998
De: Vivify International
Para:
Miguel.pereira@imagine.pt
Caro Senhor
Espero que estejam bem e que o vosso negócio esteja a prosperar.
87
Convidamo-los a prestarem a vossa atenção ao nosso E.mail datado de
29/6/98, referente à nossa oferta para fornecer todo o tipo de facas (de caça,
borboleta, de bolso, ponta-em-mola, de cozinha, puma, etc.)
Temos pena de, até à data não termos tido resposta, mas esperamos que a
nossa oferta esteja a ser considerada atentamente, e que nos escrevam com
os vossos pedidos de amostras, preços, ou quaisquer outras informações.
Todas as perguntas terão toda a nossa atenção.
Podemos assegurar que somos fabricantes legítimos, e competimos em preço,
e qualidade das nossas linhas e projectos. Estamos a produzir uma enorme
variedade de facas, e os traços gerais e aparência podem ser vistos no nossa
Website.
Asseguramo-vos de que temos a capacidade financeira de ir de encontro das
vossas necessidades, sejam elas grandes ou pequenas.
Acreditamos que a proximidade física das nossas facas vos farão
entender melhor as suas potenciais utilizações. Tomámos por isso a
liberdade de enviar algumas amostras.
Cumprimentos,
Sheikh Mubbash
II- PRECAUÇÕES
Tive um ou dois dias (foi esse o tempo que calculei que eles levassem a chegar a Lisboa) para me
preparar para o que me esperava. Mesmo durante este breve período, o perigo espreitava. A embaixada
do Vietname mais próxima ficava em Paris: a duas horas de voo de Lisboa.
A minha primeira tarefa foi remover de casa toda e qualquer informação potencialmente relevante e
substitui-la por dados inócuos e desorientadores. O primeiro passo dos meus pretensos captores seria,
muito provavelmente, revistar a minha casa e o meu computador. Demorei algumas horas a apagar
ficheiros comprometedores e muitas horas a alterar outros. Ao introduzir informações falsas poderia
induzir em erro os meus captores e até controlar os seus movimentos. Deixei várias pistas e moradas que
foram muito úteis mais tarde. Demorei mais do que esperava. Inundado em transpiração à medida que as
horas passavam, perguntei-me se não seria mais fácil remover o meu computador. No entanto, achei que
deveria arriscar.
Dediquei-me, depois, aos meus outros documentos: cartas, contas, fotografias, etc.… Tinha de criar um
equilíbrio: retirar o essencial ao mesmo tempo que fazia parecer que tinha sido apanhado desprevenido.
Tinha de memorizar o que deixava para trás. Não foi fácil.
Sair de casa foi um alívio. Pelo menos iria poder dormir sem medo. Porém, os meus contactos de
negócios no Vietname tinham o número de telefone do meu escritório. Provavelmente, os meus captores
também. Não me encontrando em casa, seguiriam para lá. Deveria eu abandonar as minhas actividades
profissionais? Por quanto tempo? Afinal de contas, eu nem tinha a certeza de que a ameaça era real.
Repeti a «limpeza» da minha casa no escritório. Apaguei e alterei ficheiros para de alguma maneira
controlar a estratégia dos meus captores. Quando terminei, tomei uma decisão. A minha vida profissional
continuaria sem perturbação. Iria para o escritório todos os dias como de costume. Seria lá que os meus
captores me encontrariam. O local não era próprio para uma tentativa de captura: um grande complexo de
escritórios com várias entradas e seguranças (desarmados). Se conseguisse fazer com que eles se
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sentissem suficientemente confiantes em me apanharem desprevenido em qualquer outro local, o
escritório parecia seguro.
Decidi dormir em casa de uma amiga. Não a via há anos, por isso achei que era seguro. Tinha também a
vantagem de não ser nem demasiado perto nem demasiado longe do meu escritório. E, claro, esperava
passar alguns momentos agradáveis. Além disso, este passo foi-me útil. Era tarde e sentia-me exausto.
Combinámos encontrar-nos e tomar uma bebida para que eu pudesse explicar a situação. Não me lembro
ao certo do que se passou nessa noite. Ficámos a beber até tarde e ela levou-me para casa. Parecia muito
divertida com o que me estava a acontecer.
Acordei de madrugada. Tinha uma série de medidas a tomar. Fiz uma queixa na polícia. Não tinha ilusões
quanto à possibilidade de esta resolver o problema, mas valia a pena tentar. Ao contrário do que esperava,
teve utilidade mais tarde, e de uma forma que eu não podia imaginar na altura. Depositei as minhas
esperanças no S.I.S.. Pareciam-me as pessoas mais indicadas para lidar com a questão. Telefonei às
várias pessoas que conhecia que estariam ligadas à agência. Perguntei-lhes se conheciam alguém do
S.I.S.. Pedi para entrar em contacto com um agente de alta patente. De todas as frentes, a resposta foi a
mesma: a identidade dos agentes é secreta. Disseram-me para entrar em contacto com a sede da agência,
o que fiz. Disseram-me que vigiariam os acontecimentos e aconselharam-me a tomar precauções.
Estava de volta à estaca zero. No entanto, isto servira para corroborar a minha confiança na eficácia do
S.I.S.. Dediquei os dias seguintes a tentar entrar em contacto com um agente de alta patente. Também iria
precisar de uma arma. Mas em Portugal, para se ter uma arma é preciso uma licença. Obter uma licença
de porte é um processo demorado que costuma levar um ano e geralmente é recusado no final. Tive
esperança de que o S.I.S. me ajudasse nesse aspecto, mas não o fizeram. Por agora teria de andar
desarmado.
III – PRIMEIROS CONTACTOS
Na manhã seguinte cheguei ao escritório por volta das onze horas. Na zona central da entrada há um café.
Quando entrei no edifício, reparei numa rapariga asiática que bebia um café. Em todo o complexo não
trabalhava uma única rapariga asiática.
Do sítio onde estava sentada podia controlar quem entrava. Olhou fixamente para mim quando eu entrei.
Eu retribuí o olhar. Depois ficou a olhar para a chávena. Dirigi-me directamente a ela e perguntei-lhe se
podia sentar-me. Ela assentiu. Perguntei de onde era.
- Sul de Banguecoque – respondeu.
- Conheço muito bem a cidade de Banguecoque. Pode entregar uma mensagem a uma pessoa quando
estiver de volta?
- Não – disse ela. Pegou na mala e tirou o telemóvel. Agarrei-lhe o braço com cuidado, mas de maneira a
que não fugisse.
- Khun phen khon suay! – disse-lhe.
- Desculpe? – indagou ela.
Eu estava a falar tailandês. O que lhe disse traduz-se por «És uma rapariga muito bonita. Até logo».
Dirigi-me para o elevador, carreguei em todos os botões, saí no quinto andar, telefonei a um dos meus
colegas e pedi-lhe que viesse ter comigo. Ele estava a par da minha situação e chegou alguns segundos
mais tarde. Pedi-lhe para me emprestar o carro e para levar o meu. Tinha cometido o erro de andar com o
meu próprio carro. Agora era um veículo inseguro. É muito simples colocar um dispositivo de localização
num carro. Permite detectar as movimentações exactas. Tinha escorregado, mas fora uma escorregadela
pequena.
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Fomos para a cave e, para nosso alívio, não havia asiáticos por perto. Agradeci ao meu amigo e despedime.
Quando passei pelo meu carro, vi três homens a conversar perto dele. Apenas os vi de costas e não
estava com disposição para investigar a sua origem étnica. De uma coisa estava certo: os vietnamitas
fariam tudo por sua conta. Eram suficientemente presunçosos e estúpidos para tal. Além disso, estavam
em território inimigo onde não tinham contactos. Isso colocava-me em vantagem.
Por momentos pensei em cortar ou pintar o cabelo, ou talvez deixar crescer a barba para esconder as
cicatrizes denunciadoras na minha face direita. Pus logo a ideia de lado. Não condiz comigo.
Dirigi-me de imediato para uma embaixada onde pedi para falar com o chefe de segurança amigo de um
meu amigo. Após alguns minutos, fui recebido e expliquei a minha situação. O homem foi muito
compreensivo e fez-me algumas sugestões muito úteis:
- Não envie e-mails, telefones ou faxes. Comunique apenas por carta e através de envelopes dos clientes
habituais.
Deu-me uma senha e disse:
- Use-a em caso de emergência se quiser falar comigo. Senão, use esta morada.
Deu-me a morada de uma grande empresa multinacional e alguns envelopes com o logótipo de outra
empresa.
- Tem de entrar em contacto com o S.I.S. e com a polícia. Tente jogar pelo seguro.
Agradeci-lhe e sai.
- Mantenha-me informado – disse ele.
Depois de almoço fui à Associated Press, onde o Sr. Kryllic me recebeu. Expliquei-lhe a minha situação.
Ele mostrou-se interessado e quis o livro, os e-mails, os nomes de testemunhas, etc. Fiz-lhe entender que
não queria relatar nada, que queria manter outras hipóteses em aberto. Que o meu advogado tinha toda a
documentação e que lha enviaria se algo me acontecesse. Caso contrário, voltaria a telefonar-lhe. Ele
compreendeu. Quando me levantei para sair, disse:
- Não se preocupe. Se houver sangue, há notícia.
Eu não achei a ideia muito consoladora.
Fiz o mesmo com um jornalista português de renome, um amigo em quem senti que podia confiar. Mais
uma vez, pedi para não publicar nada até que eu lhe desse sinal.
Na altura não me apercebi, mas cometera um enorme erro.
Como estava a precisar de descanso, fui para uma praia distante. Aluguei um quarto numa casa de família
privada. Estava seguro, mas a minha situação era insuportável. Não podia andar fugido para sempre.
Porém, o tempo estava do meu lado. Os meus textos ainda estavam na Internet. Era fácil entrar em
contacto com o S.I.S.. As minhas férias foram, de certo modo, divertidas. Senti-me poderoso, a minha
libido estava fortalecida, cada hora que passava equivalia a uma vitória sobre os meus adversários. Estava
a enfrentar o que era, provavelmente, uma das mais organizadas e poderosas máfias do mundo sem ajuda
de ninguém. E tinha capacidade para o fazer. Senti-me orgulhoso.
Apenas uma coisa me desmoralizava. Nem um só vietnamita do «Fórum de Discussão Australiano-
Vietnamita», onde tinham sido apresentados os meus trabalhos, havia expressado o seu apoio ou qualquer
espécie de encorajamento. Após alguma ponderação, concluí que, mesmo que o tivessem feito, os e-mails
já teriam sido lidos pelos meus «amigos» vietnamitas. Compreendi o seu receio, mas não podia deixar de
me sentir desapontado.
III – INTERLÚDIO
A minha estadia na praia foi breve e tranquila. Adquiri um novo telemóvel com um novo número que
apenas utilizei para entrar em contacto com alguns amigos. Pedi-lhes que fossem a minha casa buscar o
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computador. A minha intenção era fazer com que os meus captores acreditassem ainda mais na
informação errada que haviam recolhido. Mais tarde perguntei aos meus amigos se tinham reparado em
alguma coisa suspeita em minha casa. Não tinham.
Uns dias depois, decidi voltar a Lisboa. Mas primeiro tinha de arranjar uma arma. Demorei vários dias à
procura de uma no mercado negro. A maioria estava inutilizável devido a gatilhos encravados ou a outros
defeitos no mecanismo. Descobri duas que funcionavam, mas não tinha as munições adequadas (ambas
tinham ainda algumas balas no canhão). Nem sequer as podia experimentar. E as balas daquele calibre
não eram fáceis de encontrar. Transmiti uma mensagem aos meus amigos: «Arranjem-me uma arma.» A
outros enviei um pedido diferente: «Arranjem maneira de eu entrar em contacto com o S.I.S. – com
urgência.»
Usei um telemóvel, contrariamente ao que me fora aconselhado. Mas interceptar comunicações feitas por
telemóvel era certamente uma habilidade que os meus captores não poderiam e momento executar.
Estava a caminho de Lisboa quando recebi um telefonema de uma amiga. Conhecíamo-nos há vários
anos, ao longo dos quais tínhamos tido alguns relacionamentos.
- Temos de falar. Sei o que se passa e posso ajudar-te.
IV – PRIMEIRA AJUDA DOS MEUS AMIGOS
Chamava-se Isabel. Conheci-a havia já muito tempo. Encontrámo-nos num café. Ela prometeu entrar em
contacto com alguém que conhecia no S.I.S.. Emprestou-me uma arma que recebera através de uma migo
comum.
Fui apresentado ao Ricardo, um operacional do S.I.S.. Expliquei-lhe a minha situação. Ele obviamente
não me levou a sério.
- Você precisa é de dois cães de guarda – disse. – Eu posso ser um e arranjar-lhe outro. Não tem com que
se preocupar.
Percebi de imediato que teria de encontrar uma maneira de convencer o S.I.S. da gravidade da situação e
que tal não era possível de momento.
O objectivo do Ricardo era claramente sugar tanto dinheiro quanto pudesse. Os dois «cães de guarda» 24
horas por dia iriam custar-me uma pequena fortuna durante um período indeterminado de tempo e não
estariam com certeza à altura das hienas que me perseguiam. A história acabaria com dois cães mortos e
um Tigre capturado. Não podia permitir que tal acontecesse. Afinal de contas, o tempo estava do meu
lado. O livro estava na Internet. Os meus captores não conseguiriam encontrar-me. E tinha uma arma.
Despedi-me do Ricardo, pedindo-lhe que investigasse e dizendo-lhe que em breve entraria em contacto
com ele. Levei a Isabel a casa no meu carro emprestado e fui para uma estância espanhola. Decidi
comprar um telemóvel em segunda mão e desactivar o actual.
PARTE III – ENTRA EM CENA O S.I.S.
Enquanto escrevo, tendo uma arma na secretária e dois amigos de vigia, tomo as medidas necessárias e
perigosas para pôr fim ao genocídio continuado que ocorre nas «Áreas Restritas» do sul do Vietname.
Por que motivo escrevo agora, alguns anos após ter publicado (e retirado de circulação) a Parte I de
Tigers of Saigon? Por duas simples razões. Nos últimos meses, uma série de pessoas de minorias étnicas
conseguiu fugir das «Áreas Restritas». Além disso, há uma nova lei belga que autoriza a investigação de
acusações de genocídio onde quer que este ocorra.
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Por outras palavras, agora tenho testemunhas que podem (e já o fizeram) corroborar os meus relatos;
tenho também os meios legais para iniciar uma investigação com base nas minhas acusações. O governo
vietnamita não vai poder ignorar as minhas acusações por mais tempo. Em breve, espero, serão
informados por um advogado belga de que está a decorrer uma Investigação de Genocídio. Espero que
compreendam que, se não investigarem e puserem fim a este genocídio, eles próprios serão considerados
responsáveis. Assim dita a lei que classifica «a prática da violação sistemática de mulheres de minorias
étnicas» como genocídio e que responsabiliza os agentes de alta patente que, «tendo motivos para
suspeitar ou acreditar que algo se passa» nada façam para o evitar.
Mas porque retirei eu o livro TheTigers of Saigon? Foi um acto de cobardia? Talvez, em certa medida.
Porém, olhando para trás, penso que fiz o que devia. Mas voltemos ao que interessa.
I – ERRO VIETNAMITA POR TELEFONE
Fui a uma loja da operadora telefónica portuguesa Telecel com o intuito de adquirir um novo telemóvel.
Quando lá estava, o meu actual telefone tocou. Apareceu um número no visor. Reparei que tinha sete
algarismos. Portugal é um país pequeno. Nunca tinha recebido ou efectuado, nem sequer ouvido falar, de
um número da Telecel com sete algarismos. O meu telefone só tocou uma vez. Não era um número
anónimo. Liguei-lhe de volta. Ninguém atendeu. Enquanto comprava um novo telemóvel, expliquei o que
havia acontecido à vendedora.
- Temos criado números de telefone de sete algarismos nas últimas semanas. Isso significa que quem lhe
telefonou adquiriu o telefone recentemente. Pelo que me contou essa pessoa devia querer memorizar o
seu número na agenda. Acontece com alguma frequência. Se quisesse falar consigo, teria deixado tocar
durante mais tempo e/ou atendido a sua chamada.
- Pode identificar o proprietário?
- Sim. Só um instante. Nguyen Thai.
Agradeci à vendedora, comprei o telemóvel e telefonei ao Ricardo do telefone que já tinha.
- Alguma novidade? – perguntei.
- Não notámos nada de estranho por aqui. Está tudo tranquilo. Onde está?
- De férias. Ponha este número de telefone sob vigilância. Pertence a um senhor Nguyen Thai.
- Merda! Como é que arranjou este número?
Eu expliquei.
- Vamos verificar. Não se preocupe. Vou mantê-lo informado. Tenha umas boas férias. Bem precisa. – e
desligámos.
II
Dirigi-me à Isla Cristina, uma estância de férias no sul de Espanha do outro lado da fronteira com
Portugal. Decidi abandonar o país para que ninguém em Portugal pudesse localizar-me através do
telemóvel. Estava na altura de reflectir. Decidi que ia esperar, até pensei em arranjar um emprego algures
na Europa. Já não tinha quaisquer ilusões de poder ajudar o meu amigo. O mínimo que podia fazer era
dar a conhecer a situação ao mundo. Por outras palavras, publicar o meu livro sob forma não virtual.
Entrei em contacto com várias editoras dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha e recebi respostas
favoráveis.
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Mantive o contacto com o meu escritório através do meu novo telemóvel, mas tive sempre o cuidado de
fazer as chamadas de Portugal para que ninguém pudesse descobrir o meu paradeiro.
Estava prestes a publicar o meu livro quando, numa das chamadas para o meu escritório, me foi dito que
chegara um fax do Vietname. Fora enviado por uma empresa chamada Leaprodexim, em Hanoi, com a
qual eu tinha anteriormente negociado a importação de bolas de futebol e de outros artigos desportivos.
No fax constava que o senhor Do Than Hong, presidente do Departamento de Exportações da
Leaprodexim. Estaria de visita à Europa para se reunir com alguns clientes e estava disposto a visitar-me
em Lisboa.
Eu conheço bem a empresa Leaprodexim e esta não tinha nenhum «Departamento de Exportações».
Percebi de imediato o que se passava. Não tendo conseguido localizar-me, os meus pretensos captores
arranjaram um estratagema. Os gestores da Leaprodexim haviam sido postos sob «Detenção
Administrativa» e os militares Vietnamitas tentavam apanhar-me através dos telefones, faxes e
colaboradores da empresa. Pensei em telefonar à Leaprodexim e pedir para falar com o presidente, o
senhor Pham, ou com o seu assistente, Toan. Após ter reflectido sobre o assunto, não vi nenhuma
utilidade nisso. Ter-me-iam dito que estavam ambos de férias, ou algo do género, e os meus pretensos
captores iriam perceber que eu não tinha caído na armadilha. Pareceu-me melhor aceitar ingenuamente o
convite. Estava na altura de regressar a Lisboa.
III – ENCONTRO COM O SENHOR DO
Voltei para Lisboa e encontrei-me com o Ricardo.
Expliquei o que se passava. E disse-lhe que precisava de protecção.
- Já recebemos ordens «de cima» para o proteger. Estaremos por perto. Mande uma limousine ir buscá-lo.
O motorista será «um dos nossos». Recomendo que fique em casa sob minha protecção até ele chegar.
Não vá à rua sozinho, não vá além desta zona (Almada). Arranje forma de o senhor Do fazer uma reserva
no Hotel Tivoli.
O Hotel Tivoli é um hotel de cinco estrelas situado num beco sem saída. Qualquer tentativa de captura
seria facilmente contrariada.
Passei os três dias seguintes com o Ricardo e os seus companheiros. Eles acolheram-me e protegeramme.
Foi enviada uma limousine para o senhor Do.
Chegámos ao Hotel Tivoli em três carros, antes de o senhor Do chegar. Creio que os outros dois carros
estavam cheios de forças de segurança de elite (Brigada Anti-Banditismo). Quando chegámos, dois deles
colocaram-se no telhado do hotel. Os outros espalharam-se. Foram postos aparelhos de escuta e câmaras
de vídeo em locais estratégicos.
Uma vez que não confiava inteiramente no S.I.S., tomei medidas para que cinco amigos meus estivessem
no hotel com armas.
Informei o Mota, o agente no comando das operações, da presença deles. Eu e o Ricardo fomos ao bar e
pedimos umas bebidas (na altura não sabia, mas o empregado tinha sido substituído por um agente do
S.I.S.). O senhor Do chegou passado pouco tempo, com as malas cheias de bolas de futebol, sapatos de
ténis, etc.…
Fui até à recepção para o receber. Aos poucos, entraram doze vietnamitas em grupos de três ou de quatro.
Enquanto falava com o senhor Do, chegou um carro de polícia que bloqueou, ou melhor, controlou o
trânsito no cruzamento que conduzia ao hotel.
Eu e o senhor Do sentámo-nos numa mesa no hall de entrada. O Ricardo também se sentou. O senhor
disse que trazia várias amostras e perguntou se eu me importava que ele mas mostrasse no seu quarto. Eu
aceitei, mas o Ricardo interveio:
- Não vai sair deste hall - disse, em português.
93
O senhor Do foi sozinho buscar as amostras.
De repente, um vietnamita entrou no hotel e dirigiu-se a correr para a nossa mesa. O Ricardo levantou-se
e ofereceu-lhe um pontapé de karaté em cheio no estômago. O homem caiu no chão, levantou-se,
apanhou um táxi e foi-se embora. Os meus cinco amigos levantaram-se, assim como os catorze
vietnamitas. O Mota, que tinha estado presente juntamente com quatro elementos da unidade antiterrorista,
veio falar comigo e depois com cada um desses quatro elementos (que estavam em locais
distintos). Tudo estava calmo aquando do regresso do senhor Do. A maioria dos vietnamitas tinha
abandonado o hotel.
Estes encontros foram filmados. O S.I.S. detectou a presença de vinte agentes vietnamitas, num total de
dezassete homens (sem contar com o senhor Do) e três mulheres. Alguns tinham utilizado um carro
diplomático da Embaixada do Vietname em Paris. Isto originou um protesto diplomático «informal»
Os vietnamitas bateram em retirada.
IV – PROBLEMAS EM SAIGÃO
Iternational Herald Tribune of
Quinta-feira, 15 de Janeiro de 1998
Líder Militar Abatido em Tribunal Vietnamita
Página 4
HANOI: Um agente de alta patente militar foi abatido a tiro num tribunal marcial no sul do Vietname,
relatou na Quarta-feira um jornal do estado.
Segundo o jornal Thanh Nien, o coronel Vo Van Trung foi baleado de perto por um subalterno, o
tenente-coronel Nguyen Quang Thai, na Terça-feira. O tenente Thai terá, depois, baleado um outro
colega, o qual ficou gravemente ferido. Não ficou claro se estava ou não a decorrer um julgamento na
altura. O jornal falava de uma pequena intervenção militar que teve lugar quando a polícia cercou o
tribunal da cidade de Ho Chi Minh para pôr fim à situação. O senhor Thai acabou por dar um tiro no
crânio, informa o jornal. Morreu algum tempo depois. Uma fonte diz que o motivo do tiroteio não é
conhecido, mas acrescenta que a situação na zona militar do Vietname, que engloba Ho Chi Minh e as
províncias adjacentes, se tornou «complexa» devido a mudanças de comando nos postos mais altos.
(Reuters)
O tenente-coronel Thai e os seus subalternos foram acusados de «abuso de poder» e tráfico de droga.
Sabendo que a sanção é a morte, tentaram fugir. E por isso é que a polícia militar cercou o tribunal de Ho
Chi Minh. Ao ver que não tinha por onde fugir, o tenente-coronel Thai suicidou-se. O tiro que disparou
antes do derradeiro foi dirigido para cima, para o tecto. A sua intenção era fazer com que as pessoas
percebessem que ele fora obrigado a cumprir ordens. Aparentemente do general Than, o general de
patente mais elevada no sul do Vietname.
Pelos vistos, o S.I.S. tinha feito o que lhe competia. Mas o perigo estava à espreita.
AS HIENAS PROCURAM VINGANÇA
Dei início às negociações com o senhor Do. Fazia parte do nosso acordo e eu acreditava realmente nas
exportações. Tudo correu muito bem. Até criei um sítio na Internet com o intuito específico de publicitar
os produtos da Leaprodexim e recebi alguns pedidos de encomendas, tanto online, como ( e sobretudo)
offline.
Durante algumas semanas tudo parecia correr bem, até que recebi um e-mail da Impetus Trading, um
fabricante de equipamentos semelhantes do Paquistão. Oferecia exactamente os mesmos produtos mas a
94
preços mais baixos. Porém, esta medida não era comum. Os fornecedores não costumam negociar com
outros fornecedores. Senti o perigo novamente à espreita.
Visitei o sítio na Internet desta empresa e reparei que era o segundo visitante! Alguém tinha
encomendado esta página e ido lá confirmar a sua existência. Eu tinha sido a única pessoa a ser
contactada. Informei o S.I.S., mas não lhes respondi.
Fui posteriormente contactado por várias outras empresas que me apresentaram produtos semelhantes.
Não lhes respondi.
Foi então que recebi o seguinte e-mail:
Assunto: informação
Data: Segunda-feira, 11 de Maio de 1998, 23:09:43 +0100
De: “E.L” <allstone@indigo.ie>
Organização: Allstone
Para: miguel.pereira@nca.pt
Estou interessado em adquirir uma propriedade em Portugal, rural ou de outro cariz; poderia enviar-me
um e-mail com informação detalhada de todas as propriedades que tiver até cem libras esterlinas.
Eamon
P.S. Por favor envie pormenores da sua empresa, pois encontrei a sua morada de correio electrónico
numa lista de contactos virtual e não possuo mais informações como nome de contacto, morada, número
de fax, etc.
Obrigado
Eu estava em certa medida envolvido no negócio imobiliário, mas consegui descortinar o esquema por
detrás das aparências. E sabia que o meu nome não constava de nenhuma lista de contactos virtual.
Respondi que estava fora do país por um período indeterminado (o que era verdade), mas que entraria em
contacto quando estivesse de regresso.
Abreviei a minha estadia no estrangeiro e entrei em contacto com o S.I.S.. Fui colocado sob protecção
«não oficial».
De seguida, enviei este e-mail:
Caro El,
Devido a circunstâncias inesperadas, tive de regressar a Portugal. Estarei cá até ao fim de Julho.
Encontrei algumas propriedades que lhe podem agradar. Se ainda estiver interessado, por favor contacteme.
Atentamente,
Miguel Pereira
Ao mesmo tempo, enviei o seguinte e-mail para várias moradas no sul do Vietname:
Assunto: THE TIGERS OF SAIGON
Data: Terça-feira, 9 de Junho de 1998, 10:22:35 +0200
De: Miguel Pereira <miguel.pereira@nca.pt>
Para: luong@netnam.org.vn
Estimados amigos,
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O S.I.S. e a Interpol confirmaram a minha suspeita de que, apesar de ter retirado do olhar público o meu
livro e de me ter abstido da política do Vietname, oficiais de alta patente do vosso país tentaram contratar
assassinos para me localizar, obviamente com intenções para lá de amigáveis.
No fax que enviei ao senhor Do Than Hong, no âmbito de relações amigáveis, consenti em retirar o meu
livro The Tigers of Saigon e abster-me de qualquer tipo de envolvimento na política do vosso país.
Obviamente, os últimos acontecimentos tiram todo o sentido à expressão «relações amigáveis».
Tenciono, agora, levar a cabo os seguintes passos, dentro dos prazos estabelecidos:
1) Voltar a publicar e apresentar o livro The Tigers of Saigon dentro dos próximos 15 dias.
2) Vender os direitos de The Tigers of Saigon e Enter the Restricted Areas a uma editora que tinha já
demonstrado interesse no primeiro livro dentro dos próximos 30 dias.
3) Enviar uma segunda carta aberta ao vosso governo, onde explico os motivos subjacentes ao meu
comportamento dentro dos próximos 30 dias.
4) Vender os direitos da história para a realização de um filme. Já foram feitos contactos anteriormente, e
depois suspensos após o meu encontro com o senhor Do.
Envio-vos esta carta como correio privado. No entanto, caso não receba nenhuma resposta no prazo de 15
dias, todas as minhas comunicações passadas, presentes e futuras convosco serão tornadas públicas,
cópias serão enviadas para a imprensa, para políticos europeus e norte-americanos e para organizações
não governamentais como a Amnistia International, o Open Society Institute, a Soros Foundation (que
está interessada em produzir um documentário sobre os Direitos Humanos no Vietname), a Free Vietnam
Association, entre outras. É claro que irei também entrar em contacto com o vosso governo de modo mais
formal.
Espero que esta questão possa ser resolvida de forma mais amistosa. Contudo, de uma coisa devem ficar
cientes: se encurralarem um tigre, ele vai ripostar.
Cordialmente,
P.S.: Tenho vários advogados com poderes para ceder os meus direitos de autor. Não compreendo o que
é que podem ter a ganhar ao capturar-me ou matar-me. Seria como dar um tiro no próprio pé.
Alguns minutos depois, recebi um e-mail em branco do suposto «comprador». Nunca mais entrou em
contacto comigo.
Recebi, então, uma carta de David Nguyen, que me havia aconselhado algum tempo atrás a fazer «um
tratamento psiquiátrico o mais depressa possível». Eis o que nela constava:
Caro Senhor Pereira,
Quando o contactei por e-mail estava a trabalhar para o Fórum de Discussão Australiano-Vietnamita e
senti-me na obrigação de partilhar o meu ponto de vista. Lamento sinceramente se o ofendi. É livre de
publicar o seu livro. Está no seu direito. Porém, devo dizer-lhe que já não estou a trabalhar no Fórum e
não de forma alguma envolvido com os acontecimentos que tiveram lugar, nem quero ter nada a ver com
os mesmos.
Melhores cumprimentos,
David Nguyen
A resposta mais autêntica veio de uma empresa paquistanesa com a qual tinha tido algum contacto:
Assunto: Re: ADVERTÊNCIA FACAS
Data: Segunda-feira, 6 de Julho de 1998, 13:07:17 +0200
De: Miguel Pereira ‹miguel.pereira@nca.pt›
Para: vivify <vivify@space.net.pk>
Referências: 1
96
A empresa Vivify escreveu:
Estimados Senhores,
Esperamos que estejam bem e o vosso negócio em desenvolvimento.
Convidamo-los a considerar a nossa proposta de fornecer TODO O TIPO DE FACAS.
Lamentamos até agora não termos recebido uma resposta da vossa parte, mas esperamos que a nossa
proposta esteja a ser analisada atentamente e que nos contactem em breve.
Gostaríamos de acrescentar que somos fabricantes legítimos e abastecemos tanto os fornecedores locais,
como parceiros estrangeiros. Os nossos clientes confiam na qualidade e entrega atempada dos nossos
produtos.
Estamos interessados a trabalhar com a vossa reputada empresa e pedimos que nos dê oportunidade e
garantimos que ficarão satisfeitos a todos os níveis.
Agradecemos e garantimos a nossa cooperação. Esperamos receber uma resposta positiva através de email
ou fax.
Melhores cumprimentos/ M.ASGHAR SHEIKH
Fax: 0092-432-540387
Telefone: 0092-432-540145
Seguiram-se outros avisos:
Assunto: 2 ADVERTÊNCIA FACAS
Data: Segunda-feira, 29 de Junho de 1998, 15:50:36 +0500
De: vivify <vivify@space.net.pk>
Para: miguel.pereira@imagine.pt
Estimados Senhores,
Esperamos que estejam bem e o vosso negócio em desenvolvimento.
Convidamo-los a considerar a nossa proposta de fornecer TODO O TIPO DE FACAS PARA
QUALQUER TIPO DE UTILIZAÇÃO E SERVIÇO..
Lamentamos até agora não termos recebido uma resposta da vossa parte, mas esperamos que a nossa
proposta esteja a ser analisada atentamente e que nos contactem em breve.
Gostaríamos de acrescentar que somos fabricantes legítimos e abastecemos tanto os fornecedores locais,
como parceiros estrangeiros. Os nossos clientes confiam na qualidade e entrega atempada dos nossos
produtos.
Estamos interessados a trabalhar com a vossa reputada empresa e pedimos que nos dê oportunidade e
garantimos que ficarão satisfeitos a todos os níveis.
Agradecemos e garantimos a nossa cooperação. Esperamos receber uma resposta positiva através de email
ou fax.
Melhores cumprimentos/ M.ASGHAR SHEIKH
Data: Segunda-feira, 20 de Abril de 1998, 10:04:24 +0500
De: QAISER PERVEZ <qaiser@sp.net.pk>
Organização:
Para: miguel.pereira@imagine.pt
Assunto: fabricantes exportadores e importadores couro, bolas de futebol e produtos têxteis catálogo
Data: Segunda-feira, 20 de Abril de 1998, 10:04:24 +0500
De: QAISER PERVEZ <
Organização: A.Q.R TRADERS . REGD
Para: miguel.pereira@imagine.pt
ESTIMADOS SENHORES,
97
SOMOS FABRICANTES E EXPORTADORES DOS PRODUTOS ACIMA MENCIONADOS. POR
FAVOR VISITE O NOSSO SÍTIO NA INTERNET. GARANTIMOS QUE NUNCA FOI VISTO
ANTES BOLAS DE FUTEBOL E CASACOS BRILHAR NO ESCURO. AGUARDAMOS OPINIÕES.
AGRADECEMOS E MELHORES UCPMIREMTNOS
QAISER PERVEZ
http://www.qaiser.com
Fabricantes e exportadores
Bem-vindo ao nosso catálogo online. Veja os nossos produtos. Para mais informações basta
Todo o tipo de Luvas, Casacos, Bolas de futebol, Roupa desportiva e T-shirts.
Este sítio foi concebido e promovido por SpaceNet (Todos os Direitos Reservados).
Assunto: 3 ADVERTÊNCIA FACAS
Data: Segunda-feira, 21 de Setembro de 1998, 19:43:12 +0500
De: Vivify International
Para: miguel.pereira@imagine.pt
ESTIMADOS SENHORES,
ESPERAMOS QUE ESTEJAM BEM E O VOSSO NEGÓCIO EM DESENVOLVIMENTO.
CONVIDAMO-LOS A RECORDAR O NOSSO E-MAIL DE 29/6/98, RETOMANDO A NOSSA
PROPOSTA PARA FORNECER TODO O TIPO DE FACAS (DE CAÇA, BORBOLETA, CANIVETE,
DE COZINHA, NAVALHA, PUMA, ETC.).
LAMENTAMOS ATÉ AGORA NÃO TERMOS RECEBIDO UMA RESPOSTA DA VOSSA PARTE,
MAS ESPERAMOS QUE A NOSSA PROPOSTA ESTEJA A SER ANALISADA ATENTAMENTE E
QUE NOS CONTACTEM EM BREVE COM PEDIDOS DE AMOSTRAS, PREÇOS OU OUTRO
TIPO DE INFORMAÇÕES. TODAS AS VOSSAS QUESTÕES RECEBERÃO A NOSSA ATENÇÃO.
ACRESCENTAMOS QUE SOMOS FABRICANTES LEGÍTIMOS E QUE TEMOS PREÇOS,
QUALIDADE E DESIGN COMPETITIVOS. ESTAMOS A PRODUZIR GRANDE QUANTIDADE
DE FACAS E PODE VER O SEU DESIGN NO NOSSO SÍTIO NA INTERNET.
DESFRUTAMOS DE BOA POSIÇÃO FINANCEIRA E TÉCNICA E TEMOS CAPACIDADE PARA
RESPONDER ÀS SUAS EXIGÊNCIAS GRANDES OU PEQUENAS.
POR FAVOR VEJA ABAIXO OS NOSSOS PREÇOS DE ARTIGOS NA INTERNET. PREÇO POR
DÚZIA
VK501 35.50
VK504 23.60
VK511 61.00
VK525 22.85
VK532 12.75
VK537 11.40
VK548 17.75
MELHORES CUMPRIMENTOS
SHEIKH MUBBASH
EU RESPONDI:
98
As facas são objectos interessantes. Podem ser utilizadas para vários fins. Podem ser utilizadas para
intimidar. Podem ser utilizadas para magoar, torturar ou matar. Podem até ser utilizadas com outras
intenções, como promover conflitos ou fazer notícias. Recordo-me de, há algum tempo, um jornalista da
Associated Press me dizer: «Não se preocupe. Se houver sangue, há notícia».
Este comentário não me deixou nada sossegado, por isso decidi ter bom-senso e evitar as facas. No
entanto, graças à vossa insistência, estou disposto a adquirir uma. Por favor digam-me em que tipo de
faca se especializam. Se forem especialistas em facas para intimidar, não precisam de me enviar
nenhuma. Já percebi o recado e, desde que não haja provocações ou incidentes, vou manter a discrição tal
como fiz até ter recebido a vossa amistosa proposta de negócio.
Se forem especialistas noutro tipo de facas, informem-me.
Atentamente,
Miguel Pereira
Assunto: Re: Pedido referente a «Um Tigre do Saigão»
Data: Segunda-feira, 22 de Junho de 1998, 08:51:18 +0200
De: Miguel Pereira <miguel.pereira@nca.pt>
Para: Vern Weitzel <vern@coombs.anu.edu.au>
Referências: 1
Vern Weitzel escreveu:
>
> Por aqui, não ouvimos nada. Mas vou estar à escuta,
>
>Há uma lista recente de ministérios e moradas em:
>
>http://coombs.anu.edu.an/~vern/avsl/cabinet97.html
>
> Até à próxima, Vern
Caro Vern,
Por favor, não tomem medida alguma por agora. Algo se passa do lado vietnamita que não compreendo
(todos os endereços de correio electrónico e sítios na Internet falsos cessaram actividade e as mensagens
não são recebidas). Não quer dar um passo em falso. Obrigado por tudo.
Assunto: Conversa de negócios
Data: Segunda-feira, 20 de Outubro de 1997, 19:45:15 +0500
De: Impetus Tradings <orientgp@brai.net.pk>
Para: miguel.pereira@nca.pt
Webmaster
Assunto: Re: 3 ADVERTÊNCIA FACAS
Data: Quarta-feira, 23 de Setembro de 1998, 12:53:29 +0200
De: Miguel Pereira <miguel.pereira@nca.pt>
Para: Vivify International vivify@skt.comsas.pk
Referências: 1
A Vivify International escerevu:
>
> ESTIMADOS SENHORES
>
> ESPERAMOS QUE ESTEJAM BEM E O VOSSO NEGÓCIO EM DESENVOLVIMENTO.
99
>
> Vivify International,
Caros Senhores,
Tenho apenas algumas palavras a acrescentar à minha anterior resposta:
1) Não tive nenhuma espécie de contacto com a Franklyn Associates no que diz respeito ao Vietname
2) Há muito que tenho conhecimento dos vossos receios perante a possibilidade de eu prejudicar os
vossos interesses sem que se apercebam. Foi por isso que eu cheguei mesmo a sugerir que me enviassem
um «assistente» para dirigir as negociações com a Leaprodexim. Tinha esperança de que, se este
«assistente» vos relatasse a força das minhas defesas, o meu verdadeiro estado de espírito e intenções,
bem como o meu desejo de não vos prejudicar de forma alguma, pudéssemos encontrar uma solução
sensata. Infelizmente, a minha proposta foi recusada, o que não ajuda.
3) Infelizmente, os vossos actos requerem agora uma resposta. Vou aguardar até saber a opinião de certas
pessoas, não quero intensificar o problema, mas irei com toda a certeza reagir de um modo que não vos
convém nos próximos dias, a não ser que até lá se estabeleça um diálogo honesto, aberto e confidencial.
O que é que querem, exactamente? Há alguma coisa que eu possa fazer para pôr termo a este assunto, ou
só me resta fomentar o conflito?
Atentamente,
Miguel Pereira
Caros amigos,
Gostaria de desenvolver o meu e-mail anterior acerca da vossa amável sugestão de venda de facas.
Um problema das facas é que tem de se localizar e aproximar do alvo. As facas podem ser muito úteis
quando se quer atacar um vizinho desprevenido. Noutras situações, as facas são inúteis e podem até lesar
o seu proprietário.
Já não estou sozinho e desarmado nas ruas de Saigão. Tentaram usar facas nessa altura e vejam no que
deu!
É-me muito mais fácil a mim detectar a vossa presença do que vos é detectar a minha localização. Se
detectar mais uma das vossas simpáticas abordagens, vou reagir. Não uso facas. Uso uma arma muito
mais potente chamada informação. Garanto que não vão gostar da minha retaliação. Tenho uma enorme
vantagem: não preciso de vos localizar nem mesmo identificar. Outros fá-lo-ão por mim.
Mas vejamos o que poderia acontecer se as vossas facas surtissem efeito em mim. Os meus advogados
seguiriam as minhas instruções. Todos os meus trabalhos seriam publicados. O guião completo seria
enviado para uma produtora. Isto originaria um filme que acredito poderia mudar radicalmente a estrutura
de poder no sul do Vietname. Muitas pessoas ligadas ao poder ficariam incomodadas, e são o tipo de
pessoas peritas em facas. Mesmo que conseguissem capturar-me, os meus advogados procederiam da
mesma forma. As minhas instruções foram inabaláveis nesse aspecto. Ser-me-ia impossível alterá-las, a
não ser que pudesse falar com eles pessoalmente.
Ás vezes pergunto a mim mesmo se não meu dever moral seguir em frente com o processo. Há muito
tempo que reflicto sobre isto. Porém, cheguei à conclusão de que não vale a pena. O respeito pelos
direitos humanos é uma consequência inevitável do desenvolvimento económico. Aquilo de que o
Vietname precisa é progresso económico, e não agitação política. Mesmo que o vosso governo caísse, as
violações aos direitos humanos continuariam. As filipinas nunca foram um país comunista e, no entanto,
100
o mesmo tipo de abusos teve lugar até há pouco tempo. O mesmo aconteceu com o Brasil, África, etc.…
estes abusos são inevitáveis e não há nada que eu possa fazer.
Então, porque escrevi The Tigers of Saigon? Por duas razões. A principal razão é que queria negociar a
retirada do livro pelo bem-estar dos meus amigos vietnamitas. Sentia-me directamente responsável pelo
seu destino. Por isso apenas publiquei a obra sob formato electrónico e vos avisei antecipadamente.
Infelizmente, nunca consegui estabelecer um diálogo convosco.
Provavelmente agora já é tarde. Acredito que as vossas facas sejam eficazes contra pessoas desarmadas,
inocentes e desamparadas.
A segunda razão é querer fazer-vos perceber que tentar matar-me pode surtir consequências lamentáveis.
Espero que tenham o bom-senso para o compreender.
Se estivesse no vosso lugar, rezaria todos os dias para que eu vivesse de boa saúde por muito tempo, pois,
quando eu morrer, vão ser confrontados com os fantasmas do vosso passado.
Atentamente,
Resposta 2: Talvez não esteja a contactar as pessoas certas?
Assunto: Re: Conversa de negócios
Data: Sábado, 25 de Julho de 1998, 05:08:59 +0200
De: Miguel Pereira <miguel.pereira@nca.pt>
Para: Impetus Tradings <impetus@skt.comahh.net.pk>
Referências: 1
A Impetus Tradings escreveu:
>
> Estimado Senhor,
>
> Bom dia.
>
> Qual resultado de investigação criminal referente a Seus parceiros de negócios no
> Vietname?
>
> Esperamos ter boas notícias permitir continuar negociação.
>
> Atentamente,
> Impetus Tradings
>
> Obrigado e Melhores Cumprimentos: Kashif.
Não tenho tantas informações como julgam. Se tivesse não faria comentários. Penso que este assunto está
resolvido, mas já não estou interessado em operações de importação-exportação.
Cumprimentos,
CARTA ABERTA ÁS AUTORIDADES VIETNAMITAS
Lisboa, 23 de Abril de 2006-06-15
101
Cavalheiros,
Na última carta que vos enviei deixei o aviso de que qualquer nova tentativa de captura me faria ter de
reagir. As vossas recentes tentativas não passaram despercebidas. Obrigaram-me a seguir um caminho de
intensificação e confronto que passei os últimos anos a tentar evitar.
Ainda não sou capaz de compreender os vossos motivos. Retirei The Tigers of Saigon; não publiquei
Enter the Restricted Areas; abstive-me de qualquer envolvimento com a política do vosso país;
conseguiram silenciar-me. Custa-me a perceber por que é que deixam o vosso desejo de vingança deitar
isso a perder.
Na sua «Resposta a The Tigers of Saigon» colocada pelo Professsor Vern no Fórum Australiano-
Vietnamita-1, o coronel Nguyen Than Thai perguntou-me como tinha eu descoberto com tanta exactidão
os segredos das altas patentes. A verdade é que toda a gente conhece os vossos «segredos». Pergunte a
qualquer rapazote ou prostituta, pergunte a qualquer habitante da «Áreas Restritas» (já agora, por que é
que são «restritas»?) ou até a qualquer estrangeiro residente no Vietname, e eles contar-vos-ão estes
«segredos». Se vivem na ilusão de que as vossas acções criminosas são de alguma forma «secretas», é
melhor abrirem os olhos.
No entanto, o objectivo desta carta não é revelar estes «segredos». Pelo contrário, é apresentar a proposta
de que os responsáveis por estas acções criminosas não devem ser presos pelas mesmas, mas sim pela sua
monumental estupidez e gigantesca incompetência, que prejudica os interesses dos vossos superiores
militares e políticos. Permitam-me que explique.
Os operacionais de informações de alta patente têm de recordar algumas das regras básicas da
espionagem e de operações camufladas. Não vou discorrer sobre os incríveis disparates que cometeram
durante a minha estadia no Vietname. Basta dizer que não conseguiram matar-me nem capturar-me
(capturaram, sim, dois inocentes). Estes acontecimentos são descritos na minha obra (em anexo) Tigers of
Saigon e já são do conhecimento dos destinatários desta carta. No que diz respeito às vossas últimas
acções, deixem-me lembrar-vos de algumas regras que ignoraram:
Regra n.º 1 – Quando se planeia uma tentativa de captura, deve ser-se discreto.
Quando publiquei The Tigers of Saigon, tinha plena consciência de que me arriscava a ser capturado.
Obrigar-me a retirar o livro foi a reacção mais óbvia, embora primitiva. Porém, uma vez tendo optado por
este caminho, não mo deveriam ter dado a conhecer. Ainda assim, na véspera da sua partida em direcção
a uma tentativa de captura falhada, o coronel Than Thai teve o bom(?)-senso de colocar no Fórum de
Discussão Australiano-Vietnamita-1 o seguinte aviso:
«Mesmo assim, gostaria que alterasse o título e nomes apresentados na obra, tal como sugeri. Gostaria
de comprar um exemplar para ler no avião». Isto foi um aviso deveras útil! Mesmo nas vossas barbas!
Regra n.º 2: Quando se finge ser um cidadão tailandês, deve-se aprender a falar tailandês.
Não falo tailandês fluentemente, mas gosta de praticar sempre que surge uma oportunidade. Por isso,
quando me deparei com uma «turista tailandesa» perto do meu escritório, elogiei a sua beleza em
tailandês. Infelizmente, a pobre rapariga não percebeu!
Regra n.º 3: Se se utilizar carros diplomáticos, não se deve ser visto neles.
Embora um carro diplomático possa ajudar num tentativa de captura, pode ser embaraçoso caso se seja
descoberto. (Os vossos agentes foram apanhados em flagrante a utilizar um carro diplomático.)
Regra n.º 4: Quando se compra telemóveis durante uma operação, deve-se pedir um número
confidencial; e deve-se aprender a usá-los correctamente.
Um dos primeiros passos que os vossos agentes deram quando chegaram a Portugal foi adquirir um
telemóvel. Contudo, não pediram um número confidencial. Ao tentar memorizar o meu número, o
coronel Thai ligou-me sem querer. Eu atendi e ele desligou; eu liguei de volta (como não era
102
confidencial, o número apareceu no visor) e ele não atendeu. Como fiquei desconfiado, confirmei na
Telecel (a operadora) que o número era recente (existi apenas há dois dias) e informei o S.I.S..O telefone
foi posto sob vigilância e em breve todos os vossos números foram identificados. Isto forneceu-nos um
filão de informações. (Estas gravações incriminam-vos directamente e ainda vão ouvir falar delas.)
Regra n.º 4: Aprender a contar.
A maioria dos sítios na Internet tem um contador, um dispositivo simples que «conta» o número de
visitantes do sítio. Na vossa segunda tentativa de captura, depois do suicídio do coronel Than Thai,
serviram-se de uma empresa paquistanesa fictícia. Encomendaram uma página na Internet para esta
empresa, onde descreviam os supostos produtos e serviços, para depois me enviarem um e-mail com uma
proposta de negócio atractiva. Eu visitei a página e reparei que era o visitante n.º 2! Isto originou muita
risota entre mim e os meus amigos do S.I.S., mas talvez não fosse esse o vosso objectivo.
Não comprometer os bens camuflados.
No vosso contacto com a Confinor, utilizaram um nome «legítimo» para dar aos vossos agentes um ar
respeitável, deixando-os fingir que eram funcionários do «Grupo Inmobiliario». O resultado final foi
terem chamado a atenção para este «Grupo Inmobiliario».
Não vou comentar os vossos últimos disparates. Basta dizer que capturar-me não é tarefa fácil. Já não
estou sozinho e desarmado nas ruas de Saigão. Contrataram um dos vossos operacionais e ele chegou cá à
espera de encontrar um alvo desprevenido e desprotegido. A tecnologia moderna permite controlar os
movimentos de uma pessoa à distância. No entanto, parece que não o informaram de que eu estava a ser
vigiado. Como poderia ele capturar-me? De que resultado é que estavam à espera?
Compreendo perfeitamente a vossa humilhação e pesar no que diz respeito a estes acontecimentos,
sobretudo à morte trágica do coronel Than Thai e seus subalternos. Não há nada que se possa fazer para o
trazer de volta. Os meu amigos também sofreram (incluindo uma menina de 4 anos que ficou privada de
alimento), foram torturados e mortos. Onde é que isto vai parar e até quando é que a lista vai continuar a
crescer até darem ouvidos à razão?
Também compreendo os vossos medos no que toca às «Áreas Restritas». Estive numa aldeia em que as
raparigas foram capturadas (preferem o termo «recrutadas»?) pela polícia militar. Isto pode implicar-vos
no crime de genocídio. Estas minorias existem há milhões de anos e, no entanto, a continuação de
medidas como esta pode destruir a sua identidade cultural em poucas gerações. Abstive-me de publicar a
obra Restricted Areas precisamente por saber que fariam de tudo para evitar que se soubesse a verdade, e
que procurariam vingança custasse o que custasse. Não quis ser um mártir do Vietname. Mas agora não
me deixam grande escolha!
O que mais está para acontecer? Este assunto vai voltar ao de cimo; as pessoas vão investigar; turistas
farão cópias dos meus livros e vão levá-los para o Vietname. Serão feitas cópias vietnamitas (proibidas?)
e transmitidas clandestinamente. Vai surgir um mito. Espero que seja feito um filme e espero que ele
contribua para mudar radicalmente a estrutura de poder no sul do Vietname. Tudo graças à vossa
insistência irracional em procurar vingança.
Dependendo da vossa reacção, posso também vir a criar um sítio na Internet dedicado à investigação de
crimes cometidos no Vietname do Sul. Compilei relatos credíveis do que se passa nas «áreas restritas».
Estes relatos podem ser enviados para instituições como a Human Rights Watch e a Soros Foundation.
Através destes e de outros meios os vossos superiores militares e políticos seriam informados
pessoalmente de que, se não investigassem as vossas acções criminosas, teriam possivelmente de
enfrentar a acusação de genocídio num futuro não muito longínquo.
Por fim, adquiri um seguro de fim de vida. Se vier a falecer, alguns milhões de dólares serão utilizados
para financiar «actividades culturais» e «concursos literários» cujas consequências nunca sequer
chegaram a considerar. Tenho em mente um «concurso literário» com textos afectos ao tema «A minha
vida» aberto a todos os habitantes do Vietname do Sul, com prémios de dez mil dólares para todos os que
forem publicados. Os direitos resultariam em quinhentos mil euros e os direitos do meu livro serviriam
103
para financiar uma investigação criminal (sediada na Bélgica) sobre as vossas actividades de genocídio
nas «Áreas Restritas».
Se estivesse no vosso lugar, engoliria o meu orgulho e poria fim às tentativas de captura ou de assassínio,
pois as consequências, caso o não façam, seriam muito desagradáveis para vós.
Atentamente,
Miguel Pereira

Edition Notes

Published in
BRASIL

The Physical Object

Format
Paperback
Pagination
3
Number of pages
9
Dimensions
30 x 20 x 10 centimeters
Weight
200 grams

Edition Identifiers

Open Library
OL24990978M

Work Identifiers

Work ID
OL16095024W

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